CAPÍTULO 21

Praticamente embaixo do sarcófago permaneceu por algum tempo observando atônito o seu interior. - Eu não acredito no que estou vendo... – essas foram às únicas palavras que César conseguiu pronunciar após ver o que havia no esquife.

Mesmo tendo a queda atenuada pelo corpo de César o sarcófago se abriu com o impacto. A primeira conseqüência logo foi sentida pelos três espectadores.

Um cheiro estranho evolou-se em poucos segundos. Era impossível distinguir o odor que o sarcófago exalava, talvez algo parecido com enxofre ou mofo, ou os dois misturados num bafio nauseante, um cheiro que seus olfatos nunca antes tinham sentido até aquele momento. Talvez aquele mau cheiro fosse insuportável numa outra ocasião, mas na verdade acabou sendo relegado a segundo plano.

A queda que revolveu a múmia acabou levantando uma nuvem atípica de poeira e outras partículas que deveriam ser dos tecidos decompostos pelos milhares de anos. Tentavam não respirar aquele ar, mas era impossível não sentir já nos pulmões um efeito estranho, quase asfixiante.

Mas nada daquilo os surpreendeu, nem cheiro e nem a poeira, era esperado que isso acontecesse num caso como aquele. O que realmente assombrou César e Mourad foi o que viram repousando morbidamente dentro do esquife.

Não era nenhum homem embalsamado ou recoberto por bandagens como no folclore egípcio. O que viam dentro do sarcófago era o insólito corpo do afamado Faraó Desconhecido. Eles descobriam que a múmia era, na verdade, uma desconcertante e bizarra criatura, certamente algo muito próximo a uma subespécie, um animal semi-humano ou quem sabe até mesmo um espécime alienígena.

Dentro do esquife jazia um humanóide mumificado e preservado em perfeitas condições. A criatura possuía olhos negros e oblíquos, vivos, petrificantes. Possuía um pouco mais de um metro e meio e tinha a pele, ainda que mumificada, assemelhando-se a uma espécie de borracha de cor cinza que permanecia com aspecto viscoso e até mesmo lustroso. A dessecação era diferente das múmias que César já tinha estudado, ele teve certeza que aquela criatura não era humana e tampouco de algum animal terráqueo.

– Eu não acredito no que estou vendo... – além de César, Mourad tinha a mesma reação, a pele morena do jovem tinha dado lugar a uma cor pálida. Gabrielle não comungou da mesma reação que eles, ela pareceu mais preocupada em fechar logo o ataúde e recolocá-lo na maca.César levantou-se e ajudou ela a recompor o sarcófago. Agiu mecanicamente, ainda não compreendendo o que acabara de presenciar. Gabrielle tornou a chamar o elevador.

Mourad ficou visivelmente abalado, sua voz estava trêmula e embargada – O-olha, eu não sei vocês, mas pra mim já chega! Ajudei como podia! Eu já não queria entrar nesse elevador com um ca-cadáver e muito menos agora, com essa aberração que vi ai dentro do sarcófago! Eu estou com medo, deixo vocês aqui! Boa sorte! – não esperou uma réplica e saiu rapidamente em direção as escadas, na verdade Mourad já estava acreditando, como sua irmã Sadeh, na Maldição da Pirâmide e achou mais seguro ficar a margem dos próximos acontecimentos. Ficaram apenas César e Gabrielle no corredor.

O elevador trouxe novamente o corpo de Venkata, ignoraram o fato e entraram assim mesmo. A viagem foi silenciosa e sem escalas, conseguiram chegar em segurança ao subsolo 2, onde ficava a lavanderia do hotel.

As acomodações onde funcionava a lavanderia eram limpas e bem iluminadas, no entanto, as instalações não ocupavam nem um terço do lugar, o resto do espaço tinha a aparência inversamente proporcional.

