CAPÍTULO 8

Realmente a viagem foi tranqüila e aqueles momentos de angustia nas mãos dos rebeldes haviam ficado definitivamente para trás. O microônibus levou os dois em segurança para o Cairo.

Frustrantes foram às poucas e desencontradas informações partilhadas pelos outros jornalistas que excursionavam pelo país em busca de notícias da pirâmide. Na verdade sabiam ainda menos coisas que os dois.

César teve que sentar no fundo do ônibus, num dos últimos lugares, Milena sentou-se junto a uma entusiasmada jornalista italiana. Grabrielle Bianucci que usava um insinuante vestido vermelho grená e sobre o colo pendia um exuberante pingente de ouro maciço em forma de cruz florenciada cujos braços terminavam em flor-de-lis.

– É lindo seu crucifixo! – exclamou Milena espontaneamente – É do Vaticano? – ela não conteve a curiosidade e indagou enquanto instintivamente segurava a pesada peça – absurdamente grande, mas bonito – pensou em segredo.

Grabrielle abriu um grande sorriso de dentes perfeitos e segurou o pingente tirando-o das mãos de Milena – Sì, chiaramente! Foi um presente do meu pai! – uma sombra de tristeza passou por seus olhos, Milena reconheceu aquele olhar, era o mesmo que fazia ao lembrar de sua mãe falecida. Ambas fugiram das lembranças – O seu também é lindo, e eu diria que bastante adequado à ocasião! – Grabrielle referiu-se ao olho de Hórus que Milena usava, pelo tom a italiana conhecia muito bem os mitos egípcios.

A loira poliglota já estivera no Brasil inúmeras vezes e era fervorosa fã do país, com seus olhos azuis esfuziantes parecia dominar o lugar com sua presença, até mesmo César que se mostrara sempre discreto não conteve um olhar apreciativo.

Milena não pretendia fazer amigos na viagem, e aquela mulher pareceu-lhe a princípio uma má companhia, no entanto a italiana acabou conseguindo afrouxar suas defesas, logo se reconheceram boas companheiras, Grabrielle lembrava em algumas coisas o jeito de Totila e Milena já estava acostumada a lhe dar com aquele tipo de gente.

***

A viagem foi mais longa e cansativa que o esperado, o trânsito estava lento. Chegando ao Cairo, Grabrielle e Milena decidiram que, junto com César, fariam uma espécie de coalizão, César seria informado mais tarde da decisão tomada por elas.

Logo na chegada desembarcaram imprudentemente em frente a uma mesquita. Do lado de fora mulheres mulçumanas, vestidas com roupas e véus escuros apenas com os olhos de fora esperavam os homens Islâmicos que oravam ajoelhados dentro da mesquita. O olhar de reprovação às vestimentas de Grabrielle foi perturbador. Saíram dali evitando mais constrangimentos e tentaram se misturarar aos outros sessenta e nove milhões de habitantes do país.

Milena tinha que encontrar um meio de comunicação com o Sr. Morales, precisava saber se Totila havia conseguido entrar no país e ainda tentaria descobrir mais alguma coisa sobre o congresso.

Grabrielle aproveitaria a intermitência para comprar algumas coisas e também se comunicar com seus mantenedores. Optaram para ganho de tempo por uma breve separação. Assim que resolvessem suas pequenas particularidades voltariam a se encontrar.

César preferiu acompanhar Grabrielle, Milena só não ficou incomodada com o fato porque queria falar com o Brasil longe dos ouvidos de César. Grabrielle e ele foram direto para o aeroporto, ela já tinha uma agenda previamente programada.

***

Depois de várias tentativas, Milena finalmente conseguiu entrar em contato com o Brasil. Murilo exultou com o raro contato que conseguiram, ele estava há dias num plantão ininterrupto, mas as notícias que ele tinha não eram animadoras.

Realmente as atenções do mundo estavam voltadas para o Egito, ainda que a existência da Pirâmide do Faraó Desconhecido recém estivesse sendo confirmada. Satélites haviam sido redirecionados e logo que as comunicações fossem restauradas as primeiras fotos da pirâmide começariam a circular comprovando irrefutavelmente a descoberta. A guerra civil e religiosa travada pelos populares também deixou a população mundial ávida por notícias.

Murilo estava atento aos canais internacionais, e sabia que os interesses e conflitos estavam chegando a níveis perigosos. O governo local havia fechado provisoriamente as fronteiras do país. Mesmo sendo uma decisão precipitada e muito controversa, ela foi acatada. Legalmente ninguém mais entrava no Egito, os vistos não eram mais emitidos em parte alguma do globo.

