Milena bem que tentou, mas o celular de César caiu direto na caixa postal. A tempestade geomagnética parecia estar alcançando o seu ápice.
Sentindo-se confusa e desorientada ela desejava imperiosamente falar com César. O assassinato do alemão fora à gota d’água e definitivamente era melhor informar as autoridades sobre o caso. Aquele quarto não parecia mais seguro, a companhia de Gabrielle já lhe gerava mal estar, mas o celular de César permanecia angustiantemente calado.
Milena acordou assonorentada, reconheceu que não era normal aquela letargia. Tentou não se precipitar no julgamento a Gabrielle, mas não pode evitar a forte desconfiança. O envolvimento de Gabrielle com alguns acontecimentos bizarros no hotel era quase certo para ela, afinal a italiana não tinha, sob hipótese alguma, o perfil de uma jornalista, mas Milena ainda não conseguia entender o que a ítala fazia ali ou de onde viera e quais seriam seus intuitos, mas cada novo foto corroborava com as desconfianças.
O congresso finalmente havia começado naquele dia. Todos os hóspedes estavam reunidos numa das salas de conferências localizada no luxuoso terraço do hotel, agora era oficial, a pirâmide seria discutida cientificamente.
Como ela não poderia descobrir o que estavam abordando na enclausurada sala de conferências Milena decidiu que deixaria o hotel para encontrar César e juntos iriam a polícia, o que estava acontecendo já era um caso policial. A matéria já tinha bons argumentos, permanecer omisso agora seria muita irresponsabilidade, lembrou da morte do alemão, a vida de outras pessoas estava em risco.
Gabrielle continuava conectada ao seu notebook, Milena preferiu não comentar aonde iria, não sabia do que era capaz a italiana e até onde ela poderia chegar. Agora seria a policia quem descobriria ‘quem era quem’ dentro daquele congresso. Milena lavaria suas mãos. Deixou o quarto sem dar explicações.
***
Já quase deixando o hotel, próxima ao saguão principal, Milena acabou sendo interceptada pelos gritos nervosos do Sr. Aziz. O gerente do hotel atravessou velozmente o saguão requebrando mais que o normal, ele a solicitava insistentemente. Milena paralisada viu seu disfarce esfacelar, no entanto permaneceu contida, não tinha muito mais a perder.
O homem, recobrando-se da corrida, novamente pediu desculpas por absorver tanto seu tempo com seus problemas, explicou que tudo parecia conspirar contra ele e que mais uma vez precisava dos serviços dela.
Ele parecia uma metralhadora de lamurias e realmente absorta pela eloqüência de Aziz, Milena acabou cedendo a seus apelos – Se eu ficar mais algum tempo no hotel não fará tanta diferença assim! – justificou para si mesma.
A bagagem do chinês Mao Ning Tuen, que estava atrasada por problemas de alfândega, finalmente havia chegado. Com a falta absurda de funcionários coube a Milena a tarefa de receber, assinar as notificações e organizar os pertences do chinês em seu quarto, o gerente voltou ao terraço urgentemente, o congresso estava em pleno andamento e sua presença era fundamental. O sorriso nos lábios de Milena significava: “Uma boa repórter tem que estar no lugar certo e na hora certa!”.
Em pouco tempo a bagagem chegava no hotel. Um dos seguranças levou tudo até o elevador – Agora você pode deixar comigo, é melhor voltar ao seu posto! – ela dispensou o homem com autoridade, era melhor passar um pouco de trabalho levando pessoalmente as malas até o quarto e ter a privacidade necessária para investigá-las.
Eram apenas duas malas, uma provavelmente com a bagagem particular de Mao Ning Tuen e a outra mais sinistra, pesada e grande. O elevador de serviço parou no nono andar, por sorte o quarto 913a não era muito distante. Precisou de duas viagens, a segunda, com a mala grande foi bem mais difícil. Milena não via a hora de ficar a sós com a bagagem do asiático.
Uma rápida inspeção confirmou que na valise havia apenas os pertences íntimos do homem. Dedicou então todas suas atenções à mala maior. Analisando mais minuciosamente descobriu o quanto era sofisticada aquela bagagem do chinês, uma espécie de mala-cofre. Estavam explicados os problemas com a alfândega. Pelo peso, e por tamanha segurança, era evidente que se escondia ali algo de grande importância.
Milena percebeu que só Gabrielle poderia encontrar um meio de destravar aquela requintada tecnologia, por mais que não quisesse se envolver outra vez com a italiana não teve jeito, a curiosidade venceria aquele duelo com a sensatez.
A mala era muito pesada para ser carregada, seria melhor trazer Gabrielle até ali. Antes de deixar o quarto Milena se deu por conta de algo que antes não tinha percebido. Com a ânsia de vasculhar as coisas do chinês não havia notado que o quarto 913a estava completamente bagunçado, mais que o normal para qualquer homem.
Olhando a volta constatou que alguma coisa estranha havia acontecido antes dela chegar. A sua volta as coisas estavam reviradas e quebradas, certamente em conseqüência de uma luta. Pelo estrago o combate fora bastante violento, avaliou Milena.
Sentiu de imediato seu coração pulsar mais apressado, a suíte era bastante ampla e alguém podia estar ali sem que ela tivesse percebido. Respirou fundo, tinha que descobrir se estava ou não sozinha. Passou cautelosamente para o segundo ambiente do quarto. O lugar estava ainda mais destruído.
Quando aliviou-se por estar sozinha, percebeu atrás de si um vulto a observando. Mais uma vez o sangue pareceu ter parado de correr pelo seu corpo, sentiu-se gelada subitamente.
Lentamente girou o corpo em direção a pessoa, não pensava em nada, apenas sabia que não havia pra onde fugir. Virou-se completamente e ficaram ali, cara a cara, olho no olho, segundos gigantescos de reconhecimento. Depois não sabia se caia num pranto nervoso ou se ria de episódio. Não era ninguém além do seu próprio reflexo num espelho enorme que decorava o ambiente. Seu medo desapareceu, quem quer que tenha destruído o lugar já ia longe. Procurando por mais pistas encontrou um quase apagado rastro de sangue no chão.
O coração voltou a acelerar, acompanhou a trilha, que certamente alguém tentara limpar, Milena temeu pelo que encontraria atrás da porta do banheiro, onde o rastro acabava.
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