A viagem foi a mais exaustiva da vida de Estela Campos. O mau tempo havia proporcionado momentos de tensão, turbulência e descompressão, a viagem tinha sido um verdadeiro suplício.
Permaneceram ainda quase uma hora sobrevoando o aeroporto do Cairo sem teto para pousos e decolagens. O tempo na região estava completamente fechado.
Um homem de meia idade e presença distinta os esperava. Era um enviado do cônsul Ahmeneston. Realmente Estela tinha feito um bom trabalho de influência. A presença do homem evitou que perdessem horas na tumultuada fila da alfândega, apenas tiveram que apresentar o passaporte e os vistos. Aquele aeroporto estava um tanto confuso, sair dali foi um alivio.
Totila era a mais empolgada com a viagem, nada a afligia, nem mesmo o corrosivo mau-humor de Estela.
Rômulo permaneceu introspectivo, lembrou de que quando criança uma cigana o havia alertado: “– Teu passado e teu futuro vão se juntar na terra das areias grandes...” – ele nunca pode esquecer-se daquela previsão, para ele uma previsão de morte. Durante o vôo, ao cruzar sobre o Saara se lembrou da expressão “terra das areias grandes” certamente a cigana se referia ao Egito.
O senhor distinto que os esperava providenciou a condução, foram diretamente para o Hotel Grand Hyatt Cairo . A cidade estava calma, era madrugada e a chuva intensa parecia ter afugentado o povo desacostumado a chuvas torrenciais.
O motorista falava um inglês razoável, mas só recebeu atenção de Totila. – Ontem mesmo carreguei um brasileiro para o Grand Hyatt Cairo, eu sabia que esse bloqueio a turistas não ia funcionar! Esse hotel é mesmo muito bom! – disse o homem simploriamente tentado ser agradável.
– Ah é?! Disseram-me que aqui no Egito só chove duas vezes por ano! Que falta de sorte devastadora nós temos, hein?! – o comentário descontraído de Totila obteve o desprezo de Estela que ia sentada no banco da frente, evitando o casal apaixonado que ia atrás. Mesmo não estando disposta a interagir, acabou também dando assunto para o motorista.
Estela já tinha visitado o país no mínimo cinco vezes e nada era uma propriamente uma novidade. Totila nunca tinha ido á África, seus conhecimentos geográficos limitavam-se ao eixo Nova - York – Londres. Já Rômulo conhecia boa parte do mundo, a maioria dessas viagens acompanhado por Estela, no fim do ano passado havia desfilado num evento no porto de Alexandria, mas não tivera tempo de fazer turismo, e nem teria agora.
Estela parecia uma máquina de notícias, logo ao chegar o primeiro indício sobre a pirâmide caiu diretamente em suas mãos. O motorista serviu, involuntariamente, como um rudimentar informante.
Estela acercou o homem sobre o Bahiti Hotel, estava intrigada com a recusa de suas reservas. Quis saber se ele sabia o que se passava lá.
Das cinco vezes que estivera em visita ao Cairo, quatro hospedou-se no Bahiti, só não as cinco porque no ano passado o hotel se encontrava em reformas para modernizar-se e manter seu status de cinco estrelas, e agora, que estava novamente fechado.
O homem entusiasmado justificou o fechamento do hotel mais requisitado da cidade. Explicou que haviam descoberto cerca de quinze corpos no hotel. Uma verdadeira chacina que chocou a opinião pública local. O governo, pelo menos temporariamente, preferiu abafar o caso e ia esconder o fato da imprensa internacional até que tudo fosse esclarecido, e os culpados identificados.
– Ainda mais as vítimas sendo do estrangeiro. Imagine à senhora, a crise internacional que isso vai gerar! Temos mais é que esconder, mesmo! – concluiu o motorista demonstrando ufanismo e alternando momentos de profunda percepção com de notável ignorância.
Ainda dentro do táxi Estela planejava seus próximos passos. – Um antigo conhecido não se recusará a tomar um chá de menta comigo... – pensou em voz alta.
Já no hotel pela janela do quarto Rômulo observava as águas do rio Nilo, escurecidas pela noite sem estrelas. Ele estava apreensivo com o andar dos acontecimentos. Desfrutou de muitos e bons momentos ao lado de Estela, mas a sentia muito distante da mulher por quem tinha se envolvido. Ela estava cada vez mais perdida em sua ambição.
Cada dia que passava Estela ia se transformando por suas aspirações equivocadas e ficava mais e mais seduzida pelo jogo do poder, ela faria qualquer coisa para atingir seus objetivos, e isso preocupava Rômulo.
Enganar Totila fora divertido, mas depois de tanto tempo naquele falso namoro ele já começava a se cansar do jeito superficial e frívolo da japonesa. Seu olhar perdido no Nilo na verdade procurava uma resposta, no entanto Rômulo ainda temia fazer a pergunta.
