CAPÍTULO 33

Mourad tinha virado um freguês assíduo da Torre do Cairo. Nem bem eram oito horas da manhã e ele já estava lá, fazendo seu desjejum junto com os mais expressivos empresários do país. Sentiu-se importante, primeiro pela quimérica companhia daqueles senhores validos, e segundo por ser um elo importante e revelador da história de um Faraó até pouco tempo anônimo.

Enquanto ligava o computador portátil de Milena e esperava a conexão pela rede wireless do restaurante, ia rezando ciosamente por Murilo, desejava muito que o jovem tivesse conseguido entrar nas empresas de Egmar, mas ao mesmo tempo queria também que Murilo tivesse desistido da idéia e estivesse em segurança na redação da revista.

Como o combinado Mourad enviou o e-mail esperando a identificação positiva. A resposta não veio nos cinco primeiro minutos. – Pegaram ele, é certo que pegaram o Murilo, e agora, o que eu posso fazer daqui? A culpa é toda minha!

Um minuto depois a resposta do e-mail chegou encerrando a torrente de pensamentos de Mourad. Estabeleceram o canal de voz, desta vez a internet estava com seu funcionamento indefectível.

– De onde você fala Murilo? – Mourad temeu a resposta.

– Mourad, você não vai acreditar, cara! – o tom da voz de Murilo não deixou dúvidas, ele estava no Prédio das Empresas Martins de Alcântara. – A servente da redação, a mulher que faz a limpeza no turno da madrugada, ela é uma baita colega, parceira mesmo.
Acredita que e a empresa em que ela trabalha é a mesma que faz a limpeza e manutenção no prédio do Egmar! Você acredita nisso, cara?

– Murilo eu não quero que você corra risco nenhum, é seguro ai?

A preocupação de Mourad fez bem a Murilo, ele inflou-se, sentiu-se importante pra alguém. – Fica tranqüilo, cara! Eu falsifiquei o crachá da firma de serventes, vim trabalhar com a Salete, essa mulher que te falei, ela me deu cobertura, ninguém desconfiou de nada. – Murilo sentia-se bem conversando com Mourad, a dupla tinha uma química extremamente funcional – Bom cara, agora é com você, já estamos conectados a intranet da empresa. Esse computador que estou usando é da rede deles! Já posso me mandar então!

– Como assim Murilo? É perigoso pra você esperar ai mesmo?

– Não, não é isso. É que como eu estou aqui no prédio, vou pessoalmente até a sala do Egmar, lá deve ter algum documento importante. Não custa nada, né!

– Toma cuidado Murilo, isso é ilegal, se algum segurança te pegar...

– Sem essa Mourad! Eu sou um servente autenticado, não tem galho! Vou fechar o canal de voz, assim que eu voltar chamo novamente, ok! Não sai daí antes que eu volte!

Murilo deixou a conexão estabelecida e partiu, Mourad agora teria que vencer algumas barreiras tecnológicas até encontrar o computador de Egmar através do sistema.

Algum tempo e dez cafezinhos depois Mourad conseguia localizar e invadir o computador de Egmar pelo sistema da empresa. Ele vasculhou todos os arquivos, enviou tudo que era suspeito para o e-mail do Murilo, mais tarde o aspirante a jornalista faria uma triagem mais específica e decidiria o que era importante ou não.

A aventura de Murilo estava sendo frustrada, ele havia ficado quase o tempo todo escondido numa sala de depósito, um dos seguranças tinha resolvido fumar maconha no andar da presidência, sentado na cadeira de Egmar fingindo dar ordens a funcionários imaginários. – Cada louco com sua mania! – pensou quase dormindo na espera. O homem só deixou a sala quando foi chamado pela central – Será que aconteceu alguma coisa? – pensou Murilo observando o segurança partir.

Seguiu direto para sala de Egmar, era melhor agir rapidamente. O cheiro de maconha o fez relembrar um passado não muito distante, na faculdade era normal o consumo da Cannabis Sativa, mas Murilo vinha optando pela integridade de seus neurônios. Embalado pela fragrância começou a busca pelo lugar.

Do outro lado do oceano Mourad sentia falta da voz de Murilo ao seu ouvido falando bobagens e o distraindo. Seus olhos estavam cansados, a árdua busca se mostrava pouco relevante, Egmar era esperto o suficiente para não deixar informações importantes ao alcance de qualquer internauta mais habilidoso.

Quase ocioso continuou acessado como se fosse o próprio Egmar, numa última verificação percebeu na tela de e-mail duas novas mensagens piscando na caixa de entrada, com vorazes clicadas abriu os dois arquivos.

Os e-mail que Egmar recebeu se abriram instantaneamente e Mourad não conseguia acreditar no que via. As mensagens revelavam algo aterrador. – Como assim, não pode ser o que estou pensando!

Os e-mails de chegaram para Egmar eram exatamente os mesmos que ele tinha mandado para Murilo há poucos minutos, tanto a mensagem da confirmação positiva quanto os documentos extraídos do computador de Egmar.

