CAPÍTULO 13

César circulou tranqüilamente pelos corredores do Inlab, nenhuma sanção seria feita a presença dele ali. Os seguranças não mantinham qualquer esquema interno de vigilância, apesar das inúmeras câmeras espalhadas, era praticamente impossível a identificação de intrusos, mesmo porque essa preocupação só agora seria pertinente já que antes ele não tinha tanta notoriedade mundial.

A madrugada não era menos agitada dentro do laboratório. Havia muitos cientistas trabalhando como se estivessem em horário ordinário. Na verdade o laboratório trabalhava num esquema com turnos ininterruptos.

César vagou anônimo pelos corredores, não podia imaginar que fosse tão grande aquele prédio que escondia quatro andares subterrâneos além dos três acima. O grande prodígio do Inlab, no entanto, era a colossal estrutura que estava montada sob seu terraço.

Conhecida como Bioestufa, era a estufa mais surpreendente e rica em espécies do mundo, conseguindo reproduzir o habitat natural de diversos animais da região, o que permitia a cultura e a variação de indivíduos de uma maneira controlada, era sem dúvida um grande portento que os egípcios se orgulhavam quase tanto quanto as pirâmides, embora o laboratório não tivesse nenhuma ligação direta com o país.

Mas César não poderia permanecer muito tempo incógnito, então como acontecia na revista Co-fator, sua antiga empregadora, César soube onde as notícias poderiam se propagar e onde ele conseguiria descobrir alguma informação realmente importante.

O primeiro andar dividia-se entre o refeitório a sala de descanso e a movimentada cantina que fervia com jalecos brancos, azuis, amarelos e rosas, cada cor correspondente ao seu respectivo andar. A quantidade de pessoas que circulava naquele ambiente quase o desanimou, porém antes de deixar o andar ele mal pode acreditar que reconhecia aquele nome no crachá que se aproximava despretensiosamente.

Mourad era um jovem muito bonito, não tinha muito mais que vinte anos e sua pele, os olhos, enfim, todo seu biotipo correspondia ao arquétipo legítimo de um egípcio.

César apresentou-se como um antigo amigo de Mes Jarha, o jovem, como o pai, depois das devidas apresentações, se tornara muito simpático e acessível. O olhar lascivo de Mourad sob César sequer chegou a ser percebido pelo jornalista.

Sabendo das dificuldades financeiras que a família do jovem atravessava, não foi difícil persuadi-lo. Uma boa quantia foi o ingresso de César para um tour com guia particular pelo Inlab, mas Mourad não se arriscaria só pelo dinheiro, ele tinha gostado da companhia de César, e gabar-se de seus méritos para um amigo de seu pai lhe deixava ainda mais orgulhoso.

Mourad tinha acesso a muitas áreas no laboratório, e as que não tinha, algum colega liberava seu caminho. César disfarçou o seu interesse direcionado a pirâmide, mas como aquele era o assunto mais comentado ali dentro, o jovem funcionário de peito estufado gabou-se de ser o retentor e responsável direto sobre os artigos que estavam vindo da nova pirâmide.

César tentou manter-se sereno para não despertar desconfiança no jovem, senão fosse o sistemático gesto de empurrar os óculos no rosto, ele teria desempenhado um papel irrepreensível. A noticia de que realmente havia artefatos da nova pirâmide naquele laboratório deu-lhe certeza que sua investida não havia sido em vão.

Mourad revelou algo ainda mais fantástico, dessa vez César não teve como disfarçar o entusiasmo e a surpresa – Isso é de um sigilo absoluto, nem eu pude acreditar, mas trouxeram pra cá a múmia autêntica desse novo faraó descoberto!!

O jornalista estava boquiaberto em saber que estava ali, no laboratório, a maior relíquia da nova pirâmide. Todo terceiro andar subterrâneo estava ocupado em função disso. Mourad era o responsável técnico pelo lugar e garantiu, que a própria múmia do Faraó Desconhecido estava ali no Inlab.

Milena tem que saber disso! – pensou ainda deslumbrado com a possibilidade que vislumbrava, no entanto César foi resgatado dramaticamente de seus pensamentos.

Com o braço erguido em sua direção vinha correndo do começo do corredor um dos seguranças. O sangue de César gelou. Pensou o que seria melhor a fazer naquela circunstância, talvez subornar o homem também, talvez correr. Suas idéias não se articularam com lucidez e agilidade necessárias, não que tenha optado, mas ficou esperando o segurança alcançá-los.

Mourad tinha também suas preocupações, não teria como explicar o visitante intruso. Era um funcionário antigo e tinha suas regalias, mas não teria como esclarecer o ocorrido. Esperaram, os dois, apreensivos a chegada do vigilante.

Ele se dirigiu diretamente a Mourad, César afastou-se para deixá-los à vontade apesar de permanecer atento aos dois. Alguns instantes de conversa e o homem os deixou novamente – Pode ficar tranqüilo, é só um telefonema pra mim. Eu volto logo! – o garoto se explicou e foi seguindo pelo corredor.

– Espera! Eu vou com você! – César o alcançou, não queria perder de vista seu passaporte para a múmia do Faraó Desconhecido.

Numa sala ali perto ele atendeu a ligação, César permaneceu próximo e conseguiu ouvir alguma coisa. Era o pai de Mourad, o vigilante Mes Jarha, que estava de folga aquela noite. César percebeu que se tratava de algum problema pessoal e familiar. Como precisava conquistar ainda mais a confiança do jovem iria aproveitar a oportunidade.

O jovem Mourad voltou com um semblante preocupado, estava visivelmente abatido. O jornalista perguntou com um gesto o que havia acontecido, enquanto caminhavam de volta pelo corredor – Mais um problema pra minha cabeça! Meu pai acabou de me avisar que a minha irmã, que mora em Alexandria, deixou uma carta e foi se juntar ao bando do Disebek Djau, aquele líder religioso que está causando confusão e matando gente entorno a pirâmide! Ela enlouqueceu de vez!

De cabeça baixa o jovem resignou-se, César tentou esconder do rosto a nova surpresa, mal conseguiu conter-se, ele pressentia que estava a um passo de se tornar ainda mais íntimo de Mourad, o mundo era realmente pequeno, fortuitamente pequeno.

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