CAPÍTULO 26

Egmar fez absoluta questão de levar Milena e César junto na expedição, com certeza não era uma generosa e desinteressada atitude. Além do piloto e do casal, seguiam apertados no pequeno helicóptero Egmar e o professor Wild. Por mais que Milena fosse grata por estar ainda viva, não pode chamar a viagem de tranqüila.

Pela janela do helicóptero Milena via sua aflição aumentar. A viajem noturna sobre as areias de um dos maiores desertos do mundo era uma experiência no mínimo desagradável. Quando seus olhos se cansavam ela perdia a noção entre o céu e a terra e tudo se misturava num único tom borrado. Milena esperava que o piloto tivesse muitas horas de vôo, e de preferência muita experiência em vôos noturnos.

César do mesmo modo estava angustiado com a viagem e lembrou que o pai de Gabrielle havia morrido num helicóptero a caminho daquela mesma pirâmide.

Era uma noite escura, sem lua ou estrelas, o vento forte uivava em violentas rajadas que trepidavam o aparelho no céu. De pois de algum tempo avistaram ao longe as tochas que iluminavam parvamente o acampamento rebelde. César e Milena lembraram que há pouco mais de uma semana já tinham estado ali.

A pirâmide permanecia oculta na escuridão do deserto cravada em um vale sinistro. Ao aproximarem-se mais avistaram pousado o outro helicóptero. Gabrielle havia conseguido localizar e descer tranqüilamente no acampamento. Certamente ela havia encontrado um lacaio que carregasse o esquife e a pedra apical pirâmide adentro.

Egmar bem que tentara avisar o acampamento sobre a presença invasora da italiana, mas a tempestade solar que serviria para suscitar seus planos serviu desta vez para atrapalhá-lo,s a comunicação foi impossível.

Pousaram sem dificuldades nas areias fofas do deserto. A certa distância puderam avistar a maior pirâmide do mundo e foram arrebatados com tamanha suntuosidade e beleza, era formidável, ainda que não estivesse totalmente descoberta.

Só puderam vê-la à distância, mas mesmo assim, era algo de deixar qualquer pessoa muito impressionada, até mesmo César que já conhecia grande parte das pirâmides do mundo não conseguiu deixar de admirar-se com a onipotência daquela obra fantástica.

Havia muitas tendas e barracas no lugar, muitos rebeldes se revezavam num gigantesco e verdadeiro cerco as proximidades da pirâmide; estavam, todos, muito bem armados.

Egmar detinha o controle em todo acampamento também, e dominava até mesmo o líder religioso Disebek Djau que coordenava o lugar. Estava explicado como o grupo de rebeldes tinha todo aquele poder bélico, Egmar bancava para manter as pessoas longe da pirâmide.

Disebek Djau foi recebê-los ainda no helicóptero – Sr. Egmar, venha depressa até a tenda principal, chegou uma mensagem urgente, parece que surgiu um novo problema! – Egmar evitou comentar qualquer coisa na frente dos brasileiros. Partiu em passos firmes e apressados para uma tenda maior.

Milena e César foram levados com descortesia para uma outra barraca grande, um tipo de prisão mal enjanbrada. A barraca era cercada também com arame farpado e dois sentinelas mal-encarados guardando a saída. Ali estavam mantidas algumas poucas pessoas.

A chegada dos novos cativos trouxe uma inquietude ao lugar. Milena não soube exatamente como, mas dois daqueles homens que estavam presos começaram uma briga justamente ao seu lado. Eles se xingavam numa língua estranha e logo já estavam atracados como cães raivosos no chão de areia.

Milena, a única mulher sob custódia, ficou apavorada com tamanha violência, em pouco tempo estavam os dois já ensangüentados e com aquele tipo violento de luta que possuíam, logo se matariam.

Não demorou muito e entrou na tenda um jovem que veio verificar o que havia de errado. Logo deu fim a briga com dois tiros no chão e com uma postura agressiva. Ele parecia furioso, falou alguma coisa com os amotinados, também aos gritos.

¡Él es mismo diferente del otros! – uma voz rouca falou com ela em espanhol. Vindo do fundo da barraca aproximou-se um senhor com sotaque estranho, ele tentava ser entendido em português.

Era Jaques Marques Gael, um espanhol gordacho de barba completamente branca e com mais de sessenta anos. O homem se apresentou como geneticista e egiptólogo entre outras especialidades diversas. Não foi preciso muito tempo para que se percebesse que aquele homem possuía grande inteligência, mas principalmente sabedoria.

– Como o senhor disse? Esse jovem é o quê? – Milena queria saber mais sobre o jovem rebelde, e que de preferência o homem falasse mais devagar.