Os turistas estavam deixando o país o mais rápido possível, já que diversos atentados e assassinatos estavam acontecendo. Só naquela madrugada três bombas foram detonadas em hotéis da região. Tudo isso na tentativa que o governo revogasse a decisão de abrir a pirâmide para exploração e pesquisa.

Do Brasil nem mesmo a maior emissora de TV havia conseguido plantar um repórter sequer no Egito, no máximo nos países vizinhos, mas continuavam tentando ilegalmente furar o bloqueio. Os satélites sobrecarregados e a tempestade solar haviam deixado quase toda a comunicação caótica.

Milena pensou em segredo que era mais um sinal da maldição da pirâmide, mas logo seu bom senso riu de seu próprio pensamento, em seguida contou superficialmente tudo que já tinha passado naquela viagem, Murilo foi um entusiasmado ouvinte. O milagre da ligação logo foi interrompido – Essa Grabrielle deve ser muito boa! – supôs Murilo lamentando-se pelo fim da ligação.

***

No aeroporto Grabrielle foi direto a um CyberCafé, César a seguia sem entender muito bem seus propósitos. Pouco tempo depois de se acomodarem um entregador trouxe para ela duas caixas não muito grandes. Ela assinou alguns papéis e o homem foi embora. César ajeitava constantemente os óculos no rosto, não entendendo nada.

Grabrielle abriu uma das caixas sabendo perfeitamente o que estava fazendo. Ficou satisfeita ao encontrar um moderno noteboock.

Finalmente enquanto os dois tomavam um revigorante capuccino e Grabrielle acessava informações pela internet ela esclareceu o que pretendia – Não sou ninguém fora da internet! – riu aliviada por conseguir uma conexão rara naqueles dias de interferência magnética – Sabe César, eu tenho a impressão que já te vi em algum lugar antes! Deve ser de uma outra vida! – brincou a italiana enquanto digitava freneticamente no pequeno teclado.

César estranhou e impacientou-se o comentário incoerente da católica que ostentava aquele enorme crucifixo no peito – Outras vidas! Essas discrepâncias da Nova Era me deixam louco! Tudo é holístico! – pensou consigo ainda sorrindo pelo comentário dela.

***

Quase no fim do dia os três se reencontraram na Torre do Cairo, um restaurante panorâmico na ilha da parte do Cairo Central. Milena tinha ficado pouco tempo longe de César e já sentia saudade. Não gostou de ver o entrosamento dele com a italiana.

Se entusiasmaram com as noticias que Milena trouxe sobre o congresso. A conferência seria com os maiores historiadores, geólogos, pesquisadores e religiosos do ramo, onde de fato, seriam abordados temas como geologia, fisiologia, psicologia, metafísica e medicina, exatamente como o pai de Sadeh havia contado a Cassiana, tudo confirmado por Murilo, no entanto, nesse simpósio a imprensa não era bem vinda.

O congresso começaria no próximo dia e seria no Bahiti Hotel, um dos hotéis mais luxuosos da cidade, e também o mais seguro. Entrar lá seria uma tarefa impossível, ou no mínimo, improvável.

Uma outra célula desse congresso seria realizada num famoso laboratório convenientemente perto do hotel. Parte dos debates e experimentações seriam no auditório do ILSGMAM (International laboratory of science, geology, medicine and applied metaphysics – Laboratório internacional de ciência, geologia, medicina e metafísica aplicada), ou Inlab como era informalmente conhecido.

Boatos davam conta que de lá sairiam as mais espetaculares revelações, inclusive especulava-se que o Inlab já tinha algum material da nova pirâmide.

Grabrielle e César também traziam uma boa notícia. A italiana, uma verdadeira fera nos computadores, confessou que na juventude fora uma temida hacker na Europa. Outra faceta que surpreendeu Milena e isso começou a incomodá-la.

Mesmo o hotel estando praticamente fechado, Grabrielle através do sistema eletrônico de reservas conseguiu plantar uma reserva falsa, ainda que apenas de um dia.

– Você conseguiu uma reserva no Bahiti Hotel? Não posso acreditar! – doeu em Milena dar crédito a italiana.

Logicamente que Grabrielle usou o nome da poderosa e influente instituição européia que representava. Sendo assim, logo estariam, as duas, hospedadas no Bahiti Hotel.

