Como somente César e Milena conheciam Gabrielle, Egmar achou melhor que eles também fossem levados à pirâmide atrás da italiana que havia roubado o sarcófago e a pedra de arremate.
Como a viagem estava em espera até que se providenciasse um novo helicóptero, os dois foram acomodados num dos quartos do Bahiti Hotel, devidamente guardado por um segurança infausto.
Hospedado ao lado o Professor Wild estava visivelmente abatido com o furto dos pertences da pirâmide e com a aparição quase fantasmagórica de Gabrielle.
No quarto subseqüente Egmar tentava se acalmar. Em situações de forte stress, como aquela, seu coração ficava descompassado numa taquicardia impertinente e incômoda. O projeto de sua vida podia estar se arruinando e nenhum dinheiro do mundo poderia reverter àquela situação, estava completamente impotente perante o roubo da italiana, e esse era o pior sentimento que ele podia sentir.
Milena e César passaram algum tempo abraçados, sentindo-se a salvo, um nos braços do outro. Apesar da diversidade e do eminente risco de morte eles ardiam por saber mais sobre aquela história fantástica a qual tinham se tornado personagens, Milena sentia uma necessidade capital de revelar ao mundo a verdade sobre o Faraó Desconhecido e a possível evidência de vida extraterrestre.
– Por mais que esses argumentos partam de premissas verdadeiras ainda não posso crer nessa falácia, de repente teremos a oportunidade de provar que há uma fraude nisso tudo, ou no mínimo um erro de conclusão! – Milena deixou o banheiro após o banho enxugando os cabelos com uma enorme toalha felpuda que trazia a logomarca do Bahiti Hotel bordada em dourado – Apesar das diversas evidências que eles me mostraram – ela suspirou -, e são evidências significativas, meu lado racional grita que isso é fantástico demais para ser verdade!
César, já de banho tomado, estava sentado na cama a observando afetuosamente, seus óculos repousavam no criado-mudo – Eu concordaria totalmente com você, mas não posso, eu vi a criatura mumificada. Se for fraude, é perfeita! – César tinha um desânimo cansado na voz, como se já tivesse desistido de não acreditar por pura exaustão.
– Mesmo assim, mesmo assim César, tem que haver alguma outra explicação! – ela jogou-se na cama irresoluta, sacudiu o colchão e as convicções de César – Você chegou a tocar no bicho?
– Bicho? – César riu da maneira simplória com que ela tratou, quem sabe, a maior descoberta de todos os tempos – Não toquei, não abracei – ele se lançou sobre ela, abraçando e beijando –, não beijei, não apertei...
Os dois estavam embolados na cama com as brincadeiras de César quando foram interrompidos por duas batidas quase inaudíveis na porta. Ficaram em silêncio para que se confirmasse a suspeita. Novamente duas batidas, de fato alguém estava à porta. Sentiram-se pegos em flagrante.
Olharam-se estranhando o episódio, se fosse alguém a mando de Egmar não teria a delicadeza de bater. César abriu a porta com cautela.
– Vocês estão sozinhos? – a porta impedia que Milena visse de quem era aquela voz forte, porém sussurrante. César assentiu com a cabeça, estavam sozinhos.
O homem entrou num movimento rápido e fechou a porta atrás de si. Milena sentiu-se ameaçada pela presença daquele homem truculento de aspecto sinistro.
– Lena, esse é o Mes Jarha, ele estava fazendo a segurança do Inlab, é também o pai da Sadeh! – César esclareceu a Milena à identidade do visitante.
– Desculpa invadir assim o quarto de vocês, não posso demorar. Sou eu que estou guardando o quarto de vocês esta noite!
O casal se olhou intrigado, não estavam pensando em fugir, eles queriam ir com a equipe de Egmar até a pirâmide – Qual será o objetivo desse Mes Jarha? – pensou Milena com atenção redobrada.
– Meu filho Mourad pediu que eu viesse aqui, ele disse que vocês irão resgatar minha Sadeh, e eu agradeço muito! – seus olhos confirmaram sua gratidão antecipada – Mas eu vim por outro motivo! – ele enxugou as lágrimas antes que elas deixassem seus olhos – Mourad disse que vocês são repórteres brasileiros e que gostariam de saber o que ele descobriu!
Mes Jarha falava enrolado, pronunciava as palavras muito rapidamente, Milena mal conseguia entendê-lo, mas seu ar íntegro e seu jeito sincero de cativou a jovem.
– E o que ele descobriu Mes Jarha? O que seu filho quer nos contar? – César inquiria o homem quase com carinho, apesar de todo tamanho ele parecia um bichano amedrontado naquele quarto.
– Desculpa, estou um pouco nervoso! Na verdade eu sou porteiro e não segurança, Mourad disse que estão acontecendo assassinatos aqui nesse hotel! – embora o corpulento Mes Jarha fosse um negro de grande porte demonstrava traços de sua personalidade nem tão altiva.
César olhou para ele esperando a revelação – Ah! Eu não sei o que ele descobriu não! Ele pediu que fossem ao laboratório! Eu vim pra dar cobertura pra vocês!
Os corredores do hotel estavam desertos, havia luz nos quartos de Egmar e de Wild, o único risco temido era um encontro com o gerente insone Rewer Aziz.
Mes Jarha permaneceu na porta do quarto enquanto Milena e César desceram pelas escadas seguindo uma rota segura articulada pelo novo cúmplice. Usaram a saída de serviço, não tiveram qualquer contratempo.
A fuga teria sido completamente secreta, eles não imaginavam, no entanto, que havia alguém vigiando o Bahiti Hotel, alguém que nem mesmo o soberano Egmar controlava.
Chegaram à rua dos fundos completamente.
– O que você está dizendo César? Eu vou me arrastar na sarjeta? Entrar por uma boca de lobo? É isso? – Milena tinha acabado de sair do banho e a idéia de andar pela canalização, mesmo que de águas da chuva, pareceu-lhe repulsiva.
César respondeu abrindo um bueiro próximo à esquina – Vamos Lena, quero saber logo o que o garoto tem a nos dizer!
Há menos de uma quadra dali um homem com aspecto sinistro observava o estranho comportamento daquelas pessoas fugindo pelo esgoto. Resolveu segui-los, precisava saber o que estavam fazendo. As ordens eram claras, em caso de qualquer problema, fazer-se-ia a contenção, em outras palavras, ele deveria eliminar o problema. Guardou seu revólver na cintura que era encoberta por sua capa gabardine. Esperou um tempo e logo se infiltrou também na tubulação.
