CAPÍTULO 2

Na sala de embarque os passageiros de diversos vôos se misturavam desordenadamente, o lugar estava muito mais cheio e tenso que o de costume. O motivo de tanta confusão era o mesmo que tinha deixado a redação da revista num caos semelhante.

Uma forte e intensa tempestade solar estava pondo todos equipamentos eletrônicos em pane. Não que isso pudesse levar a queda de algum avião, mas causava uma enorme confusão em todas as áreas que mantinham contato com satélites, radares e afins, desta vez nem mesmo transmissões VHF ou UHF estavam a salvo. Com tantos contratempos os vôos estavam atrasando sistematicamente.

O táxi que vinha em alta velocidade parou em frente ao aeroporto e logo em seguida um homem saltou tropeçando e derrubando sua mochila. Não caiu por pouco, equilibrou-se e saiu novamente em disparada. Só o quadro de horários fez com que diminuísse o passo, viu que seu avião estava ainda mais atrasado que ele.

César Hernandez não era propriamente o que se espera de um homem detentor de tantos prêmios. Tinha uma aparência sutilmente frágil. Os óculos de armação discreta não escondiam seu olhar espirituoso e inteligente que associado aos cabelos que escondiam parte da testa dava-lhe ao rosto um ar quase pueril.

Era considerado um jornalista eclético, percorria satisfatoriamente por todos campos, do jornalismo aventura a imprensa cor-de-rosa, inclusive denúncias políticas, tudo com sua marca de eficiência e credibilidade. Na adolescência chegou a ser visto como um nerd. No entanto o passar dos anos lhe foi generoso. Tornou-se um homem bem apessoado e interessante, dono de um sex-appeal instigante que funcionava em seu meio social.

Ao chegar a sala de embarque tropeçou mais uma vez, lançando seus discretos óculos no lustroso chão do aeroporto. Milena não conteve o riso, reconheceu seu novo colega, sua alma desarmou-se e automaticamente sentiu simpatia por ele.

– César Hernandez! – disse ao alcançá-lo – Eu sou Milena Sampaio, sua nova colega da revista Vis-à-vis! – erguendo o corpo após juntar os óculos ele foi descobrindo aos poucos a dona da voz.

Ela esperou ele se compor com a mão erguida para cumprimentá-lo – É um prazer conhecer o meu novo e ilustre parceiro! Seja bem-vindo a Vis-à-vis!

César tomou a mão de Milena com confiança, ela sentiu-se, por um instante, presa ao olhar dele, que parecia esquadrinhar sua alma.

– Oi, eu sou o Murilo, vou ser o assistente de vocês! – o jovem surgiu de algum lugar e meteu-se entre os dois procurando ser simpático – Tudo que precisar pode contar comigo, vou estar de plantão dia e noite, é só pedir! – César riu amistoso, sentindo que aquela seria uma boa equipe de trabalho.

– O vôo atrasou por problemas nos sistemas de navegação dos aviões, não se preocupem, já me informei e não tem perigo nenhum. As conexões também estão atrasadas, o problema não acontece só no Brasil. Se tudo der certo vocês conseguirão seguir sem problemas! – Murilo transpirava eficiência.

Foram interrompidos pelo chamado do vôo, indicando o portão a seguirem. Milena já havia despachado uma pequena mala e sua bagagem de mão era apenas o último presente que seu ex-sogro havia lhe dado.
***

Há duas semanas, qual não foi sua surpresa ao chegar em casa. Oscar e Totila haviam organizado uma pequena reunião, uma festa surpresa pelo seu vigésimo sétimo aniversário.

Estavam presentes todos seus amigos mais íntimos, justamente com quem Milena gostaria de comemorar mais um ano de vida, e tinha motivos para comemorar.

Totila se exibia com seu novo namorado, o modelo e aspirante a ator Rômulo Portinho. Até mesmo o Sr. Morales compareceu ao pequeno evento, coisa inusitada, pois desde sua separação era raro vê-lo em ocasiões sociais.

