César esperou a noite avançar, alguns rebeldes permaneceram em volta a uma animada fogueira, mas logo acabaram se recolhendo também. Ele conseguiu então atravessar o acampamento com discrição. Já era muito tarde e todos dormiam. Milena permaneceu na tenda em preces, depois de tantos anos ímpios ela pedia a Deus pela vida de César.César se esgueirou pelo chão cautelosamente. Preferiu não usar a porta. As fundações das tendas eram bastante superficiais, e a areia fofa facilitou que ele escavasse uma entrada pelos fundos.
Como não sabia o que encontraria, foi agindo com o máximo de cuidado que podia. Estava tão nervoso que seu coração parecia pulsar nas veias do pescoço.
A areia minimizava seus ruídos, o único barulho era mesmo de seu coração batendo apressado. A tenda estava abafada e quente, sem qualquer ventilação, parecendo mesmo um sarcófago. Logo que seus olhos se acostumaram a baixa luminosidade encontrou uma tenda ampla e sem muitos
móveis, aparentemente não havia ninguém ali. Aliviado, pode respirar mais tranqüilamente.
Aproveitando a oportunidade começou a vasculhar as coisas de Disebek Djau, de alguma forma valeria aquela exposição toda. Em cima de uma mesa havia diversos papéis. Tentou entender, mas a linguagem daqueles documentos era muito técnica – Isso é mais a cara da Milena – pensou analisando os papéis que nada tinham a ver com o Egito.
César logo se deu conta que não estava sozinho conforme tivera a impressão. Havia alguém encolhido sobre a cama. A poucos metros uma mulher parecia dormir profundamente. O sangue gelou em suas veias, César trepido chegou a recuar, mas depois de um suspiro longo recobrou a serenidade. Guardou consigo a pasta com os documentos, que mais tarde entregaria a Milena.
Ajeitou os óculos no rosto e se aproximou da cama para confirmar quem estava ali deitada. Já bem próximo confirmou suas suspeitas, sentiu um calor no coração e uma satisfação ao reencontrar aquela mulher.
O afago que César fez nos cabelos da jovem a despertou. Ela ficou muito assustada, mas ao reconhecê-lo sorriu amistosamente. – Seu pai Mes Jarha está louco procurando por você! Seu irmão Mourad, e a Cassiana, todos estão muito preocupados!
Sadeh sentou-se na cama calmamente – Mas eles não tem que se preocupar comigo! Eu estou bem! – a fisionomia dela transpassava uma serenidade quase anormal – Eu vim pra esse acampamento atrás do Disebek Djau! Eu sei o que estou fazendo...
Aquela novidade havia pegado César de surpresa, era incrível como as coisas se fechavam num círculo de coincidências que ele jamais tinha visto. Disebek Djau era o namorado que a tinha abandonado. César permaneceu acompanhando Sadeh com olhos de interrogação até que ela explicasse tudo.
– A mais ou menos dois anos, lá no Cairo, Disebek Djau e eu éramos namorados, cheguei a sair de casa por causa dele, tudo parecia bem, mas ele sumiu de repente, parece que teve problemas com tráfico de drogas. Eu fiquei muito mal e completamente sozinha, meu pai não me quis de volta e se não fosse a Cassiana nem sei o que seria de mim! Nunca passei por isso antes, e jurei que não passaria mais! – ela revelou uma face inédita, a timidez de seus olhos transformaram-se em astúcia – Quando eu soube que ele tinha voltado pro Egito, que ele estava aqui novamente, não pensei duas vezes, vim o mais rápido que pude procurá-lo!
César suspirou contrariado, a garota tinha mesmo vindo por livre e espontânea vontade.
– Não sei se você pode me entender ou se vai me julgar, mas eu vim buscar o que é meu. Eu sei que se Disebek Djau está envolvido nisso tudo é porque há muito dinheiro nessa história, então achei que era hora de ter a minha parte! Eu devo isso há meu pai, devo isso a meu irmão e a mim mesma!
Sadeh puxou dos pulmões um suspiro preocupado. – Agora César é hora de você deixar esse acampamento. As coisas aqui estão realmente muito mais sérias do que você pode imaginar. Não se preocupe comigo, eu já tenho tudo certo e vou sair daqui quanto for o tempo.