– Tem alguém nos seguindo! – Milena sentiu imediatamente a presença do homem atrás deles – César, tem alguém nos seguindo!
– Calma Milena, já vamos chegar, não tem ninguém aqui! – César ia a frente andando o mais rápido possível, não queria que Milena percebesse o quanto ele também ojerizava aquele ambiente.
O túnel estava mais escuro que o homem imaginava, pensou que podia ser uma armadilha, sacou a arma e redobrou a atenção e a vigilância, sentiu seu coração pulsar mais rápido pela descarga de adrenalina, nessas horas a experiência não é tão grande aliada – O que será que eles descobriram? – pensou o homem alimentando suas dúvidas e sua apreensão.
Os passos no chão com cerca de cinco centímetros de água fazia seu barulho característico que era repercutido pelas paredes côncavas de concreto da tubulação. Não era difícil localizar alguém ali dentro, baseada nisso Milena segurou César com força para que ele parasse e ouvisse os passos de quem os seguia pela galeria.
Ficaram alguns segundos em total silêncio esperando pelos passos do intruso. César reivindicaria algo, mas Milena o calou com a mão em sua boca. Esperaram novamente em silêncio e novamente só ouviram suas próprias respirações. Milena tentou se convencer e seguiu frustrada atrás de César.
Oculto pela escuridão quase que total, o homem os observava de longe em silêncio, ele era hábil o suficiente para despistá-los – Eles estão indo para o Inlab! Descobriram tudo! – a tensão do homem se potencializou, ele teria que contê-los.
Preferiu agir de forma mais rápida que discreta e acelerou a caminhada – Como eles conseguiram, tudo estava tão bem arranjado, não era a hora pra isso acontecer! – abstraia-se em pensamentos enquanto tentava alcançá-los antes que chegassem ao laboratório. Engatilhou o revólver, depois daquela curva já poderia acertá-los facilmente, anos de prática lhe concediam essa prerrogativa.
Ao dobrar ultima curva do túnel, o que o deixaria em direção a entrada do Inlab, pode vê-los, mas ao contrário do que imaginava eles estavam bem mais perto que deveriam.
César e Milena esperavam o homem para atacá-lo de surpresa. Com o susto da presença inesperada o homem já tinha perdido boa parte do seu equilíbrio, perdeu todo o resto quando Milena calçou sua perna dando-lhe uma rasteira violenta. O revólver afogou-se no filete de água turva.
César segurou o homem no chão, impedindo que fosse a procura da arma. Segurou o quanto pode, mas o homem, embora mais velho era forte e conhecia bem técnicas de defesa pessoal, logo levou vantagem sobre o jornalista lançando-o longe e se libertando.
O homem voltou para procurar a arma enquanto já a certa distância Milena corria em direção ao laboratório, César fez o mesmo, se alcançassem o Inlab estariam a salvo, lá havia seguranças por todos os lados. A água turva, ainda que pouca, dificultou a busca do homem, se ele encontrasse a arma com certeza os projéteis poderiam alcançar César e Milena mesmo à distância.
A corrida acelerada fez com que alcançassem rapidamente a escada que os levou a mais três andares no subsolo, uma grade de arame alta e frágil guardava psicologicamente a porta de acesso.
– Se ele tivesse encontrado a arma nós estaríamos mortos Milena! – César recuperava o fôlego e empurrava trêmulo o óculos no rosto.
– Você fala dessa arma? – Milena tirou do bolso o revólver do homem. Ela tinha pegado enquanto os dois permaneciam no embate – Será que era alguém a mando do Egmar? Porque tentariam nos matar?
César cruzou a porta – Vivo! – pensou debochando de si mesmo.
Milena sentia o mesmo, estava fortificada e com mais gana ainda de investigar tudo e ir até as últimas conseqüências pela verdade dos fatos, o pior que poderia acontecer já tinha acontecido.
Milena ainda não conhecia o Inlab – Nós estamos mais de três andares abaixo da terra! Eu que vi aquele prédio tão simples jamais poderia imaginar que ele se enterrava dessa maneira! Devastador! – Milena lembrou do adjetivo comum na boca de Totila e riu sozinha enquanto adentrava por definitivo no território do Laboratório internacional de ciência, geologia, medicina e metafísica aplicada.
Conforme indicado por Mes Jarha havia dois jalecos com a insígnia do Inlab os esperando. De posse daquele uniforme não seriam mais importunados por ninguém que estivesse trabalhando ali.
Trancaram a porta com barras de ferro atravessadas e com mais outros materiais que encontraram naquele subsolo sombrio. A menos que aquele homem tivesse poderes sobrenaturais, ele não conseguiria passar por aquela porta, e se passasse, estaria desarmado.
– É no subsolo três que está o Mourad, o andar está todo reservado, lá estaremos a salvo de verdade e poderemos ficar mais tranqüilos!
Logo alcançaram o corredor longo e mal iluminado que culminava na pesada porta de ferro que estava apenas encostada, dentro da sala Mourad trabalhava em frente ao microcomputador, ele era iluminado somente pela luz do monitor, era assim, na penumbra, que o jovem egípcio gostava de trabalhar.
– Mourad! – César atenuou o máximo a voz para não assustá-lo. Assim que o jovem percebeu a presença deles abriu um sorriso amistoso que cativou imediatamente Milena – que família encantadora, pai, filho e filha, todos com o mesmo olhar e sorriso simpático! – pensou a jovem enquanto se apresentava a ele.
– Só agora estou melhor, a última vez que vi o César, eu estava apavorado com o que tinha visto no esquife do Faraó, quase sai correndo do hotel! – Mourad estava realmente bem mais tranqüilo, já tinha até recuperado sua cor característica – Sei que vocês tem que voltar o quanto antes para não serem descobertos, mas eu tinha que contar o que eu descobri! Pode não ser importante, mas sei lá, de repente ajuda!
– Qualquer coisa ajuda Mourad, qualquer coisa...
César e Milena se acomodaram em cadeiras, um de cada lado do jovem que seguiu em frente ao computador.
– Bem, a verdade é que depois que eu tive aquele encontro fatídico com a múmia bizarra, assim que consegui me acalmar, me interessei muitíssimo mais pelo assunto. – ele tomou fôlego para prosseguir – Tenho aqui arquivado todos os procedimentos adotados quando o sarcófago veio a primeira vez pra cá, logo após sua descoberta, e tenho também os arquivos dos procedimentos adotados agora.