A maior surpresa da noite, no entanto, ficara por conta de um ilustre convidado. Egmar Martins de Alcântara surpreendera a todos com sua presença exuberante. O pai de Oscar em cinco anos de namoro pouco tivera contato com Milena, e não escondia de ninguém que era contrário ao relacionamento dos dois.

O poderoso empresário não pode demorar, tinha viagem marcada, não raro já que passava a maior parte do tempo entre os continentes. Aproveitou a oportunidade para despedir-se do filho.

Cumprimentou os convidados com discrição e elegância e felicitou a aniversariante de maneira fria e distante. Milena não estava preparada para a visita e não pode reagir como gostaria. Mais tarde concluiu que era melhor ele agir assim do que cinicamente com afabilidades.

Ele comentou breve, descrente e ironicamente sobre o casamento que se aproximava, também sobre o que ouvira de sua carreira em ascensão, e entregou um presente que havia de ser útil a Milena, como ele mesmo previra. O noteboock de última geração realmente lhe seria muito útil.

***

Pela janela do avião Milena pode ver a cidade ficando cada vez menor, assim como seu coração ao se lembrar do ocorrido pouco antes do embarque quando tentara novamente dissuadir Oscar.

As últimas palavras do invencível ficaram em sua cabeça: – Você está virando as costas ao amor de sua vida! – e terminou a cena jogando no chão a grossa aliança de ouro desenhada especialmente para o casal. O herdeiro milionário era extremamente passional, Milena recriminou-se por pensar assim, mas tinha certeza que Oscar estaria esperando por ela o tempo que fosse preciso, caso ela ainda tivesse interesse em casar-se.

Mesmo sabendo que Oscar não a rejeitaria, o fim do noivado, todas as brigas, as cobranças do Sr. Morales, a viagem para um lugar desconhecido, o casamento cancelado, enfim, tudo isso havia a deixado muito fragilizada, sua carência se elevava a níveis perigosos, pelo menos não estava sozinha, César pareceu ser uma boa companhia.

Na primeira hora de vôo os assuntos surgiam e passavam quase tão rápidos quanto às nuvens pela janela, a ânsia pelo entrosamento era mutua.

– Você tem cara de católico, e praticante! Foi coroinha, certo? – ela tinha acertado, César na infância muito tinha ajudado os padres nas Missas de sua Paróquia.

– E você? É cristã? Você tem cara de quem freqüenta o Manancial! – César brincou referindo-se ao maior templo holístico da cidade, ao qual ele tinha verdadeiro repudio.

Conversavam sobre trivialidades, mas César realmente ansiava saber mais sobre a nova parceira, ignorando as turbulências discretas daquele primeiro encontro, e também do vôo.

– Sou católica como você! – mentiu Milena.

Ela mesma havia pautado um assunto que a incomodava. Falar sobre religião fazia com que se lembrasse de sua mãe e conseqüentemente da sua morte, a qual ela lutava há quase dois anos para superar. Não conheceu no mundo pessoa mais religiosa e espiritualista que sua mãe.

Quando criança Milena desejara diversas vezes ser mesmo católica como as meninas de sua idade. Sonhava com o vestido branco da primeira comunhão, mas com o passar dos anos chegou a sentir-se privilegiada pela diferença, tinha orgulho de ser Rosacruz.

Pouco conhecida no Brasil, a ordem Rosacruz, Amorcorganização internacional de caráter místico-filosófico – foi a religião eleita por sua mãe, uma ordem mística muito aberta, que compreende desde fenômenos xamânicos a conceitos espíritas. Milena havia crescido crendo em vida após a morte, reencarnação, contatos mediúnicos com espíritos, cria também em muitas outras forças e energias ocultas, assim como o Faraó Akhenaton, primeiro imperador da organização, há mais de três mil anos.

Na verdade Milena não era muito espiritualista, apenas respeitava a todas, e muitas crenças de sua mãe que foi levada de seu convivo após seis meses de sofrimento intenso causado por um câncer no estômago.

