CAPÍTULO 15

César mal pode acreditar naquela coincidência novelesca. Além de conseguir encontrar no laboratório o filho de Mes Jarha, ele descobria algo ainda mais incrível. Certamente depois disso o jovem Mourad não lhe negaria mais nenhum favor.

Não foi difícil juntar as peças: os olhos familiares de Mes Jarha assemelhavam-se muito aos olhos de Sadeh, e o próprio segurança havia comentado acerca de desgosto que tivera com uma filha que morava em Alexandria. – Como pude não notar isso antes! – censurou-se em pensamento. Logicamente Mes Jarha sendo o pai de Sadeh, Mourad era o seu irmão. O jovem egípcio ficou igualmente abismado em saber que César também conhecia sua irmã Sadeh. A simpatia e a afinidade entre os dois foi potencializada.

O clima amistoso só não se prolongou pois a ligação que Mourad recebera a pouco fora de Mes Jarha, seu pai, que estava apavorado com o sumiço Sadeh que havia deixado uma carta e desaparecido. César se comprometera pessoalmente em dedicar-se a descobrir o paradeiro de Sadeh, embora imaginasse que era bem provável que a jovem tivesse se unido aos rebeldes no cerco a pirâmide. César só não entendeu o que Sadeh poderia querer no meio do deserto com aqueles rebeldes insanos.

César convenceu o jovem egípcio a levá-lo logo até a sala onde estava guardado o sarcófago do Faraó Desconhecido. Ele precisava ver aquela raridade e fotografar também, tudo em primeira mão.

Os dois seguiram sorrateiros pelos corredores e desceram sem dificuldades ao terceiro andar subterrâneo do Inlab. Mourad tinha as senhas de acesso e todos o conheciam por ali.
O corpo do faraó já estava alojado no laboratório havia uma semana e no proximo dia seguiria para sua apresentação no congresso do hotel. O próprio Mourad era o responsável direto por aquele translado.


***


Um corredor longo e mal iluminado os levou até uma porta de ferro pesada. Mourad passou seu cartão de acesso no pequeno painel de controle, digitou sua senha e logo um estalo letárgico anunciou o destravamento e a abertura da porta. Ao contrário do corredor a sala se tornou muito bem iluminada quando entraram, as paredes muito brancas refletiam ainda mais a intensidade da luz deixando o ambiente nos primeiros instantes desagradável aos olhos.

Logo que César se acostumou com a claridade viu a sofisticada aparelhagem do laboratório. Era quase uma dúzia de computadores controlando tudo referente ao sarcófago. A temperatura, a luminosidade, a umidade, enfim, tudo era rigorosamente calculado e controlado tentando preservar ao máximo as condições ideais de conservação da delicada relíquia. Um alerta tinha disparado e um insistente aviso piscava na tela de um dos computadores anunciando que aquela luz era nociva ao esquife.

– Não se preocupe César, é sempre assim quando as luzes se acendem, isso não é importante! – Mourad falou enquanto digitava algumas coisas desativando o aviso desnecessário.

No fundo da sala uma enorme caixa retangular de vidro guardava a imponente sepultura do faraó. César trocou o nervosismo pela exitação e se aproximou respeitosamente, sentiu um incrível fascínio exercido pelo sarcófago.

– Ele já está ai repousando há uns bons cinco mil anos! – brincou Mourad interrompendo o silencio contemplativo de César. – Exames de raio-x indicam que esse é o último sarcófago que o envolve, existiam outros quatro o guardando, cada qual mais rico que o anterior, estavam encerrados um dentro do outro protegendo a múmia do rei! Fantástico! Mas até onde sei só vão mesmo abrir esse ultimo sarcófago durante o congresso! Todos apostam que a múmia esteja plenamente conservada!

César permaneceu fitando a relíquia por alguns minutos, nem sabia o que pensava, apenas admirava o maior tesouro arqueológico que já tinha visto. Logo foram, ele o e Faraó, interrompidos novamente por Mourad: – Vamos agora, alguém pode chegar e não quero confusões pro meu lado!

César concordou, sabia que garoto já tinha se arriscado muito, bateu algumas fotos e deixaram a sala. No caminho de volta passaram por alguns outros cientistas.

– Sabe, acho que o Brasil está mesmo no meu destino. Com certeza minha irmã Sadeh diria que isso é um sinal dos deuses, pra ela tudo é muito místico! – o jovem prosseguiu sem dar ênfase ao que dizia – Primeiro o faraó, agora você! Vou estudar mais o português, dizem que o Brasil é um país fantástico! – o rapaz esperava um convite.

César ainda fascinado quase deixou passar desapercebido aquele cometário de Mourad. Afinal o que o faraó tinha a ver com o Brasil? César não permaneceu com aquela dúvida.

A estranheza de César surpreendeu Mourad – Eu pensei que você soubesse que a múmia do faraó retornou do Brasil de volta para o Egito há uma semana! – Mourad percebeu aumentar o espanto evidenciado no rosto de César e continuou num tom mais baixo – Isso é muito confidencial! – se condenou voltando os olhos para o céu – Essa múmia foi descoberta nessa nova pirâmide há uns cinco anos, alguém do Brasil a comprou no mercado negro e levou embora. Agora não sei por que mandou ela de volta, acho que tem alguma negociação importante acontecendo naquele simpósio no hotel, o preço dessa relíquia deve ter se multiplicado!

César acompanhou o tom baixo do rapaz: – Sim, mas quem é o proprietário dessa múmia? Isso não é ilegal?

Mourad levou César a um terminal de computador já de volta ao andar térreo – Claro que é ilegal, por isso é tão sigiloso. O ILSGMAM é um laboratório internacional e independente, ninguém fora daqui sabe o que se faz aqui dentro! – ele acessou no computador com sua senha os arquivos e a ficha do faraó. Num gesto discreto girou o monitor para César ler as informações sobre o proprietário do sarcófago – Rápido, não quero me complicar aqui dentro! – receio vão, já que ninguém no laboratório parecia se importar com a presença de César.

As informações no prontuário eram bastante completas e deveriam ser muito confidenciais, César pode acercar-se de dados importantes. Aquela descoberta era fantástica, uma simples declaração do proprietário brasileiro sobre a múmia enriqueceria muito a matéria de deles.

Assim que o fuso permitiu tentou falar com o proprietário brasileiro do sarcófago, no entanto o homem estava em viagem, possivelmente vindo para o congresso no Egito. César conseguiu apenas um frustrante “nada a declarar” do filho do proprietário.

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