CAPÍTULO 7


Milena até desejou, mas sinceramente não esperava que César mudasse de rumo por sua causa, ou mais modestamente, em favor do êxito da matéria. César abdicou espontaneamente de cobrir o congresso e ficou para acompanhá-la, a cumplicidade dele lhe causou uma profunda comoção.

As atitudes de César não correspondiam as de um mau caráter como o Sr. Morales afirmava. E se ele fosse realmente de índole duvidosa ainda assim poderia ter se arrependido. Milena estava disposta a arranjar alguma espécie de indulto que reconsiderasse a pena imposta ao colega.

Seus pensamentos se dividiam entre César e a pirâmide. Não podia negar que estava fascinada com tudo que lhe acontecia. Milena desejava também entender a fundo a psique dos acontecimentos, das atitudes dos rebeldes. Queria sentir as razões do medo que o povo sentia das maldições, das lendas, dos famosos mitos egípcios, queria compreender o psicológico de tudo aquilo e não só a parte física das maravilhas que a pirâmide escondia.

Mesmo arriscando sua própria vida, estava na Pirâmide do Faraó Desconhecido o seu foco e agora com a companhia de César isso seria ainda mais fantástico.

Tentaram sem sucesso convencer Cassiana a guiá-los pelo deserto a procura da pirâmide. Ela, embora fosse uma desbravadora, temia a ignorância dos rebeldes e, no fundo de sua alma, respeitava a lenda sobre a maldição das pirâmides, além do mais Cassiana tinha prometido levar Sadeh ainda naquele dia para o Cairo e entregá-la ao seu pai, sã e salva.

Antes de deixarem Alexandria Milena queria conversar com alguns moradores, colher algum subsidio popular para seu texto. Precisava também comprar o material para a expedição e não seria fácil encontrar já que a cidade estava quase toda de portas fechadas em função da revolta. Ela também ainda tinha a intenção de convencer a portuguesa a conduzi-los pelo deserto, para tanto precisava ganhar mais confiança de Cassiana. Sairam as duas a procura dos mantimentos. O episodio serviria para aproximá-las, mais do que qualquer coisa Milena precisava desabafar com alguém.

Cassiana, ainda que amiga de César, ouviu as confissões de Milena de maneira mais imparcial possível. Acabaram tão ligadas que a portuguesa não teve jeito de negar o pedido da nova amiga e aceitou ser a motorista oficial da jornada.

César não duvidou que Milena pudesse convencer sua amiga. A jovem lusa e seu jipe estavam agora contratados oficialmente, Milena pagaria uma boa quantia em dinheiro patrocinada pela revista Vis-à-vis, nada mais justo se tratando de uma prestação de serviços.

Cassiana não era do tipo mercenária, e isso quase a melindrou, mas precisava do dinheiro para seguir sua viagem pelo mundo. Convencida que Sadeh poderia esperar mais um dia, acabou aceitando a proposta.

Sadeh não estava em casa, e como a expedição tinha urgência, não esperaram por seu retorno para seguirem em busca da pirâmide. Cassiana acabou nem percebendo sobre a mesa uma carta, era uma carta de Sadeh e era uma carta de despedida.

As ruas estavam desertas, o tumulto agora dava lugar a uma espécie de toque de recolher. Só viam pessoas escondidas em suas casas espiando assustadas o pequeno exército rebelde que dominava o lugar.

Milena achou incrível a quantidade de pessoas envolvidas com os rebeldes, mas principalmente estranhou o alto poder bélico deles, achou estranho estarem organizados e armados em tão pouco tempo de conflito.

Logo deixaram a zona urbana de Alexandria e seguiram por uma rodovia pouco usada na região, em seguida entraram por uma estrada clandestina que teoricamente seria mais abreviada. Para otimizarem o tempo, Cassiana, César e Milena iam se revezando ao volante, além de assim evitarem qualquer tocaia ou emboscada dos rebeldes.

Seguiram pelo caminho indicado pelos boatos, passaram mais de um dia ininterrupto rodando numa mesma direção sem qualquer sinal da pirâmide, o que começava a desanimá-los. Logo acabaria a reserva de combustível e a viagem teria que ser abortada. Eram apenas quilômetros e mais quilômetros de areia sem qualquer perspectiva.

Aquela noite Cassiana ia bem mais devagar, César e Milena dormiam pesado, ignorando os solavancos do jipe. Ao longe Cassiana avistou uma iluminação diferente, esfregou bem os olhos, miragem a noite era meio surreal, mas o desejo de encontrar a Pirâmide podia estar deixando todos malucos.

De fato a visão era real, a luz vinha de algumas tochas ao longe, mais que depressa Cassiana apagou os faróis e desligou o motor, aparentemente ninguém chegou a notá-los.