César permaneceu sem reação, não esperava encontrar Sadeh tão resoluta, permanecer ali seria inútil.
Milena sorriu aliviada ao ver César de volta. Esperou que ele recobrasse a respiração normal para cravejá-lo com as devidas perguntas. Ele ainda sem fôlego entregou a pasta com documentos que havia trazido – Você por acaso tem alguma idéia do que isso pode ser?
Milena passou rapidamente os olhos sobre a pasta. Já na capa reconheceu uma sigla que era sua antiga conhecida.
– Que cara é essa? Você sabe o quer dizer isso? – César a intimava apreensivo.
A capa da pasta trazia a sigla Trh-5, se Milena visse essas letras há alguns meses atrás não teria a menor idéia do que se tratava, no entanto, agora sabia muito bem.
O dia amanheceu e os dois nem perceberam, passaram a noite conversando sobre o T-rh5. César prestava atenção nas explicações da jornalista. T-rh, ela estava quase uma perita naquele assunto.
Antes de ser convocada pela revista a ir para o Egito, Milena estava enfronhada em uma outra matéria, por mais que César não acreditasse na coincidência, ela escrevia sobre o próprio T-rh.
– Isso tudo está pondo minha sanidade a prova! – ajeitou os óculos – Não pode haver tantas coincidências assim! Começo a acreditar em alguma espécie de maldição da pirâmide mesmo! De alguma forma todos nós fomos escolhidos pra estar aqui, e sabe se lá o que mais está por vir!
Milena se preocupou com o testemunho incoerente de César que estava metalmente tão extenuado quanto fisicamente. – Pior quando você souber o que é esse T-rh, aí sim, de vez as coisas deixarão de fazer qualquer sentido! – Milena foi explicando que T-rh era o cognome do vírus Transpose factor RH. Uma arma biológica criada sinteticamente em laboratório. Uma subespécie de vírus altamente contagioso e potencialmente nocivo. Seu DNA foi desenvolvido possivelmente no Oriente e havia simplesmente desaparecido sem deixar vestígios.
O princípio básico da droga é bem simples, a partir de vírus já conhecidos, como o Influenza, o vírus da gripe, os cientistas foram os alterando geneticamente e combinando seu DNA com o DNA de outros vírus e até mesmo um revolucionário e até então inédito DNA sintético, logo chegaram a uma matriz que só tem seu poder superado pelo seu perigo. Ainda incrementaram esse ultravírus com um alto poder de propagação.
Uma vez infectada, a vítima apresentaria em menos de uma hora os primeiros sintomas. Surgem hematomas por todo corpo, hiperpiese, e começam algumas pequenas hemorragias, sangramento de nariz, gengiva, além de forte cefaléia e febres gradativamente mais altas. O que, de fato, ele provoca no organismo é assustador.
O vírus possui o poder de causar acidentes hemolíticos em suas vítimas, ou seja, ele cria uma espécie de confusão sangüínea no doente, onde os antígenos aparentemente perdem suas propriedades e suas características, isso acaba gerando uma instabilidade em todo sistema linfático, e sem a definição dos antígenos o sangue acaba gerando coágulos para se defender dos antígenos indefinidos, isso causa tromboses, isquemias, hemorragias, enfim, a falência de todo sistema circulatório. Pode-se dizer que é uma espécie de demência do sangue.
A pessoa contaminada acaba morrendo, na maioria dos casos, em pouco mais de doze horas. O vírus que Milena conhecia estava na quarta geração e tinha o poder de se propagar pelo ar rapidamente. Não se falava ainda em antídoto.
César estava abismado com as revelações. Eram tantas informações que Milena tinha, que parecia realmente uma perita no assunto. A matéria teria sido muito bem escrita senão fosse a interrupção.
Analisando os documentos que César havia trazido, ela teve uma surpresa também. Nos arquivos havia uma série de informações sobre o vírus T-rh4, que na verdade com o trabalho do cientista Jaques Marques Gael havia se tornado o T-rh5, provavelmente mutação assistida que criou uma nova geração do vírus. Naquelas tabelas, gráficos e anotações havia também estudos preliminares para um antibiótico ou antídoto que deteria o progresso da infecção.