Acomodaram o sarcófago num lugar soturno do subsolo, seria difícil alguém encontrar a múmia escondida ali. A escuridão e o barulho de infiltrações pingando no chão úmido e sujo davam ao lugar um terrível aspecto lúgubre.

Mesmo o espaço sendo tão inóspito, César não se conteve, ele havia chego ao limite de sua paciência. Repetiu a cena e puxou Gabrielle pelo braço. Impaciente a interpelou disposto a ir até o final dessa vez – Agora chega, fomos longe demais Gabrielle, eu preciso saber o que está acontecendo! Você age de forma estranha, como se já soubesse dessa criatura no sarcófago, disse ainda que está aqui por razões particulares... – ele soltou-a contendo seu nervosismo – Não vamos a lugar nenhum sem que você esclareça o que de fato acontece aqui! E esse bicho no sarcófago é real?

Gabrielle suspirou desanimada, sabendo que daquela vez teria que explicar tudo. Acomodou-se nas pernas e fixou seus brilhantes olhos azuis aos de César.

– Como já disse não sou jornalista, sou Gabrielle Bianucci filha do renomado arqueólogo Giuseppe Bianucci. – César reconheceu o nome do homem que era realmente uma sumidade no ramo – Meu pai morreu a dez anos num acidente com o helicóptero que pilotava. – o olhar de Gabrielle abstraiu-se – Eu estava junto naquele dia, sobrevivi por um milagre... fui dada como morta, e foi isso que assegurou minha vida até hoje! Não era um acidente César, era um atentado!

Meu pai era o responsável por um projeto confidencial sobre a ligação cifrada das pirâmides de Queóps, Quefrim e Miquerinos. Uma das principais Universidades da Itália, - Università Integrate di Insegnamento Controllato - a Ítalo-Uiic patrocinou esse projeto pela incrível possibilidade que se revelava, mas tudo sigilosamente, até para resguardar o nome da faculdade caso a missão fracassasse.

Meu tio é o Reitor dessa universidade e junto com meu pai queria fazer um grande comunicado quando tudo estivesse confirmado. Anos de estudos e dedicação fizeram que meu pai descobrisse o código secreto que revelou a localização da pirâmide do Faraó Desconhecido. Trabalhava com ele um outro renomado arqueólogo americano, o premiado professor Richard Wilhelm Wild.

Eu era uma criança quando isso aconteceu, meu pai ao conseguir casar os códigos segmentados mandou me buscar na Itália onde eu vivia com meu tio. Quando cheguei no Cairo ele veio de helicóptero me buscar, queria que eu fosse a primeira a saber da descoberta, além dele só o professor Wild sabia do grande achado.

Meu pai já estava desconfiando de Wild, talvez ele quisesse roubar o crédito de seus estudos, então meu pai deixou toda sua pesquisa com meu tio. Mesmo desconfiado nunca imaginou sobre o atentado! Quando o helicóptero desapareceu sabiamente fui preservada disso tudo, meu tio me deu outra identidade e foi me preparando para o dia em que eu revelaria toda verdade sobre a descoberta da pirâmide. Meu pai e a universidade do meu tio merecem esse mérito. Meu pai perdeu a vida por isso!

César ficou menos irredutível e começou a se convencer: – Certo, e se for verdade isso, o que exatamente você está fazendo aqui? Não é necessário tudo isso! Deve haver outras formas de provar tudo isso!

Ambos foram para um lugar mais iluminado onde pudessem enxergar melhor as expressões de um e de outro.

– Passei a dedicar minha vida ao resgate desse projeto. Queria descobrir por que Wild ainda não divulgou essa descoberta, agora eu estou começando a entender seus motivos.

Meu tio que ainda é o Reitor da Università di Insegnamento Controllato me deu meios para que eu pudesse ir a fundo nas minhas investigações. Tenho a minha disposição as mais modernas tecnologias desenvolvidas no campus. Também monitorei os passos do Wild e suas descobertas a partir da nova pirâmide. Você acredita César que eles já sabem há mais de dez anos onde ela está! São dez anos que eles investigam tudo em segredo, e eu os investigo! – Gabrielle parecia ter aberto uma torrente de informações que César lutava para assimilar a tempo.

