Milena também esperou a madrugada chegar para por em prática outro plano, já que o jantar fora infrutífero. Dessa vez pretendia descobrir definitivamente o que aquelas pessoas tão tensas escondiam e ela não conseguiria esperar até que o dia amanhecesse.
Segundo as previsões de Gabrielle essa nova estratégia revelaria grande parte do mistério. Em frente ao quarto 1920a Milena confirmou com cuidado a numeração do aposento.
Gabrielle proveu um cartão pirata que destravava aquele tipo de porta eletrônica. Ela tinha trocado a fita magnética, ou algo do gênero, Milena não se preocupou em saber como, contanto que o cartão abrisse o quarto 1920a.
O hotel que já estava quase vazio, àquela hora da madrugada ficou completamente deserto. Chegar incógnita até o quarto foi bastante fácil.
O quarto era do professor Richard Wilhelm Wild, o mandarim do congresso. Famoso arqueólogo americano, estivera chefiando explorações em cerca de trinta outras pirâmides e mastabas. Tinha pouco mais de cinqüenta anos, e mantinha um bom porte físico, lecionava nas mais importantes faculdades Norte-Americanas e era uma sumidade no que fazia. Os óculos pesados disfarçavam a prótese em seu olho esquerdo o e sua fisionomia lânguida. Se alguém naquele hotel tinha informações realmente válidas, Wild era esse alguém.
A luz da rua que entrava pela janela era suficiente para a jovem vasculhar o lugar. Deixou que seus olhos se habituassem à escuridão para prosseguir. Estava nervosa e com o coração acelerado, não tinha o costume de invadir quartos, estava surpresa consigo mesma e orgulhosa da contenda inédita.
Em cima do escrínio o noteboock do ianque parecia chamá-la com seus leds piscantes. Ali estavam, com certeza, as respostas do que ela procurava, mesmo que nem soubesse quais exatamente eram suas perguntas. O noteboock estava ligado como que a sua espera.
Seu nervosismo era tanto que em alguns momentos quase não conseguia controlar os movimentos. Assim que reassumiu o autocontrole sentou na cadeira em frente ao micro e com cuidado foi direto aos arquivos recentemente abertos no sistema.
Foram tantos arquivos, planilhas, fotos, gráficos, que Milena levou tempo para organizar as idéias e descobrir alguma lógica, ou o princípio daquilo tudo. A quantidade de informações que brotou em sua frente absorveu completamente sua atenção. Não pode acreditar no que via. Os arquivos confirmavam a existência da maior pirâmide já encontrada, inclusive com o histérico das buscas. Estava ali também a localização exata do monumento, a surpreendente e inédita constituição uranosa das rochas, todas as informações muito bem ilustradas com fotos e mapeamentos efetuados através da magnometria, que atestavam a existência de câmaras, túneis imensos, entradas secretas e muitas outras passagens, bem abaixo da pirâmide.
Milena pode descobrir que as escavações no sítio estavam bastante adiantadas, ainda mais com a ajuda de um fenômeno inusitado nas terras do Egito: os lençóis de água subterrâneos estavam, cada vez mais, forçando as camadas superiores do solo, não somente ameaçando os monumentos existentes, como também trazendo à tona muitas coisas que jamais se sonhava que pudessem existir.
Segundo aqueles documentos, que eram oficiais, a pirâmide não havia sido descoberta recentemente, como tudo levava a crer, mas a Pirâmide do Faraó Desconhecido já era conhecida há mais de oito anos.
O estridente toque do celular de Richard quase causou uma sincope nervosa em Milena. O assalto foi tão grande que pensou que iria convulsionar ali mesmo, tamanha pressão que sentiu na cabeça. Antes que ele pudesse vê-la, Milena jogou-se no chão de qualquer maneira.
Seu coração acelerou de uma maneira que jamais tinha antes feito, sentiu uma dormência estranha na língua, jamais tinha levado um susto tão grande e agora rezava para que o homem não levantasse da cama ou acendesse a luz do quarto. Richard demorou a acordar com o toque do celular que estava em cima do criado-mudo. Atendeu o aparelho enquanto acendia a luz do abajur. A claridade quase denunciou a presença da jornalista, mas ela permaneceu ignorada no chão ao lado da cama, mas não sabia até quando.
Com os olhos Milena acompanhou preocupada o andamento da cópia dos arquivos, logo a operação estaria completa e um aviso sonoro indicaria o fim da transmissão de dados para o CD, quando isso acontecesse, no mesmo instante o Professor Wild saberia que não estava sozinho em seu quarto.
Sentado na cama, sua voz ao telefone demonstrou preocupação, já não demonstrava sinais da embriaguez. A ligação parecia estar péssima, ele falava alto e repetia quase todas as frases – Sim, o Engstfeld poria mesmo tudo a perder, foi necessário... foi necessário! N-E-C-E-S-S-Á-R-I-O! – falou paudadamente quase gritando. Milena, mesmo que atordoada pelo susto, ouviu atenta a conversa, queria saber o que dizia o interlocutor e o que tinha acontecido com o alemão Horst Engstfeld ausente no jantar daquela noite.
– Sim senhor, não haverá falhas, os outros trarão o material com certeza. Amanhã devemos ter todos os elementos. A-M-A-N-H-Ã! – impacientou-se em segredo.
Ao desligar o telefone permaneceu sentado na cama avaliando a conversa, Milena voltou a estremecer, em poucos segundos soaria do noteboock o aviso sonoro do fim da transmissão de dados. Cada segundo tinha agora uma eternidade, ela estava novamente à beira de um colapso nervoso.
Sobre o criado-mudo o homem pegou o controle do ar-condicionado, a sincronia do sinal do computador com o sibilo do ar sendo ligado foi perfeita, nem mesmo a jovem pode diferenciar um do outro. Em poucos minutos o quarto estava completamente gelado e Milena longe dali.
Nenhum comentário:
Postar um comentário