Agora eles podiam ao menos imaginar o que Gael fazia na tenda principal, no entanto não faziam a menor idéia do porque aquilo acontecia ali no acampamento. E Sadeh tinha feito questão de não ajudar muito.
Como não sabia o que encontraria, foi agindo com o máximo de cuidado que podia. Estava tão nervoso que seu coração parecia pulsar nas veias do pescoço.
A areia minimizava seus ruídos, o único barulho era mesmo de seu coração batendo apressado. A tenda estava abafada e quente, sem qualquer ventilação, parecendo mesmo um sarcófago. Logo que seus olhos se acostumaram a baixa luminosidade encontrou uma tenda ampla e sem muitos
móveis, aparentemente não havia ninguém ali. Aliviado, pode respirar mais tranqüilamente.Aproveitando a oportunidade começou a vasculhar as coisas de Disebek Djau, de alguma forma valeria aquela exposição toda. Em cima de uma mesa havia diversos papéis. Tentou entender, mas a linguagem daqueles documentos era muito técnica – Isso é mais a cara da Milena – pensou analisando os papéis que nada tinham a ver com o Egito.
César logo se deu conta que não estava sozinho conforme tivera a impressão. Havia alguém encolhido sobre a cama. A poucos metros uma mulher parecia dormir profundamente. O sangue gelou em suas veias, César trepido chegou a recuar, mas depois de um suspiro longo recobrou a serenidade. Guardou consigo a pasta com os documentos, que mais tarde entregaria a Milena.
Ajeitou os óculos no rosto e se aproximou da cama para confirmar quem estava ali deitada. Já bem próximo confirmou suas suspeitas, sentiu um calor no coração e uma satisfação ao reencontrar aquela mulher.
O afago que César fez nos cabelos da jovem a despertou. Ela ficou muito assustada, mas ao reconhecê-lo sorriu amistosamente. – Seu pai Mes Jarha está louco procurando por você! Seu irmão Mourad, e a Cassiana, todos estão muito preocupados!
Sadeh sentou-se na cama calmamente – Mas eles não tem que se preocupar comigo! Eu estou bem! – a fisionomia dela transpassava uma serenidade quase anormal – Eu vim pra esse acampamento atrás do Disebek Djau! Eu sei o que estou fazendo...
Aquela novidade havia pegado César de surpresa, era incrível como as coisas se fechavam num círculo de coincidências que ele jamais tinha visto. Disebek Djau era o namorado que a tinha abandonado. César permaneceu acompanhando Sadeh com olhos de interrogação até que ela explicasse tudo.
– A mais ou menos dois anos, lá no Cairo, Disebek Djau e eu éramos namorados, cheguei a sair de casa por causa dele, tudo parecia bem, mas ele sumiu de repente, parece que teve problemas com tráfico de drogas. Eu fiquei muito mal e completamente sozinha, meu pai não me quis de volta e se não fosse a Cassiana nem sei o que seria de mim! Nunca passei por isso antes, e jurei que não passaria mais! – ela revelou uma face inédita, a timidez de seus olhos transformaram-se em astúcia – Quando eu soube que ele tinha voltado pro Egito, que ele estava aqui novamente, não pensei duas vezes, vim o mais rápido que pude procurá-lo!
César suspirou contrariado, a garota tinha mesmo vindo por livre e espontânea vontade.
– Não sei se você pode me entender ou se vai me julgar, mas eu vim buscar o que é meu. Eu sei que se Disebek Djau está envolvido nisso tudo é porque há muito dinheiro nessa história, então achei que era hora de ter a minha parte! Eu devo isso há meu pai, devo isso a meu irmão e a mim mesma!
Sadeh puxou dos pulmões um suspiro preocupado. – Agora César é hora de você deixar esse acampamento. As coisas aqui estão realmente muito mais sérias do que você pode imaginar. Não se preocupe comigo, eu já tenho tudo certo e vou sair daqui quanto for o tempo.
César permaneceu sem reação, não esperava encontrar Sadeh tão resoluta, permanecer ali seria inútil.