Mesmo estando a poucas horas naquela terra, sentia um estranho despertar em sua alma. Ele convivia há cinco anos com Estela, e há alguns meses com Totila, mas, no entanto a presença das duas parecia-lhe agora algo insuportável.
Tomou o ultimo gole do seu whisky e sentiu-se mais resoluto do que nunca, assim que o dia amanhecesse ele tomaria o primeiro vôo de volta ao Brasil, estava definitivamente cansado de ser o manteúdo de Estela Campos, sabia que não seria fácil explicar isso a temida Barracuda.
O dia amanheceu ensolarado, nem de longe lembrava a noite chuvosa. Totila e Rômulo pensaram que encontrariam Estela no café da manhã, mas ela não desceu. Rômulo aproveitou para conversar e terminar sua história amorosa com Totila. Em poucas palavras o fez.
Diferente do que esperava a jovem de olhos puxados não deu muita atenção ao caso. Ela era acostumada a trocar de namorados trimestralmente e aquele romance já estava longo demais. Totila pretendia encontrar um egípcio interessante para deixar a viagem completamente exótica. Rômulo sentiu-se aliviado, agora só faltava Estela saber da decisão dele.
O desjejum de Estela foi no requintado restaurante panorâmico do hotel que possuia uma vista fenomenal do Rio Nilo. A mesa abastada enchia os olhos com regalos típicos da região, Estela não deixava por menos, não sairia dali sem antes provar boa parte das iguarias oferecidas, ela sempre acordava com grande apetite.
Quinze minutos contados foi o tempo de atraso do seu conviva, tolerou tacitamente, submeteu sua ira à necessidade de obter aquelas informações. Tinha gasto horas de lábia para convencê-lo, o atraso seria perdoado. – Bons dias Mr. Aziz! Esperava-o ansiosa!
O homem cumprimentou-a com seus maneirismos exagerados – Sendo a senhora quem é Mrs. Campos, já posso imaginar do que se trata esse convite peculiar! Só vim porque se trata de uma hóspede antiga do hotel, estou proibido pela polícia a dar declarações oficiais. Acredito que a senhora já deve saber pelo que estamos passando... – Rewer ajeitou-se na cadeira observando o sortimento de viveres que logo estaria saboreando, o chá de menta, oferecido ali, era um dos mais saborosos do Cairo.
– Exatamente, eu gosto de pessoas assim diretas assim como o senhor. Economizo tempo e saliva. Estou muito ocupada e apressada – Estela percebeu que estava afoita demais e poderia espantar sua presa, mudou o tom da frase imediatamente –, mas que bom que encontrei um tempinho livre para rever bons conhecidos.
No hotel Totila demorou-se no banho de chuveiro. Na verdade o rompimento com Rômulo a abalou mais do que havia demonstrado, o choque fez com que refletisse profundamente sobre o momento de sua vida. Por mais venal que fosse, estava sentindo que suas atitudes poderiam de fato prejudicar Milena. Mais que arrependimento, Totila sentia que o carrasco da sua decapitação era a própria Estela Campos, e a lamina da guilhotina estava aproximando-se rapidamente do seu pescoço. Só não entrou em pânico e desespero por conta de um telefonema que recebeu em seguida. – Uma tênue luz no fim do túnel, e não é um trem desgovernado! – pensou ao desligar.
Já quase meio-dia Estela entrou como um furacão pelo saguão do hotel. Totila a esperava no quarto.
– O que você quer? Não tenho muito tempo. – falou Estela enquanto trocava de roupa.
Totila inversamente ao que sentia, usou um tom consternado – Ligaram da revista! Querida, sei que isso é devastador, mas parece que você vai ter que voltar urgente para o Brasil!
Do outro lado do atlântico a revista Co-fator estava em absoluto caos, mesmo Estela tendo deixado a semana praticamente fechada e a edição quase concluída, anos de liderança paternalista tinham tolhido completamente a autoconfiança e a iniciativa de seus editores.
Comandar uma revista daquele porte precisava de uma boa dose despotismo, mas agora isso se voltava contra ela mesma. Anos sem férias era um sinal claro que algo estava errado, mas como deixar a revista em momentos tão delicados como os que ela vinha passando perdendo tiragem dia a dia. Desde a saída de Morales a revista havia entrado em declínio, paulatino, porém constante. O aviso já tinha sido dado, o emprego de Estela não era mais tão sólido quanto antes.