A diferença é que dessa vez o laboratório só conservou o sarcófago, não foi feito nenhum outro exame ou análise. O que vou mostrar agora é um exame antigo, uma ressonância que fizemos da primeira vez que o esquife passou pelo Inlab.
Algumas dezenas de cliques depois e o arquivo se abriu na tela do computador. Por mais sofisticado e moderno que fosse o monitor de plasma as imagens que surgiram eram pouco nítidas, pareciam com o ultra-som de uma gravidez. Os três permaneceram imóveis em frente à tela, atentos a todos os detalhes.
– Desculpa, esses exames não são mesmo muito nítidos, mas o que eu quero mostrar é bastante perceptível. – no monitor via-se claramente o contorno do sarcófago e, ainda que imprecisamente, a silhueta da múmia que jazia dentro dele – Vejam, essa é a corporatura da múmia!
Milena e César observavam atentamente procurando encontrar as evidências que levaram Mourad a alguma descoberta – Não vejo nada Mourad, nada além da sombra da múmia, desculpa, não sei do que está falando! – César desanimou, desistindo do enigma proposto – Não faço idéia do que você quer nos mostrar!
– Veja bem César, você é o único que pode confirmar o que estou querendo dizer! – novamente o silêncio respondeu que César não progrediria sozinho – Você se lembra do que vimos dentro do esquife quando ele se abriu?
César semicerrou os olhos por alguns instantes relembrando o ocorrido, parecia que aquilo tinha acontecido há uma eternidade – Eu vi um tipo de humanóide... sei lá, uma criatura assustadora!
– Isso! Um ser sobrenatural foi o que vimos! Mas me diga César, aproximadamente, que tamanho tinha essa criatura que você viu?
César lembrava com nitidez da múmia do faraó, podia descrevê-la com detalhes se fosse preciso – Não era muito grande, lembro bem daquele serzinho com olhos negros oblíquos e apavorantes, ele tinha provavelmente um pouco mais de um metro e meio!
Mourad abriu um sorriso pródigo – Era isso que queria que você lembrasse! Vejam nesses exames, nos testes feitos da primeira vez indicam sem sombra de dúvidas uma múmia de no mínimo um metro e oitenta! – ele apontou o comprimento do vulto dentro do sarcófago ecografado.
Milena e César se olharam ainda formando uma opinião quando Mourad continuou – Isso só me deixou mais intrigado, então perscrutando os demais relatórios achei outra incongruência. O sarcófago que enviei hoje pela manhã ao Bahiti Hotel pesava exatos 123 quilos e 87 gramas, já o sarcófago que veio da pirâmide pra cá, esse com a múmia de um metro e oitenta, pesava 136 quilos e 13 gramas, está aqui, tudo arquivado!
– Então a múmia do Faraó Desconhecido que veio da pirâmide foi substituída por aquela que vocês viram no hotel? – Milena tentava confirmar o que estava pensando.
– Um outro fato inusitado me chamou a atenção. Na hora que César traduziu os hieróglifos que estavam escritos sob o sarcófago - “A morte virá com asas ligeiras para aqueles que perturbarem o repouso do faraó” – eu nem levei em conta, mas depois eu lembrei que no primeiro esquife não havia nenhum hieróglifo, senão teria algum registro nos meus arquivos, sem dúvida são sarcófagos diferentes...
O toque do telefone assustou o terno pensador. Mourad interrompeu o monólogo para atendê-lo – Como assim? – o jovem parecia surpreso com a ligação – E vocês me dizem isso assim! – ele desligou o aparelho aturdido.
– É melhor vocês irem embora rápido, não estão mais em segurança aqui, um homem armado entrou no prédio e está vindo pra cá! Não tiveram como impedi-lo, ele é influente aqui na cidade, e pior, os seguranças estão ajudando na busca! Vocês estão sendo caçados!
César e Milena souberam imediatamente de quem se tratava, o homem dos subterrâneos tinha voltado, só ele sabia que estavam ali.
Correram pelo corredor mal iluminado que parecia mais comprido que antes. O elevador do meio indicava que alguém estava vindo sem escalas direto para o andar onde estavam, em poucos segundos estariam cara a cara.
– O que mais você descobriu Mourad? – inquiriu César esperando que o outro elevador chegasse para que partissem.
Mourad estava mais nervoso que os dois, o sibilo do elevador indicou sua chegada, por sorte o elevador vazio chegou primeiro. César e Milena entraram imediatamente, logo o outro estaria ali também.
– Vocês devem ir ao terceiro andar e subir ao terraço, lá há uma bio-estufa onde executamos algumas experiências, não é o lugar mais seguro que poderiam estar, mas não sei mais onde poderiam ir. Ao norte, na parte final da estufa há uma saída de emergência, a escada segue por fora do prédio e vocês estarão livres! – Mourad suspirou condoído – Desculpa colocá-los nessa enrascada!
O elevador se fechou sincrônico com a abertura do outro. O homem de gabardine surgiu esbaforido e visivelmente indignado – Onde estão eles? Pra onde eles foram?
O elevador os levou até o terceiro andar, dali foram, conforme indicado por Mourad, até a entrada da estufa que ocupava todo o terraço do prédio e mais o terraço do prédio vizinho.
Milena já tinha visto reportagens sobre a Bioestufa, mas jamais se imaginaria dentro dela, e não podia imaginar também o tamanho daquela estrutura que a primeira impressão casou-lhe um arrepio de medo – É como uma pirâmide moderna! – pensou ilógica.
Digitaram o código de acesso e passaram o cartão magnético de Mourad, a porta abriu-se e um cronômetro passou a contar cinco segundos regressivos, tempo máximo que a porta permanecia aberta, protegendo o interior da biosfera artificial. Tempo esgotado os dois sentiram-se mais seguros ali dentro.
O lugar era surpreendente, por pouco não seria capaz de enganá-los a ponto de crerem estar numa atmosfera real. O domo que recobria o terraço tinha em seu ponto mais alto cerca de cinqüenta metros de altura, o que permitia até mesmo a manutenção de algumas árvores de grande porte. O espaço era bem dividido, em áreas diferentes estavam tipos distintos de flora, a fauna permanecia oculta aos olhos dos dois.
– Tipo estranho de cultura essa, não? – Milena estava espantada com tamanha biodiversidade, já que o espaço não era assim tão infinito – Uma mistura desordenada de tudo! Isso deve dar uma confusão! Cientistas que pensam ser Deus.
– É um pouco pior que isso Milena, aqui fazem experiências com alguns animais, mutações, transgênia, cruzam espécies, enfim, sabe-se lá o que pode ter por aqui! – César suava frio, empurrava os óculos e virava-se para todos os lados avaliando o ambiente – É melhor sairmos logo daqui, esse lugar me assusta!