A morte da mãe, que poderia tê-la aproximado de Deus, acabou por afastá-la de vez. Mesmo sabendo que a alma desencarnada de sua mãe seguiria sua jornada espiritual mais feliz se a filha tivesse encontrado o caminho de sua fé, Milena não tinha encontrado caminho algum, ao contrário, tinha deixado de acreditar em tudo.

Tudo que remetesse Milena a religiosidade, remetia automaticamente a memória de sua mãe e conseqüentemente a mais sofrimento.

Para encurtar assunto ela preferia agora dizer que era católica, o que certamente não despertaria interesse e encerraria o assunto que lhe fazia tão mal.

A última coisa que gostaria era pensar em sua mãe durante aquele vôo, mas ela mesma tinha trazido o assunto. Dragou uma dose dupla de uísque, feito inédito, e tentou dormir ignorando as perturbadoras turbulências de suas lembranças, e também do vôo.

***

Milena deu um salto na poltrona que chegou a acordar César – Que pesadelo horrível! – pensou enquanto se recompunha e secava o suor do rosto. Havia sonhado que estava presa, enterrada viva, dentro de um sarcófago. A escuridão, o aperto, o ar escasseando, foi uma das piores sensações que já tivera. Parecia tão real o pesadelo que lhe deixou novamente com dor de cabeça. Certamente estava mais impressionada com a viagem do que imaginou. César se divertiu ouvindo a história. Já estavam na última conexão do vôo.

Era a primeira vez que a jornalista ia ao continente africano. Lá de cima pode ver o Rio Nilo dividindo a cidade. César lhe mostrou, do outro lado, as enormes mesquitas da religião Mulçumana com imponentes torres alcançando o céu. A viagem com algumas escalas havia levado mais de doze horas. Milena estava exausta e inebriada com tantos choques culturais. O aeroporto internacional do Cairo era luxuoso e organizado, afinal o páis precisava tratar bem de seus turistas.

***

O Cairo, a capital do Egito, estava cinco horas à frente no fuso, Milena ajustou o relógio e se admirou com a cidade, era maior do que imaginava e retalhada por diversos viadutos ligando os dois lados do Nilo, nas ruas algumas pessoas se vestiam como os ocidentais, já outras usavam trajes mulçumanos, os homens com uma espécie de camisolão comprido e turbante, as mulheres de vestido longo, mangas compridas e véu na cabeça amarrado ao pescoço.

Nas calçadas vendedores ambulantes ofereciam artigos típicos, papiros, essências, esculturas, chás, enfim toda sorte de tranqueiras bastante peculiares, tudo isso tendo ao fundo as milenares Pirâmides de Gisé dando um aspecto bastante surreal a paisagem.

Dali tomaram imediatamente um táxi para Alexandria, uma cidade menor e mais afastada. Os táxis no Egito não tinham taxímetro, e a paga, em Libras Egípcias, foi acertada antes da viagem.

Seria impossível seguirem para Luxor, como programado, logo se via que algo estava anormal no país, o fluxo de pessoas estava maior que o costumeiro, impondo um ritmo acelerado e de desordem que beirava ao tumulto em algumas regiões.

A descoberta da nova Pirâmide soterrada pelas areias do deserto havia trazido uma enxurrada de jornalistas do mundo inteiro, assim como estudiosos do assunto, turistas e simples curiosos.

A notícia, por mais que estivessem tentando escondê-la, havia vazado para alguns outros países, em tempo de globalização era impossível manter grandes segredos vitalícios, isso indicava que o trabalho deles teria que ser ainda melhor para que alcançassem algum destaque no cenário mundial. Da América do Sul não havia mais nenhum outro jornalista, segundo a conversa especulativa do bem informado e bem-humorado taxista.

Ao invés da euforia que antes Milena sentia, aquele clima incerto e exaltado, com os ânimos à flor da pele, a deixou extremamente insegura e amedrontada, a dor de cabeça aumentava aritmeticamente.