Calmamente se aproximando, o velho continuou: – ¡Su nombre es Kaled! Él piensa... eso incomoda... – ele se riu, percebendo que havia falado em espanhol, logo se retificou – Esse é Kaled, e só tem uns vinte anos! Já o vi discutindo várias vezes com o líder rebelde, acabou ameaçado de morte. Logo vão matá-lo também! Ele pensa por si e isso incomoda...

Kaled por muito tempo foi o braço direito de Disebek Djau, no entanto nos últimos tempos estavam num eminente embate. O jovem começava a se opor aos desmandos do líder e isso já era sentido por todo grupo. Disebek Djau não se deixaria perder assim a autoridade ante os rebeldes. Kaled era mesmo visivelmente diferente dos demais por ali a começar pela nacionalidade. Ele era um jovem indiano, um jovem errante.

Milena achou graça do homem tentando ser claro em um português esquisito. Como teriam muito tempo acabaram se aproximando e conversaram por longas horas. Ele era simpático e agradável, contudo esquivou-se claramente de qualquer pergunta pessoal, apenas disse que estava preso há bastante tempo e confirmou que tinha visto alguns assassinatos patrocinados por Disebek Djau.

Vendo que o velho não revelaria mais nada de útil, César passou a observar todo acampamento com atenção, Sadeh deveria estar em alguma daquelas tendas, ou nos arredores. Ele foi descobrindo a dinâmica e funcionamento de todo acampamento.

Em uma tenda altamente vigiada estava o arsenal bélico do grupo; numa outra um pouco menor, porém bem servida, ficava o líder Disebek Djau, com apenas um guarda na porta como segurança. Outras barracas menores, sem muito conforto, abrigavam os rebeldes, ainda tinha uma onde se preparavam às refeições, e a tenda grande para os prisioneiros, onde eles estavam.

No entanto a tenda que mais chamou a atenção de César era pouco movimentada. Não chegava a ser grande, mas era feita de um material diferente das outras, provavelmente um tipo de tecido térmico e bem mais resistente. Na parte externa dessa tenda havia uma antena, tipo parabólica. César imaginou que ali deveria ser o centro nervoso do acampamento, ou coisa assim. Foi para lá que Egmar e Wild tinham se encaminhado quando chegaram.

Milena e César ficaram o resto da noite jogados ali, sem água ou comida, numa realidade calamitosa.

Logo o sol surgia em definitivo no horizonte e já vinha com o vigor do sol do meio-dia, o calor era intenso, e ainda não passava das sete horas da manhã. Pela movimentação no acampamento alguma coisa aconteceria em breve. O velho Gael procurava não falar de si, no entanto deixava clara sua aversão a Disebek Djau.

– Ele é um homem nefasto, com um coração mergulhado nas trevas! Ele ilude esse povo usando a religiosidade, mas está aqui só pelo dinheiro! Logo ele vai me matar, vai matar a todos aqui! – o discurso inflamado de Gael deixou Milena intrigada –¡Hablando en el diablo! – Gael apontou para tenda maior de onde saia Disebek Djau.

À noite Milena não tinha conseguido vê-lo direito, agora sob a luz do dia pode descobrir as formas de Disebek Djau. Ele era atípico para a região, mais jovem que Milena pensava e com a pele bem mais clara também. Ela teve a sensação de um mito se quebrando, até o medo que sentia desse encontro, acabou desaparecendo.

Kaled, se aproximou sorrateiro da barraca onde estavam, Gael foi discretamente para o canto da prisão encontrá-lo. Milena permaneceu atenta aquele encontro. Eles conversaram por algum tempo e Kaled foi embora cautelosamente depois de entregar alguma coisa ao espanhol.

Logo em seguida Gael os chamou com gestos largos e contentes. Reuniram-se no mesmo canto da prisão, protegidos de olhares alheios – Tomem, bebam, vocês devem estar sedentos! – o velho revelou a pequena cumbuca d’água que Kaled havia lhe trazido. Beberam ávidos, matando a sede que já ressecava os lábios.

– Eu disse, Kaled é um garoto especial, como um filho pra mim! Eu prometi levá-lo daqui! Assim que todo termine, eu levo esse garoto pra casa comigo! – o homem ao falar de Kaled deixava transparecer ternura em seu olhar – Ele me trouxe notícias também, é um grande... – ele buscou alguma palavra em português –... não sei como se diz, mas ele sempre me trás boas informações!

Em tom baixo o velho contou o que Kaled tinha ouvido – Meu filho disse que esses que chegaram ontem à noite com vocês entrarão na pirâmide para procurar uma mulher! Eles devem fazer isso logo!

Os olhos de Milena brilharam – Temos que entrar lá também! – pensou em voz alta.

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