Não seria muito longa a caminhada até o ponto onde estava à saída de emergência, porém o lugar ainda permanecia escuro e os dois pareciam intrusos num território hostil – Pelo menos não há animais de grande porte! – comentou Milena aliviada.
César seguia um pouco à frente, não revelou, mas sabia que poderiam ter problemas com os insetos e répteis que se escondiam naquela estufa verossímil.
Algumas formigas africanas in natura já eram perigosas, se tivessem sido associadas a outras espécies poderiam ser mortais. Serpentes com venenos potencializados, escorpiões super-desenvolvidos, aranhas trangênicas, enfim, todos os animais naquela estufa eram de alguma forma seres mutantes, que poderiam ter até novas formas de ataque, a idéia de Mourad tinha se revelado uma excelente armadilha.
Um zunido estranho fez que Milena interrompesse a jornada, ela franziu a testa tentando identificar a procedência daquela sinfonia angustiante – César você ouviu isso?
César voltou-se para Milena e o espanto ficou estampado em seu rosto, mesmo que não dissesse nada já estava clara a gravidade da situação – Milena, não se mexa, não se mexa pelo amor de Deus!
A frase de César foi como uma sentença de morte para Milena. Ela sabia que aquilo significava que algo muito ruim estava acontecendo ao seu redor.
O zumbido tinha se intensificado muito, abelhas-africanas surgiram em grande quantidade naquele momento – Milena você está em cima da colméia delas! Se sair daí o movimento vai acabar rompendo a casca, não se mexa! Essa espécie de abelha é muito agressiva!
Milena sentiu o chão cedendo lentamente, seus pés estavam a poucos centímetros da entrada da colméia. Dezenas de abelhas saiam incessantemente do buraco no chão e circulavam a sua volta, muitas pousavam em seu corpo como que avaliando um inimigo.
César reconhecia aquele abdome com listras amarelo-avermelhadas e o tórax com pilosidade amarelada. Eram as abelhas mais perigosas e hostis que conhecia, e com certeza estavam cruzadas com outras espécies, provavelmente com sua vilania reforçada.
Milena estava em pânico, cada vez mais e mais abelhas circulavam a sua volta, mais ameaçadoras, mais barulhentas. As que estavam caminhando por seu corpo lhe causavam uma agonia pungente. Elas percorriam seu rosto, seus ouvidos, seus olhos, enfim, esquadrinhavam todo corpo.
César disparou atrás de um extintor de incêndio com CO2, assim ele poderia livrá-la daquelas abelhas sem grandes riscos. No entanto a Bioestufa não tinha nenhum sistema manual de combate a incêndio, o sistema era todo automatizado.
Milena sentiu que as abelhas já não estavam apenas a observando, algumas delas começavam a dar pequenas ferroadas em seu corpo. A agressividade delas aumentava assim como a intensidade do zumbido que emitiam, como que anunciando um ataque maciço. Milena sabia que se saísse dali destruiria a colméia e o enxame de milhares abelhas-africanas a atacaria fulminantemente, mas permanecer seria arriscar-se igualmente, César já havia sumido há algum tempo.
Não podia mais esperar, ao sentir de fato uma ferroada ofensiva percebeu que o ataque havia começado. Antes que pudesse tomar alguma atitude sentiu outras ferroadas rasgando sua pele. Desesperada saiu correndo pela Bioestufa, o movimento da fuga acabou despedaçando no chão a colméia, por sorte seu peso ao correr acabou bloqueando a saída de mais abelhas, pelo menos por algum tempo, mas as que já estavam fora da colméia eram em número o suficiente para matar qualquer pessoa.
A velocidade das inimigas de Milena era muito superior a dela, no entanto Milena superava-se na corrida e ia se debatendo, livrando-se da maioria das investidas. Sabia que quando parasse de correr seria devorada pelas picadas assassinas, já que as abelhas não pretendiam desistir da caça ou da vingança.
O sol já começava a iluminar a estufa, Milena viu quando um homem vestido com um imenso macacão amarelo, parecendo um astronauta, entrou na estufa.
Era Mourad armado com uma espécie de pistola que vaporizava um líquido azulado de uma caixa presa às costas do macacão. Milena se aproximou do jovem, certamente era um repelente para aqueles monstros voadores.
O líquido custou a aplacar a fúria das abelhas, mas por fim elas foram vencidas, César surgiu da parte sul da estufa, estava praticamente aos farrapos. Havia encontrado alguns outros insetos hostis. Por sorte Mourad tinha salvado Milena, César não teria conseguido salvá-la.
Milena foi atendida na enfermaria do Inlab, eles possuíam soluções quase milagrosas contra aqueles venenos que os insetos mutantes produziam. Os estudos com aqueles animais certamente eram secretos, ali estavam guardadas armas muito poderosas.
Mourad assim que conseguiu livrar-se do homem que os perseguia foi ao encontro dos amigos, sabendo que a Bioestufa era um lugar arriscado, mas era o único lugar fora do alcance daquele homem e dos seguranças. Aliás, eles continuavam sendo caçados dentro do Inlab, por sorte a enfermaria já tinha passado pela revista.
– Vocês devem ir o quanto antes, o dia já amanheceu e logo o Dr. Egmar dará por falta dos prisioneiros. Sei que as minhas descobertas só trouxeram mais dúvidas a vocês. Acho que aquela múmia que vimos até pode ser verdadeira, sabe-se lá por que processo de mumificação ele passou e de repente ainda vem passando, podem também ter trocado o esquife no Brasil, realmente não sei!
– Mourad, você vai ter que nos ajudar novamente! – Milena, antes de partir, impingiu ao jovem nova tarefa.
O casal refez o mesmo caminho da vinda, passaram pelo subterrâneo e chegaram de volta ao hotel. Mes Jarha em pânico os esperava, logo ele seria rendido e não poderia mais acobertá-los.
Tomaram outro banho e caíram num sono profundo, sequer debateram o assunto da provável fraude relacionada ao faraó. Eles tentariam absorver aquilo mais tarde, durante a viagem até a pirâmide.
Alguém estava mentindo, com certeza nem mesmo Egmar sabia que o esquife tinha sido trocado, eles só tinham certeza que os mistérios do Faraó Desconhecido ainda estavam longe de serem de fato desvendados.