***
Milena sorriu aliviada ao ver César de volta. Esperou que ele recobrasse a respiração normal para cravejá-lo com as devidas perguntas. Ele ainda sem fôlego entregou a pasta com documentos que havia trazido – Você por acaso tem alguma idéia do que isso pode ser?
Milena passou rapidamente os olhos sobre a pasta. Já na capa reconheceu uma sigla que era sua antiga conhecida.
– Que cara é essa? Você sabe o quer dizer isso? – César a intimava apreensivo.
A capa da pasta trazia a sigla Trh-5, se Milena visse essas letras há alguns meses atrás não teria a menor idéia do que se tratava, no entanto, agora sabia muito bem.
O dia amanheceu e os dois nem perceberam, passaram a noite conversando sobre o T-rh5. César prestava atenção nas explicações da jornalista. T-rh, ela estava quase uma perita naquele assunto.Antes de ser convocada pela revista a ir para o Egito, Milena estava enfronhada em uma outra matéria, por mais que César não acreditasse na coincidência, ela escrevia sobre o próprio T-rh.
– Isso tudo está pondo minha sanidade a prova! – ajeitou os óculos – Não pode haver tantas coincidências assim! Começo a acreditar em alguma espécie de maldição da pirâmide mesmo! De alguma forma todos nós fomos escolhidos pra estar aqui, e sabe se lá o que mais está por vir!
Milena se preocupou com o testemunho incoerente de César que estava metalmente tão extenuado quanto fisicamente. – Pior quando você souber o que é esse T-rh, aí sim, de vez as coisas deixarão de fazer qualquer sentido! – Milena foi explicando que T-rh era o cognome do vírus Transpose factor RH. Uma arma biológica criada sinteticamente em laboratório. Uma subespécie de vírus altamente contagioso e potencialmente nocivo. Seu DNA foi desenvolvido possivelmente no Oriente e havia simplesmente desaparecido sem deixar vestígios.
O princípio básico da droga é bem simples, a partir de vírus já conhecidos, como o Influenza, o vírus da gripe, os cientistas foram os alterando geneticamente e combinando seu DNA com o DNA de outros vírus e até mesmo um revolucionário e até então inédito DNA sintético, logo chegaram a uma matriz que só tem seu poder superado pelo seu perigo. Ainda incrementaram esse ultravírus com um alto poder de propagação.
Uma vez infectada, a vítima apresentaria em menos de uma hora os primeiros sintomas. Surgem hematomas por todo corpo, hiperpiese, e começam algumas pequenas hemorragias, sangramento de nariz, gengiva, além de forte cefaléia e febres gradativamente mais altas. O que, de fato, ele provoca no organismo é assustador.O vírus possui o poder de causar acidentes hemolíticos em suas vítimas, ou seja, ele cria uma espécie de confusão sangüínea no doente, onde os antígenos aparentemente perdem suas propriedades e suas características, isso acaba gerando uma instabilidade em todo sistema linfático, e sem a definição dos antígenos o sangue acaba gerando coágulos para se defender dos antígenos indefinidos, isso causa tromboses, isquemias, hemorragias, enfim, a falência de todo sistema circulatório. Pode-se dizer que é uma espécie de demência do sangue.
A pessoa contaminada acaba morrendo, na maioria dos casos, em pouco mais de doze horas. O vírus que Milena conhecia estava na quarta geração e tinha o poder de se propagar pelo ar rapidamente. Não se falava ainda em antídoto.
César estava abismado com as revelações. Eram tantas informações que Milena tinha, que parecia realmente uma perita no assunto. A matéria teria sido muito bem escrita senão fosse a interrupção.
Analisando os documentos que César havia trazido, ela teve uma surpresa também. Nos arquivos havia uma série de informações sobre o vírus T-rh4, que na verdade com o trabalho do cientista Jaques Marques Gael havia se tornado o T-rh5, provavelmente mutação assistida que criou uma nova geração do vírus. Naquelas tabelas, gráficos e anotações havia também estudos preliminares para um antibiótico ou antídoto que deteria o progresso da infecção.
Agora eles podiam ao menos imaginar o que Gael fazia na tenda principal, no entanto não faziam a menor idéia do porque aquilo acontecia ali no acampamento. E Sadeh tinha feito questão de não ajudar muito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário