CAPÍTULO 35

A morte virá com asas ligeiras para aqueles que perturbarem o repouso do faraó”.

Milena não pode evitar essa lembrança. Por menos lúcido ou sensato que parecesse, qualquer pessoa no seu lugar sentiria a angustia que passou a sentir depois que cruzou aquela fenda.

A passagem era mais estreita e mais cumprida que imaginavam; deixar a terrível tempestade de areia do lado de fora, era ótimo, mas Milena bem sabia que dali pra frente às coisas poderiam se complicar bastante. Cada um dos três levava consigo uma pequena mochila com alguns mantimentos.

César que ia logo atrás de Sadeh passou a frente do trio, mais experiente poderia guiá-los com mais segurança. Há poucos metros já não havia mais qualquer iluminação externa.

A atmosfera do lugar era diferente e desconhecida, uma espécie de ar seco e um cheiro forte, mas não identificável, algo que seus olfatos ainda não conheciam. César reconheceu imediatamente o odor semelhante ao que havia sentindo dias atrás, dentro do sarcófago da múmia.

A passagem ficava cada vez mais íngreme e escorregadia. A subida era muito acentuada, havia buracos sulcados no chão para facilitar a escalada, mas certamente se o pé escapasse acabariam escorregando ao ponto de partida.

Aos poucos a passagem se tornou mais ampla e menos perpendicular, os olhos começaram a se acostumar com a escuridão, que só não era total porque em alguns lugares ainda entravam feixes de luz, mesmo assim ligaram as lanternas com suas luzes pouco potentes.

Ao fim do corredor encontraram uma passagem em forma de abóbada que deu acesso, segundo os conhecimentos de César, a Grande Galeria. Milena nem podia acreditar que era uma das poucas pessoas a entrar ali, eram séculos, milênios de história ao seu redor, ao alcance de suas mãos. Seu coração batia em sobressalto, estava inebriada com o que estava acontecendo em sua pacata vida de jornalista.

A pirâmide mesmo semi-soterrada, mostrava sua suntuosidade e o pouco que se via dava para conjeturar o que tinha sido, em sua época áurea, o reino do Faraó Desconhecido.

No salão em que estavam havia uma enorme estátua entre dois pilares, a estátua tinha o rosto cuidadosamente oculto em uma luxuosa máscara egípcia, provavelmente escondendo o rosto inusitado do Faraó humanóide, tudo ainda muito bem conservado e mantendo um sinistro aspecto vivo e atual.

Nas paredes, sistematicamente, havia fabulosas lâmpadas a óleo, de alabastro. As paredes e os tetos eram ricamente revestidos de cenas religiosas, pinturas representativas de alguns de seus deuses, sendo a mais extraordinária a de Osíris, o deus protetor dos mortos. A mestria artística egípcia deixou-os sem fala.

A beleza do interior da pirâmide absorveu por completo o medo de Milena pelos mais diversos e desconhecidos insetos, os atuais proprietários do lugar. Aranhas, serpentes, besouros, escaravelhos, escorpiões, entre muitos outros desconhecidos disputavam o posto de mais asqueroso que ela já tinha visto. Sadeh não se importava com os insetos, apenas as serpentes lhe causavam arrepios.

Havia muitas teorias e especulações sobre a utilidade daquela galeria, mas como as pirâmides não passavam de grandes túmulos, com certeza ela seria apenas uma passagem para outras câmaras. César preferia acreditar que ela servia como uma sala de estar, um luxuoso e desnecessário living.

César encontrou aos pés da estátua alguns hieróglifos do tipo que ele conhecia, porém preferiu guardar a tradução somente para si: “O faraó virá chamar todo aquele que violar seu túmulo”.

Milena percorria o lugar observando tudo com grande atenção e fascínio. Havia ao fundo da câmara duas outras passagens, uma pela esquerda da grande estátua e a outra pela direita, as duas tinham características iguais e não traziam qualquer inscrição indicando seu destino.

Ao se aproximar da passagem que seguia pela esquerda sentiu que corria um vento quente, um ar abafado com aquele cheiro estranho ainda mais presente, o caminho era muito escuro e estava coberto por centenas de serpentes, aranhas e escorpiões negros, numa vigília incessante.

Milena imediatamente optou pela passagem da direita, no entanto, essa estava bloqueada com um enorme bloco de pedra. Era provável que alguém recente e intencionalmente tivesse deslocado a pedra impedindo a passagem.

César também esquadrinhava o lugar com atenção, tentava traduzir alguns hieróglifos, mas quase sempre nada entendia. Em sua minuciosa procura descobriu, atrás da gigantesca escultura, uma outra passagem, essa quase secreta. Muito estreita e sombria, dava acesso a uma antecâmara um nível abaixo ao que estavam. Só de olhar o acesso teve calafrios.

Milena sentia que em tudo aquilo estava a presença do Faraó Desconhecido, era como se a qualquer momento ele pudesse aparecer por uma daquelas passagens. César, ainda que não admitisse, sentia o mesmo clima sinistro no ar. Sadeh permanecia visivelmente desorientada. O silêncio entre os três era absoluto, só se ouvia o barulho das serpentes se arrastando pelo chão.

César tentou descobrir alguma inscrição que os orientasse dali em diante. Entorno a um dos pilares, que sustentavam lateralmente a estátua, encontrou hieróglifos discerníveis, estranhou, pois a maioria que tinha visto eram de outro caráter. Milena correu pra ouvir a tradução, que não chegou a surpreendê-la.

As inscrições revelavam que era mesmo do Faraó Desconhecido aquela gigantesca estátua na galeria. O resto ele não conseguira entender direito, mas devia ser a indicação da impenetrável Câmara da Ressurreição, onde havia os tesouros do Faraó e o antídoto dos venenos das serpentes e das armadilhas, assim como mapas indicando a saída de alguns labirintos e também o caminho para a câmara que estava incrustado no pilar.

– Impenetrável pra quem não tem a Chave de Anúbis. – ponderou Milena – É atrás desses tesouros que aquela loira veio! Poderíamos estar livres agora senão fosse a falcatrua dessa golpista! – as palavras de Milena continham o enorme asco que sentia por Gabrielle e escondiam ainda o ciúme que sentira dela com César.

A passagem da direita bloqueada estava descartada, a passagem da esquerda estava guardada e vigiada pelas serpentes.

Pouco antes Gabrielle tinha seguido pela passagem da direita, para que não a seguissem jogou uma espécie de comida no chão que serviu de chamariz para as serpentes e insetos.

Já a passagem da direita foi o caminho que a expedição de Egmar seguiu, depois que atravessaram a passagem puseram a pedra para que Gabrielle não tivesse rota de fuga.

Sem opção os três se encaminharam para a cava oculta atrás da estátua.

– Deve ser um atalho, tem que nos levar a algum lugar importante, se fosse algo ruim não seria tão escondido. É uma boa opção! – César tentou inutilmente animá-las com suas elucubrações.

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