O helicóptero se atrasou ainda mais que o previsto, só deixariam o Cairo no fim daquele novo dia. A notícia foi bem recebida pelo casal que pode descansar verdadeiramente. Milena precisava recompor-se, os remédios que havia tomado no Inlab eram derivados de alcalóides do ópio, isso significava muitas horas de sono.
Hospedado ao lado o Professor Wild estava visivelmente abatido com o furto dos pertences da pirâmide e com a aparição quase fantasmagórica de Gabrielle.
No quarto subseqüente Egmar tentava se acalmar. Em situações de forte stress, como aquela, seu coração ficava descompassado numa taquicardia impertinente e incômoda. O projeto de sua vida podia estar se arruinando e nenhum dinheiro do mundo poderia reverter àquela situação, estava completamente impotente perante o roubo da italiana, e esse era o pior sentimento que ele podia sentir.
Milena e César passaram algum tempo abraçados, sentindo-se a salvo, um nos braços do outro. Apesar da diversidade e do eminente risco de morte eles ardiam por saber mais sobre aquela história fantástica a qual tinham se tornado personagens, Milena sentia uma necessidade capital de revelar ao mundo a verdade sobre o Faraó Desconhecido e a possível evidência de vida extraterrestre.
– Por mais que esses argumentos partam de premissas verdadeiras ainda não posso crer nessa falácia, de repente teremos a oportunidade de provar que há uma fraude nisso tudo, ou no mínimo um erro de conclusão! – Milena deixou o banheiro após o banho enxugando os cabelos com uma enorme toalha felpuda que trazia a logomarca do Bahiti Hotel bordada em dourado – Apesar das diversas evidências que eles me mostraram – ela suspirou -, e são evidências significativas, meu lado racional grita que isso é fantástico demais para ser verdade!
César, já de banho tomado, estava sentado na cama a observando afetuosamente, seus óculos repousavam no criado-mudo – Eu concordaria totalmente com você, mas não posso, eu vi a criatura mumificada. Se for fraude, é perfeita! – César tinha um desânimo cansado na voz, como se já tivesse desistido de não acreditar por pura exaustão.
– Mesmo assim, mesmo assim César, tem que haver alguma outra explicação! – ela jogou-se na cama irresoluta, sacudiu o colchão e as convicções de César – Você chegou a tocar no bicho?
– Bicho? – César riu da maneira simplória com que ela tratou, quem sabe, a maior descoberta de todos os tempos – Não toquei, não abracei – ele se lançou sobre ela, abraçando e beijando –, não beijei, não apertei...
Os dois estavam embolados na cama com as brincadeiras de César quando foram interrompidos por duas batidas quase inaudíveis na porta. Ficaram em silêncio para que se confirmasse a suspeita. Novamente duas batidas, de fato alguém estava à porta. Sentiram-se pegos em flagrante.
Olharam-se estranhando o episódio, se fosse alguém a mando de Egmar não teria a delicadeza de bater. César abriu a porta com cautela.
– Vocês estão sozinhos? – a porta impedia que Milena visse de quem era aquela voz forte, porém sussurrante. César assentiu com a cabeça, estavam sozinhos.
O homem entrou num movimento rápido e fechou a porta atrás de si. Milena sentiu-se ameaçada pela presença daquele homem truculento de aspecto sinistro.
– Lena, esse é o Mes Jarha, ele estava fazendo a segurança do Inlab, é também o pai da Sadeh! – César esclareceu a Milena à identidade do visitante.
– Desculpa invadir assim o quarto de vocês, não posso demorar. Sou eu que estou guardando o quarto de vocês esta noite!
O casal se olhou intrigado, não estavam pensando em fugir, eles queriam ir com a equipe de Egmar até a pirâmide – Qual será o objetivo desse Mes Jarha? – pensou Milena com atenção redobrada.
– Meu filho Mourad pediu que eu viesse aqui, ele disse que vocês irão resgatar minha Sadeh, e eu agradeço muito! – seus olhos confirmaram sua gratidão antecipada – Mas eu vim por outro motivo! – ele enxugou as lágrimas antes que elas deixassem seus olhos – Mourad disse que vocês são repórteres brasileiros e que gostariam de saber o que ele descobriu!
Mes Jarha falava enrolado, pronunciava as palavras muito rapidamente, Milena mal conseguia entendê-lo, mas seu ar íntegro e seu jeito sincero de cativou a jovem.
– E o que ele descobriu Mes Jarha? O que seu filho quer nos contar? – César inquiria o homem quase com carinho, apesar de todo tamanho ele parecia um bichano amedrontado naquele quarto.
– Desculpa, estou um pouco nervoso! Na verdade eu sou porteiro e não segurança, Mourad disse que estão acontecendo assassinatos aqui nesse hotel! – embora o corpulento Mes Jarha fosse um negro de grande porte demonstrava traços de sua personalidade nem tão altiva.
César olhou para ele esperando a revelação – Ah! Eu não sei o que ele descobriu não! Ele pediu que fossem ao laboratório! Eu vim pra dar cobertura pra vocês!
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Os corredores do hotel estavam desertos, havia luz nos quartos de Egmar e de Wild, o único risco temido era um encontro com o gerente insone Rewer Aziz.
Mes Jarha permaneceu na porta do quarto enquanto Milena e César desceram pelas escadas seguindo uma rota segura articulada pelo novo cúmplice. Usaram a saída de serviço, não tiveram qualquer contratempo.
A fuga teria sido completamente secreta, eles não imaginavam, no entanto, que havia alguém vigiando o Bahiti Hotel, alguém que nem mesmo o soberano Egmar controlava.
Chegaram à rua dos fundos completamente.
– O que você está dizendo César? Eu vou me arrastar na sarjeta? Entrar por uma boca de lobo? É isso? – Milena tinha acabado de sair do banho e a idéia de andar pela canalização, mesmo que de águas da chuva, pareceu-lhe repulsiva.
César respondeu abrindo um bueiro próximo à esquina – Vamos Lena, quero saber logo o que o garoto tem a nos dizer!Há menos de uma quadra dali um homem com aspecto sinistro observava o estranho comportamento daquelas pessoas fugindo pelo esgoto. Resolveu segui-los, precisava saber o que estavam fazendo. As ordens eram claras, em caso de qualquer problema, fazer-se-ia a contenção, em outras palavras, ele deveria eliminar o problema. Guardou seu revólver na cintura que era encoberta por sua capa gabardine. Esperou um tempo e logo se infiltrou também na tubulação.
– Tem alguém nos seguindo! – Milena sentiu imediatamente a presença do homem atrás deles – César, tem alguém nos seguindo!