Era a visível parte da imensa pirâmide brotando no chão, e havia mesmo, em torno dela um enorme cerco humano com tochas e homens armados. Se descobrissem à presença deles ali, a execução seria sumária. Mesmo assim Milena despertou animadíssima com a descoberta, enfim encontravam a pirâmide!

Numa mochila acomodaram tudo que poderiam precisar, César ao deixar o jipe apressado desequilibrou-se quase caindo na areia, Milena acharia graça, mas estava muito tensa para isso. Conforme o combinado Cassiana deixou os dois ali e seguiu viagem de volta, tinha que cumprir a promessa de levar sua amiga em segurança para o Cairo. Se eles não voltassem no prazo combinado ela chamaria as autoridades responsáveis. Cassiana seria fundamental se algo desse errado.


***

Milena lembrou da lei de Murphy, sabia que as chances de algo dar errado eram bastante grandes. Os dois se aproximaram discretamente do cerco. Era incrível a escuridão no deserto, só viam o brilho das tochas agora ficando cada vez mais próximas.

Enquanto seguia se esgueirando, Milena ia mentalmente montando partes do artigo que escreveria mais tarde, tentou encontrar a palavra que descrevesse com maior exatidão o que estava sentindo, descobriu que essa palavra não existia.

Depois de algum tempo andando embevecida por seus pensamentos notou que seguia sozinha, na certa César tinha seguido por outro lado e do mesmo modo nem percebera o afastamento. Ela estranhou, pois haviam sido poucos passos e já não via nem ouvia ele. Seguir sozinha não era certamente seu plano.

Não muito longe dali César também percebeu o afastamento, respirou fundo, também tinha seus temores. Cautelosamente começou a voltar a fim de reencontrar Milena. O silêncio era tão grande que as batidas de seu coração poderiam ser ouvidas a quilômetros de distância. Com seu sistema de alerta ao máximo e com o nível de adrenalina subindo rapidamente pensou ter ouvido alguns barulhos oriundos do cerco.

Ficou mais nervoso por estar sozinho, sua agitação era tanta que um zumbido afetava-lhe por vezes o raciocínio. Não lembrou de ter ficado tão nervoso assim antes. De repente sentiu na areia alguns passos próximos; seu coração disparou imediatamente – Milena! – pensou, porém ao olhar na direção de quem vinha, não era ela quem estava lá.

Na verdade não era ninguém. Fruto do nervosismo, assim presumiu, mas logo ouviu novamente passos na areia e mais próximos ainda. A iluminação era quase inexistente, seu nervosismo deixou-lhe tonto, sentiu uma pressão estranha na altura da nuca, eram sensações inéditas.

– Quem está ai? – tentou em vão um contato, sua voz estava pouco clara, embargada pelo medo.

– Quem está ai?



Silêncio como resposta. César agora ouvia o barulho vindo de diversas direções.

– Quem está ai?


– Quem está ai?

Seja lá quem, ou o que fosse, não queria responder as perguntas. Os passos continuavam a se aproximar, logo César descobriria, por bem ou por mal, quem estava lhe atormentando daquela maneira.

– Milena é você? – como os ruídos vinham de diversas direções talvez fossem os rebeldes, mas essa era uma possibilidade remota.

O silêncio continuou sendo a única resposta.

Agora ele podia ouvir a respiração do que se aproximava, então não teve mais dúvidas, o barulho vinha de lobos, ou melhor, eram chacais que espreitavam prestes a atacá-lo. Não conseguiu conter o pavor, ele conhecia a verocidade daqueles animais. Antes mesmo de confirmar suas suspeitas saiu em disparada na direção oposta a dos animais, sequer olhou para trás. Sentiu uma fobia inexplicável daqueles chacais esfomeados.

Milena também estava voltando para procurá-lo, quase se esbarraram. Ela também havia pressentido algo estranho, não se conteve ao vê-lo, abraçou-o demoradamente, ela estava ainda mais nervosa que ele.

– Calma, calma mocinha, foram só alguns minutinhos, não precisa ter medo Lena! – César tentou acalmá-la com aquele abraço revigorante, perto dela ele sentia-se imortal, não tinha medo de mais nada. Milena aproveitou o abraço quente. Os animais desapareceram no deserto.

Aquela experiência César fez questão de superar logo, ele havia sentido coisas estranhas naquelas areias, um sentimento que não podia traduzir, foi a primeira vez que se deparou com chacais no deserto, mas sentiu como se aquilo já tivesse lhe acontecido antes. Era realmente perturbador, algo que teria que entender o significado. Os chacais se fossem mesmo reais, teriam os alcançado facilmente.

Retomaram em seguida a jornada e seguiram espreitando o lugar. Quase não havia rebeldes daquele lado do cerco e logo encontrariam uma maneira de chegar à pirâmide.

A escuridão e a fumaça, produzida no próprio acampamento, ocultava a presença deles. As horas foram passando e os ativistas se recolhendo, restando apenas alguns de vigília. Quando parecia que os eventos tinham cessado no acampamento algo lhes chamou a atenção. Quatro rebeldes carregavam, sorrateiramente, um grande baú retangular de madeira, com cerca de dois metros de comprimento e meio de altura.