– Minha proximidade com o Vaticano me deu uma nova fonte de pesquisas, ou melhor, o pessoal da universidade descobriu, outras indicações sobre essa pirâmide! Existem documentos sigilosos dentro da Igreja, que auxiliaram vultosamente nessa busca por informações. São apóstrofes não reconhecidas oficialmente com mais de dois mil anos de idade! De certo modo já estava tudo relatado, existem várias fontes codificadas, um verdadeiro quebra-cabeça milenar!

Uma vez descoberta essa “pirâmide mãe” encontraram nela inimagináveis ensinamentos e revelações sobre o mundo, inclusive sobre o milagre da criação. Alguns grupos organizados já sabiam que mais cedo ou mais tarde essa pirâmide seria descoberta. Não sei qual sua crença César, mas existem outros evangelhos ocultos e eles descreveram a construção dessa pirâmide e profetizaram que aconteceria isso aconteceria agora, a verdade sempre acaba vindo a tona...

– Do que você está falando? Eu não entendo! Isso tem haver com religião?

– Ora César junte os fatos! – a loira se incomodou com a falta de perspicácia – Esse professor Wild e seu patrocinador descobriram tudo sobre a pirâmide, agora eles querem controlar tudo que encontraram, eles querem usar isso contra a humanidade! – ela suspirou sabendo que não conseguia ser clara o suficiente – Além dessa múmia do Faraó humanóide, encontraram outros artefatos fora da pirâmide, mas intimamente ligados a ela. A Pedra Apical e a Chave de Anúbis. Pode parecer loucura, mas existe um rito – Gabrielle esforçava-se em encontrar as palavras certas –, esses três elementos somados a tempestade solar, que está acontecendo agora, seriam capazes de...

César a interrompeu seguindo instintivamente o seu raciocínio –... eles pretendem reanimar o Faraó, ressuscitá-lo?! – a conclusão dele soou instável.

– Isso mesmo! – ela se mostrou animada com o raciocínio de César – Com a Chave de Anúbis eles abrirão a câmara central da pirâmide. Não sei se você sabe, mas o granito usado na construção da câmara se compõe de cristais de quartzo, mica e feldspato, esse material, particularmente submetido à pressão produz um campo piezelétrico, tornando a pirâmide uma espécie de condensador de carga gigantesco, insólito e permanente...

Falar em piezeletricidade remeteu os pensamentos de César a Milena que não entendia nada daquilo, por um segundo desligou-se das explicações fantásticas de Gabrielle, mas logo se concentrou novamente em seu relato que parecia sincero.

– O cristal, chamado de Pedra Apical, será posto no arremate, no cume da pirâmide e será energizado potencialmente pela tempestade magnética gerando assim um campo de energia assombroso que seria teoricamente capaz de dar nova vida àquele estranho humanóide que você viu no sarcófago! Eu sei que parece inacreditável, eu mesma se não tivesse estudado a fundo essa possibilidade custaria a acreditar, e às vezes ainda me pego duvidando. Mas isso não importa, eu quero interromper esse processo quimérico para que a Universidade do meu tio tenha essa questionável honra.

Não é certo deixar esse verme do Wild com todos os louros e o nome do me pai sequer ser citado. Vivi até hoje pra impedir isso! Agora você acredita em minhas razões particulares?

César conseguira mais uma vez ficar boquiaberto. Como se não bastasse à prova da existência de vida fora da Terra, como se não chegasse ele ver a múmia de um extraterrestre, ainda queriam o alienígena vivo. Empurrou nervoso seus óculos no rosto: – E para que o querem vivo? – perguntou temeroso.