– Como o Egmar recebeu os e-mails que mandei para o Murilo? – Mourad repetia o óbvio tentando entender o que poderia ter acontecido, e não precisou de muito tempo para deduzir – Claro, é um cavalo de tróia!

Egmar havia presenteado o notebook a Milena com um programa espião que lhe permitia ver tudo que ela operasse naquela máquina. Todos os e-mails, todas as senhas, os arquivos, tudo enfim era repassado ao computador de Egmar automaticamente. Não foi tão generoso e altruísta o presente de aniversário.

Mourad preocupou-se mais, afinal Egmar certamente estava sabendo tudo que ele e Murilo conversavam e as informações que trocavam. A situação revelou-se bastante delicada.

Lendo os e-mails anteriores que ainda permaneciam na caixa de entrada, descobriu que sua suspeita estava certa, Egmar já sabia de tudo há alguns dias acessando os e-mails de maneira remota, provavelmente no próprio acampamento da pirâmide. Mas isso não era o pior. Na caixa de saída havia um outro e-mail de Egmar, esse dirigido há um de seus parceiros no Brasil.

Egmar havia mandado suprimir qualquer prova contra ele, ou seja, queimar arquivo vivo, mais claramente ainda, matar Murilo que havia se tornado uma testemunha perigosa.

Se ele conseguir invadir um dos meus escritórios, aproveite, não há lugar mais viável para contê-lo, invasão de propriedade particular, não teremos problemas legais!

Mourad sentiu-se novamente culpado, tinha partido dele a idéia da invasão. Murilo corria sério risco de morte e ele nada poderia fazer.

Murilo tinha conseguido abrir uma gaveta chaveada, era o último lugar onde procurava, a sala de Egmar parecia esterilizada de tão limpa e vazia de pistas e vestígios que pudessem incriminá-lo.

A gaveta não resistiu as investidas mais violentas de Murilo e cedeu. Quase vazia também, ele encontrou apenas, entre papéis inúteis, a agenda pessoal de Egmar, no entanto a agenda era do ano anterior.

Murilo sentou na cadeira majestosa de couro branco do presidente Egmar. Pode compreender por que o segurança fazia questão de fumar ali, aquele assento dava a impressão instantânea de poder. O jovem começou a folhear a agenda em busca de alguma evidência, sequer notou o sinal do elevador que trazia alguém ao seu andar.

O homem saiu do elevador rapidamente e se ocultou na escuridão do corredor. Ele estava apreensivo, suava embaixo de seu casaco de napa, não seria seu primeiro homicídio, mas ficava assim sempre que trabalhava para Egmar, ele não admitia falhas.

– Isso não faz o menor sentido! Essa eu não podia imaginar! – Murilo perscrutava toda a agenda de Egmar e surpreendia-se com as seguidas visitas que o homem fazia a um mesmo lugar, até quatro vezes numa semana, além de altas quantias em dinheiro que eram lançadas em seu favor.

– Será que isso é importante? Estranho eu sei que é. Queria que Mourad estivesse aqui, ele saberia se é uma boa informação! – olhou novamente o conteúdo da agenda – Mas que é estranho, isso eu sei que é! O que um homem como o Egmar pode...

Murilo ouviu passos no corredor, e pela morosidade era alguém tentando não ser notado. – Me descobriram! – pensou fechando silenciosamente a gaveta e deixando a cadeira para se esconder atrás da mesa.

A sala não estava completamente iluminada, o que era bom pra Murilo. O homem passou rápido pela porta que estava aberta, atravessando o corredor, Murilo observava tudo escondido e pode confirmar que não estava sozinho.

Mesmo tendo passado correndo ele pode perceber que o homem não estava com o uniforme dos seguranças, e carregava uma arma em punho. Certamente queria matá-lo, só não entendia ainda como tinham descoberto ele ali.

O homem espiou pela sala e escondeu-se novamente atrás da porta, logo espiou novamente e entrou. Murilo sentiu sua pulsação acelerar, estavam a poucos metros um do outro, um armado, outro não.

O som do casaco se movendo com o homem era sinistro, inesquecível. Murilo pode ver o sapato dele caminhando compassadamente na forração carmim do escritório. Logo estariam um no campo de visão do outro, era inevitável, Murilo não tinha rota de fuga.

Morrer de tiro, não foi pra isso que minha mãe se sacrificou à vida inteira. Isso eu não admito! – Murilo estava trocando o medo pela raiva. Isso lhe daria mais gana pela vida, pretendia aproveitar aquela adrenalina do pânico em seu favor.

Ouviu a arma se engatilhar, talvez já tivesse sido visto, talvez o homem só estivesse se preparando também para o embate eminente. De repente todos os barulhos cessaram, nem um nem o outro se mexiam. Foram os segundos mais longos da vida de Murilo.

– Levanta daí, eu to te vendo! – a voz firme do homem era a sentença que Murilo não queria ouvir. Ele foi surpreendido, o homem tinha o visto pelo espelho atrás da mesa.

Murilo levantou-se com as mão na cabeça, sabia que seu tempo já tinha se esgotado, não teria como reagir, o homem tinha ares profissionais, não seria fácil reverter aquela situação.

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