– Calma Milena, já vamos chegar, não tem ninguém aqui! – César ia a frente andando o mais rápido possível, não queria que Milena percebesse o quanto ele também ojerizava aquele ambiente.
O túnel estava mais escuro que o homem imaginava, pensou que podia ser uma armadilha, sacou a arma e redobrou a atenção e a vigilância, sentiu seu coração pulsar mais rápido pela descarga de adrenalina, nessas horas a experiência não é tão grande aliada – O que será que eles descobriram? – pensou o homem alimentando suas dúvidas e sua apreensão.
Os passos no chão com cerca de cinco centímetros de água fazia seu barulho característico que era repercutido pelas paredes côncavas de concreto da tubulação. Não era difícil localizar alguém ali dentro, baseada nisso Milena segurou César com força para que ele parasse e ouvisse os passos de quem os seguia pela galeria.
Ficaram alguns segundos em total silêncio esperando pelos passos do intruso. César reivindicaria algo, mas Milena o calou com a mão em sua boca. Esperaram novamente em silêncio e novamente só ouviram suas próprias respirações. Milena tentou se convencer e seguiu frustrada atrás de César.
Oculto pela escuridão quase que total, o homem os observava de longe em silêncio, ele era hábil o suficiente para despistá-los – Eles estão indo para o Inlab! Descobriram tudo! – a tensão do homem se potencializou, ele teria que contê-los.
Preferiu agir de forma mais rápida que discreta e acelerou a caminhada – Como eles conseguiram, tudo estava tão bem arranjado, não era a hora pra isso acontecer! – abstraia-se em pensamentos enquanto tentava alcançá-los antes que chegassem ao laboratório. Engatilhou o revólver, depois daquela curva já poderia acertá-los facilmente, anos de prática lhe concediam essa prerrogativa.Ao dobrar ultima curva do túnel, o que o deixaria em direção a entrada do Inlab, pode vê-los, mas ao contrário do que imaginava eles estavam bem mais perto que deveriam.
César e Milena esperavam o homem para atacá-lo de surpresa. Com o susto da presença inesperada o homem já tinha perdido boa parte do seu equilíbrio, perdeu todo o resto quando Milena calçou sua perna dando-lhe uma rasteira violenta. O revólver afogou-se no filete de água turva.
César segurou o homem no chão, impedindo que fosse a procura da arma. Segurou o quanto pode, mas o homem, embora mais velho era forte e conhecia bem técnicas de defesa pessoal, logo levou vantagem sobre o jornalista lançando-o longe e se libertando.
O homem voltou para procurar a arma enquanto já a certa distância Milena corria em direção ao laboratório, César fez o mesmo, se alcançassem o Inlab estariam a salvo, lá havia seguranças por todos os lados. A água turva, ainda que pouca, dificultou a busca do homem, se ele encontrasse a arma com certeza os projéteis poderiam alcançar César e Milena mesmo à distância.
A corrida acelerada fez com que alcançassem rapidamente a escada que os levou a mais três andares no subsolo, uma grade de arame alta e frágil guardava psicologicamente a porta de acesso.
– Se ele tivesse encontrado a arma nós estaríamos mortos Milena! – César recuperava o fôlego e empurrava trêmulo o óculos no rosto.
– Você fala dessa arma? – Milena tirou do bolso o revólver do homem. Ela tinha pegado enquanto os dois permaneciam no embate – Será que era alguém a mando do Egmar? Porque tentariam nos matar?
César cruzou a porta – Vivo! – pensou debochando de si mesmo.
Milena sentia o mesmo, estava fortificada e com mais gana ainda de investigar tudo e ir até as últimas conseqüências pela verdade dos fatos, o pior que poderia acontecer já tinha acontecido.
Milena ainda não conhecia o Inlab – Nós estamos mais de três andares abaixo da terra! Eu que vi aquele prédio tão simples jamais poderia imaginar que ele se enterrava dessa maneira! Devastador! – Milena lembrou do adjetivo comum na boca de Totila e riu sozinha enquanto adentrava por definitivo no território do Laboratório internacional de ciência, geologia, medicina e metafísica aplicada.
Conforme indicado por Mes Jarha havia dois jalecos com a insígnia do Inlab os esperando. De posse daquele uniforme não seriam mais importunados por ninguém que estivesse trabalhando ali.
Trancaram a porta com barras de ferro atravessadas e com mais outros materiais que encontraram naquele subsolo sombrio. A menos que aquele homem tivesse poderes sobrenaturais, ele não conseguiria passar por aquela porta, e se passasse, estaria desarmado.
– É no subsolo três que está o Mourad, o andar está todo reservado, lá estaremos a salvo de verdade e poderemos ficar mais tranqüilos!
Logo alcançaram o corredor longo e mal iluminado que culminava na pesada porta de ferro que estava apenas encostada, dentro da sala Mourad trabalhava em frente ao microcomputador, ele era iluminado somente pela luz do monitor, era assim, na penumbra, que o jovem egípcio gostava de trabalhar.
– Mourad! – César atenuou o máximo a voz para não assustá-lo. Assim que o jovem percebeu a presença deles abriu um sorriso amistoso que cativou imediatamente Milena – que família encantadora, pai, filho e filha, todos com o mesmo olhar e sorriso simpático! – pensou a jovem enquanto se apresentava a ele.
– Só agora estou melhor, a última vez que vi o César, eu estava apavorado com o que tinha visto no esquife do Faraó, quase sai correndo do hotel! – Mourad estava realmente bem mais tranqüilo, já tinha até recuperado sua cor característica – Sei que vocês tem que voltar o quanto antes para não serem descobertos, mas eu tinha que contar o que eu descobri! Pode não ser importante, mas sei lá, de repente ajuda!
– Qualquer coisa ajuda Mourad, qualquer coisa...
César e Milena se acomodaram em cadeiras, um de cada lado do jovem que seguiu em frente ao computador.
– Bem, a verdade é que depois que eu tive aquele encontro fatídico com a múmia bizarra, assim que consegui me acalmar, me interessei muitíssimo mais pelo assunto. – ele tomou fôlego para prosseguir – Tenho aqui arquivado todos os procedimentos adotados quando o sarcófago veio a primeira vez pra cá, logo após sua descoberta, e tenho também os arquivos dos procedimentos adotados agora.
A diferença é que dessa vez o laboratório só conservou o sarcófago, não foi feito nenhum outro exame ou análise. O que vou mostrar agora é um exame antigo, uma ressonância que fizemos da primeira vez que o esquife passou pelo Inlab.