Gabrielle riu da ingenuidade dele. – PODER! Uma coisa que pode ser ressuscitada milhares de anos depois de sua morte é no mínimo louvável! Pelos escritos na pirâmide, o alien é detentor de um conhecimento assombroso que iria revolucionar a forma de vida na Terra...

– Mas isso é bom, seria uma nova era para humanidade. Imagine os benefícios Gabrielle!

Ela não compartilhava da empolgação dele: – Não César, parece que a coisa não é bem assim! Essa divindade não é de fato filantrópica! Você sabe como as pirâmides foram construídas?

César saltou em defesa das pirâmides – Claro que sim, embora muitas coisas estejam ocultas no seu planejamento e execução, está provado que os trabalhadores eram pagos por seus serviços, não havia escravidão!

A loira se entusiasmou com o ponto em que a conversa tinha chegado – Isso mesmo, não eram escravos, mas sim subjugados aos faraós de forma inconsciente e irracional! Eles eram dominados psiquicamente, trabalhavam sem parar como zumbis! Adoravam ao faraó de forma irracional! É essa evolução que essa criatura traz! Seriamos todos escravizados sem darmo-nos por conta! – Gabrielle voltou a seu ritmo normal – Proporcionalmente, algo como a televisão faz com a sociedade hoje em dia! – riu ironicamente – Tudo isso está alertado nos evangelhos de outros apóstolos e que foram descartados. Essa besta foi condenada a morte no deserto e nunca deveria ter sido encontrada! Nos escritos antigos diz-se que ela foi banida há séculos atrás e deverá ser impedida de voltar a Terra, eles se referem ao alienígena como a besta, provavelmente a primeira besta do apocalipse!

– E você? Qual é a sua missão? Quer evitar heroicamente o cataclismo?

– Já disse que devo impedir isso. Vim, se for preciso para matar Wild. Quero que ele olhe nos meus olhos e veja o quanto tirou de mim. Impedi-lo de realizar o Rito de Ressurreição será o mesmo que matá-lo! De quebra posso negociar com a Igreja que não quer permitir que esses fatos venham à luz, seria o fim dos preceitos, dos dogmas, do gênese ideológico que a Igreja acredita! E ainda posso salvar a Ítalo-Uiic, e meu tio.

César riu nervoso lembrando de alguns livros com histórias semelhantes a que acabara de ouvir – Você não espera que eu esconda isso do mundo, “SE” for verdade, não é?

Ela riu – Una storia sempre è una storia!! Pode contar pro mundo tudo o que te contei. Você sabe que a maioria dessas histórias não são mais novidades. Mas uma prova é um fato irrefutável. Saber que pode existir um alien e falar um monte de besteiras sobre a Igreja já é até comum, agora ver um alien andando por ai, é outra coisa muito diferente! Una stessa cosa molto diversa!
César concordou. Avaliando as explicações de Gabrielle percebeu que tudo se encaixava e aquilo poderia elucidar e confirmar diversas teorias que ele já conhecia de longa data – E agora Sra. Especialista o que vamos fazer?

O plano de Gabrielle não era complexo: – Trocamos a Pedra Apical e o sarcófago pela liberdade de Milena, é simples! – ela sorriu satisfeita.

César percebeu que a loira escondia algo naquela simplicidade aparente – Assim eles que já têm a Chave de Anúbis teriam o sarcófago e a pedra, ou seja, tudo! O seu trabalho vai por água abaixo! O que você está escondendo? – César deu um passo em direção a jovem para pressioná-la.

– Não se preocupe com isso César, eu mesma me entendo com Wild, podemos entregar tudo em benefício à vida de Milena, mais tarde eu encontro uma maneira de impedi-los! Eu ainda priorizo a vida.

O discurso não comoveu César, mas não tinham muito tempo. Ele deixou o subsolo e foi negociar a barganha, Gabrielle deixaria o sarcófago e a pedra próximos ao elevador, quando realizada a troca César indicaria onde estavam as relíquias.

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