Todas as informações obtidas seriam partilhadas pelo grupo. Grabrielle sabia que sozinha não conseguiria grande coisa, e a dupla brasileira se beneficiaria com a astúcia e influência da italiana.
No hotel as duas ficariam no mesmo quarto enquanto César acompanharia os acontecimentos do Inlab, há uma quadra do hotel. Milena ficou espantada com a velocidade com que as coisas tinham se encaminhado.
***

O imponente Bahiti Hotel ainda era um dos maiores e melhores hotéis do Cairo. Seus quinze andares se tornaram célebres por sempre abrigar os chefes de Estado e as maiores personalidades do mundo em visita ao país. Era um hotel de luxo, mas sem altos padrões tecnológicos. Uma reforma há um ano tinha sofisticado um pouco suas instalações, mesmo assim ele mantinha propositalmente seu estilo mais clássico que moderno.

Já instaladas no ostentoso quarto 1005c, Milena pode ter novamente contato com coisas simples, porém vitais para uma mulher. O que viam da janela era fascinante, o quarto de fundos tinha uma vista sensacional, contemplando pouca paisagem urbana e as dunas de areia que deixavam o horizonte espetacular com o pôr-do-sol, mais ao longe as famosas pirâmide de Queóps, Quefrim e Miquerinos arrematavam a paisagem luxuosamente.

Observando a vista saboreavam o tradicional Karkadêh, um tipo de chá preparado à base de flor seca de hibíscus, assim elas relaxavam as tensões da longa viagem. Milena não se interteve muito com a paisagem e dedicou aquela noite para descanso e cuidados estéticos.

Grabrielle que parecia estar sempre prestes a entrar ao vivo em rede nacional tamanha exuberância e prontidão, após um banho rápido, mal deu um jeito em seu longo cabelo dourado e saiu para jantar com César.

Milena sentiu algo que poderia ser compreendido como ciúme, mas não deu vazão a esses pensamentos – Que bobagem! – pensou submersa na banheira repleta de espuma enquanto ia suavemente esvaecendo.

Já na cama só acordou bem mais tarde com Grabrielle que chegou fazendo menos barulho possível, ainda que muito. Pode ouvir, antes de voltar ao seu aparente sono tranqüilo, alguns suspiros enamorados da italiana. Sua noite a partir dali seria desconfortável.

Cedo ainda o telefone do quarto as despertou. Grabrielle atendeu e ao desligar sua fisionomia não foi muito animadora.

– Como esperávamos, temos que deixar o hotel! Maledizione! – esbravejou irritada, tentou falar com alguém ao celular, mas não conseguiu completar a ligação o que potencializou sua ira.

Teriam que deixar o hotel em no máximo trinta minutos, isso era uma exigência que deveria ser executada impreterivelmente. No entanto nem passou pela cabeça de Milena deixar o hotel. Os trinta minutos se extinguiram em quinze.

***

Um sibilo anunciou a chegada do elevador ao décimo andar, a porta se abriu e três homens de grande porte, muito bem alinhados, saíram em marcha pelo andar. Abriam todos os quartos e permaneciam neles em revista por alguns minutos.

Todo andar já estava evacuado há cerca de duas horas e já passava de quatro horas o ultimato anunciado pela recepção. Os seguranças procuravam certamente por duas mulheres que na lista de hóspedes ainda não haviam dado baixa.

Acabaram encontrando outros dois seguranças que revistavam os quartos em sentido contrário. Faltava agora apenas o quarto 1005c, o que eles achavam menos provável por ser tão óbvio.

Pela maneira em que abriram a porta não estavam muito contentes com o sumiço das jovens repórteres. Procuraram em todos os cantos do quarto, até mesmo o frigobar fora aberto – Como se alguém pudesse se esconder dentro do frigobar – pensou Milena. Refizeram a busca dessa vez de maneira mais detalhada e novamente improdutiva.

O gerente do hotel fez questão de pessoalmente comandar uma nova busca. Rewer Aziz, era o gerente do Bahiti Hotel, um homem esguio e de trejeitos nervosos. Mantinha um penteado indefectível e seus cabelos negros já davam lugar a alguns fios brancos o que denunciava seu alto nível de stress.

O sucesso daquela conferência era uma prova de fogo na carreira de Aziz e nada poderia sair errado. O homem esbravejou alguma coisa com os seguranças que escutaram de cabeça baixa. A bronca só teve fim quando o chefe da segurança informado pelo radio anunciou que o matrîe enfrentava problemas na cozinha e solicitava com urgência a presença do gerente. Ele ordenou nova busca no andar e saiu vociferando ao léu.


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