Foi muito difícil encontrar um lugar para ficarem, além do excesso de pessoas na cidade, diversos hotéis e hospedarias estavam fechados, estranhamente fechados.
Para surpresa de Milena, César tinha um contato em Alexandria, fruto de uma matéria que fizera há alguns anos. Com um pedaço de papel na mão, foram percorrendo um vilarejo, se informando aqui e ali.

Em pouco mais de meia hora encontraram o que procuravam. De parede colada com um barzinho fuleiro, o casebre, embora simples pareceu ser muito acolhedor.

– Cassiana! Oh Cassiana! – César gritou à porta e bateu palmas chamando a dona da casa. Milena ficou contrariada com o escarcéu, afinal estavam em outro continente, na certa o marido da mulher não aprovaria aquela arruaça. Procurou, sem encontrar, uma campainha na tentativa inútil de civilizar aquele contato.

Não demorou e surgiu a porta uma moça franzina, de cabelos curtos e com feições pouco marcantes – Não pensei que fosse tão jovem – avaliou Milena julgando ter a moça vinte e poucos anos.

Em segundos a jovem saltou o pequeno portão festivamente e se pendurou no pescoço de César que era bem maior que ela.

– Não acredito, você por aqui!! – disse com seu jeito matusquela – Que bons ventos te trazem meu amigo?

O português de Cassiana carregado de sotaque surpreendeu Milena, a jovem lusitana a irritou secretamente com seu jeito de falar. A intimidade com que Cassiana reportava-se a César também gerou um desconforto em Milena fazendo com que se sentisse preterida.

Cassiana era uma jovem cosmopolita, no sentido mais literal da palavra. Poucas horas de conversa desfizeram a má impressão da brasileira, logo seu desafeto foi superado. De pequena a portuguesa só tinha mesmo a estatura.

Dona de uma personalidade invejável, Cassiana era o que muitas mulheres sonhavam ser: Independente, inteligente, aventureira, viajada, liberal, enfim, uma nômade do século XXI.

A bordo do turbinado jipe de Cassiana foram conhecer um pouco da cidade, voltaram quase a noite e sem conseguirem nenhum hotel ou pousada para se hospedarem.

Sadeh era a outra dona da casa, uma negra linda de 19 anos, com os olhos mais cativantes que Milena já vira. A jovem tinha saído brigada da casa dos pais por conta de um caso amoroso, no entanto, o rapaz havia desaparecido e a deixado em maus lençóis, sem condições de manter-se sozinha acabou com Cassiana dividindo temporariamente o casebre.

Sadeh gentilmente concordou com o convite de Cassiana de acolher os brasileiros, além de bela revelou-se especialmente amável. Elas dormiriam na sala, que era conjugada com a cozinha, enquanto Milena e César dividiriam o quarto, mesmo porque além do banheiro não havia outra peça na casa.

A distribuição dos cômodos surpreendeu Milena que imaginou César e Cassiana dormindo juntos por se conhecerem a mais tempo, ou talvez por terem sido namorados no passado, mas ao contrário disso, a própria Cassiana acabou dividindo os cômodos.

Como César não demonstrou interesse contrário, Milena também aceitou a situação, ainda que constrangida, primeiro por desacomodar as donas da casa e segundo por ter que, inevitavelmente, dividir o pequeno quarto com César. Logo o cansaço e o estresse da viagem dissuadiram seu constrangimento, afinal já não eram mais crianças.

Milena tentou ser o mais rápida possível no banho para não abusar, e mesmo escorraçada pela água fria, demorou a sair do banheiro, a água tinha o poder de relaxá-la e ela aproveitou a oportunidade.

Absorta não ouviu o toque do celular que já estava adaptado para a viagem, era um aviso de sua operadora indicando as ligações que não puderam ser completadas. O Sr. Morales havia telefonado algumas dezenas de vezes.

César tinha saído e comprado os mantimentos para o jantar que ele mesmo prepararia. Agora a Torre de Babel estava completa, um descendente de espanhóis fazendo um mangiare italiano para uma portuguesa, uma africana e uma brasileira.

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