Algumas dezenas de cliques depois e o arquivo se abriu na tela do computador. Por mais sofisticado e moderno que fosse o monitor de plasma as imagens que surgiram eram pouco nítidas, pareciam com o ultra-som de uma gravidez. Os três permaneceram imóveis em frente à tela, atentos a todos os detalhes.
– Desculpa, esses exames não são mesmo muito nítidos, mas o que eu quero mostrar é bastante perceptível. – no monitor via-se claramente o contorno do sarcófago e, ainda que imprecisamente, a silhueta da múmia que jazia dentro dele – Vejam, essa é a corporatura da múmia!Milena e César observavam atentamente procurando encontrar as evidências que levaram Mourad a alguma descoberta – Não vejo nada Mourad, nada além da sombra da múmia, desculpa, não sei do que está falando! – César desanimou, desistindo do enigma proposto – Não faço idéia do que você quer nos mostrar!
– Veja bem César, você é o único que pode confirmar o que estou querendo dizer! – novamente o silêncio respondeu que César não progrediria sozinho – Você se lembra do que vimos dentro do esquife quando ele se abriu?
César semicerrou os olhos por alguns instantes relembrando o ocorrido, parecia que aquilo tinha acontecido há uma eternidade – Eu vi um tipo de humanóide... sei lá, uma criatura assustadora!
– Isso! Um ser sobrenatural foi o que vimos! Mas me diga César, aproximadamente, que tamanho tinha essa criatura que você viu?
César lembrava com nitidez da múmia do faraó, podia descrevê-la com detalhes se fosse preciso – Não era muito grande, lembro bem daquele serzinho com olhos negros oblíquos e apavorantes, ele tinha provavelmente um pouco mais de um metro e meio!
Mourad abriu um sorriso pródigo – Era isso que queria que você lembrasse! Vejam nesses exames, nos testes feitos da primeira vez indicam sem sombra de dúvidas uma múmia de no mínimo um metro e oitenta! – ele apontou o comprimento do vulto dentro do sarcófago ecografado.
Milena e César se olharam ainda formando uma opinião quando Mourad continuou – Isso só me deixou mais intrigado, então perscrutando os demais relatórios achei outra incongruência. O sarcófago que enviei hoje pela manhã ao Bahiti Hotel pesava exatos 123 quilos e 87 gramas, já o sarcófago que veio da pirâmide pra cá, esse com a múmia de um metro e oitenta, pesava 136 quilos e 13 gramas, está aqui, tudo arquivado!
– Então a múmia do Faraó Desconhecido que veio da pirâmide foi substituída por aquela que vocês viram no hotel? – Milena tentava confirmar o que estava pensando.
– Um outro fato inusitado me chamou a atenção. Na hora que César traduziu os hieróglifos que estavam escritos sob o sarcófago - “A morte virá com asas ligeiras para aqueles que perturbarem o repouso do faraó” – eu nem levei em conta, mas depois eu lembrei que no primeiro esquife não havia nenhum hieróglifo, senão teria algum registro nos meus arquivos, sem dúvida são sarcófagos diferentes...
O toque do telefone assustou o terno pensador. Mourad interrompeu o monólogo para atendê-lo – Como assim? – o jovem parecia surpreso com a ligação – E vocês me dizem isso assim! – ele desligou o aparelho aturdido.
– É melhor vocês irem embora rápido, não estão mais em segurança aqui, um homem armado entrou no prédio e está vindo pra cá! Não tiveram como impedi-lo, ele é influente aqui na cidade, e pior, os seguranças estão ajudando na busca! Vocês estão sendo caçados!
César e Milena souberam imediatamente de quem se tratava, o homem dos subterrâneos tinha voltado, só ele sabia que estavam ali.
Correram pelo corredor mal iluminado que parecia mais comprido que antes. O elevador do meio indicava que alguém estava vindo sem escalas direto para o andar onde estavam, em poucos segundos estariam cara a cara.
– O que mais você descobriu Mourad? – inquiriu César esperando que o outro elevador chegasse para que partissem.
Mourad estava mais nervoso que os dois, o sibilo do elevador indicou sua chegada, por sorte o elevador vazio chegou primeiro. César e Milena entraram imediatamente, logo o outro estaria ali também.
– Vocês devem ir ao terceiro andar e subir ao terraço, lá há uma bio-estufa onde executamos algumas experiências, não é o lugar mais seguro que poderiam estar, mas não sei mais onde poderiam ir. Ao norte, na parte final da estufa há uma saída de emergência, a escada segue por fora do prédio e vocês estarão livres! – Mourad suspirou condoído – Desculpa colocá-los nessa enrascada!
O elevador se fechou sincrônico com a abertura do outro. O homem de gabardine surgiu esbaforido e visivelmente indignado – Onde estão eles? Pra onde eles foram?
***
O elevador os levou até o terceiro andar, dali foram, conforme indicado por Mourad, até a entrada da estufa que ocupava todo o terraço do prédio e mais o terraço do prédio vizinho.
Milena já tinha visto reportagens sobre a Bioestufa, mas jamais se imaginaria dentro dela, e não podia imaginar também o tamanho daquela estrutura que a primeira impressão casou-lhe um arrepio de medo – É como uma pirâmide moderna! – pensou ilógica.
Digitaram o código de acesso e passaram o cartão magnético de Mourad, a porta abriu-se e um cronômetro passou a contar cinco segundos regressivos, tempo máximo que a porta permanecia aberta, protegendo o interior da biosfera artificial. Tempo esgotado os dois sentiram-se mais seguros ali dentro.
O lugar era surpreendente, por pouco não seria capaz de enganá-los a ponto de crerem estar numa atmosfera real. O domo que recobria o terraço tinha em seu ponto mais alto cerca de cinqüenta metros de altura, o que permitia até mesmo a manutenção de algumas árvores de grande porte. O espaço era bem dividido, em áreas diferentes estavam tipos distintos de flora, a fauna permanecia oculta aos olhos dos dois.
– Tipo estranho de cultura essa, não? – Milena estava espantada com tamanha biodiversidade, já que o espaço não era assim tão infinito – Uma mistura desordenada de tudo! Isso deve dar uma confusão! Cientistas que pensam ser Deus.
– É um pouco pior que isso Milena, aqui fazem experiências com alguns animais, mutações, transgênia, cruzam espécies, enfim, sabe-se lá o que pode ter por aqui! – César suava frio, empurrava os óculos e virava-se para todos os lados avaliando o ambiente – É melhor sairmos logo daqui, esse lugar me assusta!