O pensamento dos dois foi sincrônico – Será que é algum sarcófago que retiraram da pirâmide? – os rebeldes levaram cautelosamente, o que realmente parecia com um enorme caixão, logo sumiram entrando em uma das barracas. Pouco depois tudo voltou a se acalmar.

Permaneceram os dois de tocaia num dos muitos vales dos arredores, esperavam o momento certo de agir. As noites no deserto eram extremamente frias, inversamente proporcionais ao calor dos dias, o frio passou a ser o pior inimigo na espera.

Milena estava quase hipotérmica e teve que partir dela a iniciativa de abraçar César para se protegerem e se esquentarem mutuamente. César tentava não pensar, mas a atração que sentia pela colega era muito forte. Mesmo nunca tendo se sentido assim, ele conseguiu conduzir a situação com distinção e serenidade, no entanto, a matéria já tinha ficado como pano de fundo em sua consciência.

Ficaram abraçados observando a movimentação dos rebeldes, César tentando desviar o pensamento e diminuir sua excitação, Milena aproveitando o calor do corpo dele e esperando o grande momento de sua vida: a hora de entrar na pirâmide! Passadas mais horas foram vencidos pelo sono e cansaço e acabaram adormecendo.

***

Antes que o sol conseguisse clarear o deserto a ronda da manhã descobru a dulpa ainda dormindo. O pequeno grupo de rebeldes muito bem armado não pareceu nem um pouco amistoso, César e Milena estavam numa situação bem complicada.

Ao contrário que supunham, os rebeldes não os levaram para o acampamento junto à pirâmide, mas os levaram de volta para Alexandria junto com a diligência que estava indo buscar mantimentos e munição. A sensação de retrocesso aborreceu Milena mais que a eminente possibilidade de ser executada.

Utilizando um caminho bem mais rápido chegaram em menos de dez horas devolta a Alexandria que continuava com suas ruas desertas. Logo foram levados a um sobrado simples no centro da cidade onde os partidários da revolta se reuniam. Uma rápida e violenta revista levou a bolsa e o noteboock de Milena e também a câmera fotográfica de César.

O clima no sobrado estava tenso, nitidamente não sabiam o que fazer com os dois novos prisioneiros, mas era certo que não pretendiam deixá-los partir com vida. Entre alguns comentários sussurrados César ouviu o nome de Disebek Djau, provavelmente seriam levados, finalmente, ao encontro do líder. Um acordo com Disebek Djau seria a única forma de conservarem suas vidas.

As horas passavam lentamente, César e Milena permaneciam apartados, não permitiam que se falassem ainda que estivessem na mesma sala. Com tempo ocioso puderam perceber minuciosamente o funcionamento do lugar. A fuga era uma questão de oportunidade.

Não tardou e caiu novamente à noite, o número de rebeldes vigiando-os também. Uma pequena confusão na rua distraiu o rebelde que fazia guarda na porta da casa, era o momento certo de fugir. César estava atento e percebeu que poderiam aproveitar a agitação na rua para escaparem pela porta da frente. Enfim a oportunidade havia surgido.

César recuperou as mochilas e conduziu a fuga, saíram porta afora, descaradamente. Milena mesmo descrente confiou no instinto de César, de qualquer forma ela era arrastada pela mão.

A escolha não poderia ter sido mais acertada, todos rebeldes estavam envolvidos na enorme confusão que uma mulher fazia na rua. Os dois logo se misturaram ao tumulto e fingiram tranqüilidade não chamando a atenção. A má iluminação do lugar os ajudou a permanecerem incógnitos. O caminho parecia enfim livre, jamais pensaram que fosse tão fácil fugir daqueles homens, certamente ineptos.

A fuga do sobrado foi tão rápida que não chegaram a perceber quem era a mulher que estava gerando a confusão na rua. Cassiana muito exaltada investia violentamente contra os rebeldes. Depois de ser duramente contida, a portuguesa foi jogada a rua sem ter suas reivindicações ouvidas.

Longe dali Milena se convenceu que o mais inteligente era mesmo seguir para o Cairo e descobrir o que estava acontecendo no congresso. Depois, se possível tentariam uma nova e mais segura aproximação à pirâmide.

Milena sabia que César estava repleto de razão, deixou então que o rumo da viagem voltasse ao curso antes previsto.

Conseguiram acertar a viagem com o mesmo microônibus, problemas mecânicos impediram que ele partisse durante aqueles dois dias. Os perigos de Alexandria ficavam definitivamente para trás! Milena de certo modo estava aliviada, ir para o Cairo era sem dúvida muito mais seguro, tratou de engolir a frustração e aproveitar ao máximo a nova chance que tinha em suas mãos.


CAPITULO 6

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