Não seria muito longa a caminhada até o ponto onde estava à saída de emergência, porém o lugar ainda permanecia escuro e os dois pareciam intrusos num território hostil – Pelo menos não há animais de grande porte! – comentou Milena aliviada.
César seguia um pouco à frente, não revelou, mas sabia que poderiam ter problemas com os insetos e répteis que se escondiam naquela estufa verossímil.
Algumas formigas africanas in natura já eram perigosas, se tivessem sido associadas a outras espécies poderiam ser mortais. Serpentes com venenos potencializados, escorpiões super-desenvolvidos, aranhas trangênicas, enfim, todos os animais naquela estufa eram de alguma forma seres mutantes, que poderiam ter até novas formas de ataque, a idéia de Mourad tinha se revelado uma excelente armadilha.
Um zunido estranho fez que Milena interrompesse a jornada, ela franziu a testa tentando identificar a procedência daquela sinfonia angustiante – César você ouviu isso?
César voltou-se para Milena e o espanto ficou estampado em seu rosto, mesmo que não dissesse nada já estava clara a gravidade da situação – Milena, não se mexa, não se mexa pelo amor de Deus!
A frase de César foi como uma sentença de morte para Milena. Ela sabia que aquilo significava que algo muito ruim estava acontecendo ao seu redor.
O zumbido tinha se intensificado muito, abelhas-africanas surgiram em grande quantidade naquele momento – Milena você está em cima da colméia delas! Se sair daí o movimento vai acabar rompendo a casca, não se mexa! Essa espécie de abelha é muito agressiva!Milena sentiu o chão cedendo lentamente, seus pés estavam a poucos centímetros da entrada da colméia. Dezenas de abelhas saiam incessantemente do buraco no chão e circulavam a sua volta, muitas pousavam em seu corpo como que avaliando um inimigo.
César reconhecia aquele abdome com listras amarelo-avermelhadas e o tórax com pilosidade amarelada. Eram as abelhas mais perigosas e hostis que conhecia, e com certeza estavam cruzadas com outras espécies, provavelmente com sua vilania reforçada.
Milena estava em pânico, cada vez mais e mais abelhas circulavam a sua volta, mais ameaçadoras, mais barulhentas. As que estavam caminhando por seu corpo lhe causavam uma agonia pungente. Elas percorriam seu rosto, seus ouvidos, seus olhos, enfim, esquadrinhavam todo corpo.César disparou atrás de um extintor de incêndio com CO2, assim ele poderia livrá-la daquelas abelhas sem grandes riscos. No entanto a Bioestufa não tinha nenhum sistema manual de combate a incêndio, o sistema era todo automatizado.
Milena sentiu que as abelhas já não estavam apenas a observando, algumas delas começavam a dar pequenas ferroadas em seu corpo. A agressividade delas aumentava assim como a intensidade do zumbido que emitiam, como que anunciando um ataque maciço. Milena sabia que se saísse dali destruiria a colméia e o enxame de milhares abelhas-africanas a atacaria fulminantemente, mas permanecer seria arriscar-se igualmente, César já havia sumido há algum tempo.
Não podia mais esperar, ao sentir de fato uma ferroada ofensiva percebeu que o ataque havia começado. Antes que pudesse tomar alguma atitude sentiu outras ferroadas rasgando sua pele. Desesperada saiu correndo pela Bioestufa, o movimento da fuga acabou despedaçando no chão a colméia, por sorte seu peso ao correr acabou bloqueando a saída de mais abelhas, pelo menos por algum tempo, mas as que já estavam fora da colméia eram em número o suficiente para matar qualquer pessoa.
A velocidade das inimigas de Milena era muito superior a dela, no entanto Milena superava-se na corrida e ia se debatendo, livrando-se da maioria das investidas. Sabia que quando parasse de correr seria devorada pelas picadas assassinas, já que as abelhas não pretendiam desistir da caça ou da vingança.
O sol já começava a iluminar a estufa, Milena viu quando um homem vestido com um imenso macacão amarelo, parecendo um astronauta, entrou na estufa.
Era Mourad armado com uma espécie de pistola que vaporizava um líquido azulado de uma caixa presa às costas do macacão. Milena se aproximou do jovem, certamente era um repelente para aqueles monstros voadores.
O líquido custou a aplacar a fúria das abelhas, mas por fim elas foram vencidas, César surgiu da parte sul da estufa, estava praticamente aos farrapos. Havia encontrado alguns outros insetos hostis. Por sorte Mourad tinha salvado Milena, César não teria conseguido salvá-la.
Milena foi atendida na enfermaria do Inlab, eles possuíam soluções quase milagrosas contra aqueles venenos que os insetos mutantes produziam. Os estudos com aqueles animais certamente eram secretos, ali estavam guardadas armas muito poderosas.
Mourad assim que conseguiu livrar-se do homem que os perseguia foi ao encontro dos amigos, sabendo que a Bioestufa era um lugar arriscado, mas era o único lugar fora do alcance daquele homem e dos seguranças. Aliás, eles continuavam sendo caçados dentro do Inlab, por sorte a enfermaria já tinha passado pela revista.
– Vocês devem ir o quanto antes, o dia já amanheceu e logo o Dr. Egmar dará por falta dos prisioneiros. Sei que as minhas descobertas só trouxeram mais dúvidas a vocês. Acho que aquela múmia que vimos até pode ser verdadeira, sabe-se lá por que processo de mumificação ele passou e de repente ainda vem passando, podem também ter trocado o esquife no Brasil, realmente não sei!
– Mourad, você vai ter que nos ajudar novamente! – Milena, antes de partir, impingiu ao jovem nova tarefa.
O casal refez o mesmo caminho da vinda, passaram pelo subterrâneo e chegaram de volta ao hotel. Mes Jarha em pânico os esperava, logo ele seria rendido e não poderia mais acobertá-los.
Tomaram outro banho e caíram num sono profundo, sequer debateram o assunto da provável fraude relacionada ao faraó. Eles tentariam absorver aquilo mais tarde, durante a viagem até a pirâmide.
Alguém estava mentindo, com certeza nem mesmo Egmar sabia que o esquife tinha sido trocado, eles só tinham certeza que os mistérios do Faraó Desconhecido ainda estavam longe de serem de fato desvendados.
O helicóptero se atrasou ainda mais que o previsto, só deixariam o Cairo no fim daquele novo dia. A notícia foi bem recebida pelo casal que pode descansar verdadeiramente. Milena precisava recompor-se, os remédios que havia tomado no Inlab eram derivados de alcalóides do ópio, isso significava muitas horas de sono.
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