Além do fechamento semanal, Estela precisava estar no Brasil para se defender das acusações de Morales. Seu ex-marido havia entrado com um processo ético contra Estela. Isso seria fácil desmentir, já que César não tinha, de verdade, mais nenhum vinculo empregatício com a Co-fator. Mais tarde, quando descobrissem o envolvimento de Totila é que seria complicado explicar, mas até lá as manchetes do novo Faraó suplantariam esses pormenores. Novamente Estela acreditava nos fins e ignorava os meios.
A volta inesperada de Estela tomou Rômulo de surpresa. Teve que desistir de ir também embora, Estela requisitou que ele ajudasse Totila naquela missão fundamental. Seu curso técnico em fotografia teria enfim alguma utilidade, mesmo que ele o tivesse abandonado antes de completar um terço dos créditos.
A contra gosto Estela passou adiante as informações obtidas de Aziz. O gerente do Bahiti hotel, pressionado de modo correto, tinha entregado todos os detalhes dos eventos acorridos no congresso. As informações eram boas, mas incompletas, o homem até sabia dos acontecimentos, mas ignorava os motivos, o que era imprescindível.
Todas aquelas revelações estranhas haviam aguçado muitíssimo o faro jornalístico de Estela, há anos ela não se envolvia em reportagens investigativas, e daria um tudo para poder ficar, mas, no entanto teve que deixar a bomba nas mãos inexperientes de Totila, que a seu ver mal diferenciava uma pirâmide de um triângulo.
A história toda havia interessado Rômulo, ele começava a se sentir numa espécie thriller e isso o empolgava muito. – Pode deixar Estela, eu mesmo fico responsável por tudo, a Totila depois só escreve a matéria! – a colocação não fez o sucesso esperado e Rômulo voltou a calar-se.
– Procurem a agência onde eles alugaram o tal helicóptero, isso deve indicar o paradeiro deles e onde está localizada a pirâmide! – Estela reforçava mais uma vez o que já havia dito uma dezena de vezes. – Mas tomem muito cuidado, estão matando gente a revelia, os repórteres da Vis-à-vis podem estar até mesmo mortos! Mantenham muito cuidado, descubram o que está acontecendo e voltem o mais depressa possível! – os dois já tinham assinado termos de responsabilidade. Estela não queria ser responsabilizada por nenhum problema no futuro, se fosse mesmo verdade tudo que o gerente do hotel havia lhe dito, a morte não seria algo tão improvável.
Estela criou um momento em particular com Rômulo ela despediu-se dele com um olhar sedutor, ele foi indiferente, havia se tornado pesaroso estar com ela, seria difícil que Estela aceitasse o fim, nunca antes alguém a tinha preterido.
Antes de sumir no corredor de embarque Estela gritou sua última recomendação: – Estão prevendo uma tempestade de areia bem grande! Cuidado se já estiverem no deserto!
Um homem de meia idade e presença distinta os esperava. Era um enviado do cônsul Ahmeneston. Realmente Estela tinha feito um bom trabalho de influência. A presença do homem evitou que perdessem horas na tumultuada fila da alfândega, apenas tiveram que apresentar o passaporte e os vistos. Aquele aeroporto estava um tanto confuso, sair dali foi um alivio.
Totila era a mais empolgada com a viagem, nada a afligia, nem mesmo o corrosivo mau-humor de Estela.
Rômulo permaneceu introspectivo, lembrou de que quando criança uma cigana o havia alertado: “– Teu passado e teu futuro vão se juntar na terra das areias grandes...” – ele nunca pode esquecer-se daquela previsão, para ele uma previsão de morte. Durante o vôo, ao cruzar sobre o Saara se lembrou da expressão “terra das areias grandes” certamente a cigana se referia ao Egito.
O senhor distinto que os esperava providenciou a condução, foram diretamente para o Hotel Grand Hyatt Cairo . A cidade estava calma, era madrugada e a chuva intensa parecia ter afugentado o povo desacostumado a chuvas torrenciais.O motorista falava um inglês razoável, mas só recebeu atenção de Totila. – Ontem mesmo carreguei um brasileiro para o Grand Hyatt Cairo, eu sabia que esse bloqueio a turistas não ia funcionar! Esse hotel é mesmo muito bom! – disse o homem simploriamente tentado ser agradável.
– Ah é?! Disseram-me que aqui no Egito só chove duas vezes por ano! Que falta de sorte devastadora nós temos, hein?! – o comentário descontraído de Totila obteve o desprezo de Estela que ia sentada no banco da frente, evitando o casal apaixonado que ia atrás. Mesmo não estando disposta a interagir, acabou também dando assunto para o motorista.
Estela já tinha visitado o país no mínimo cinco vezes e nada era uma propriamente uma novidade. Totila nunca tinha ido á África, seus conhecimentos geográficos limitavam-se ao eixo Nova - York – Londres. Já Rômulo conhecia boa parte do mundo, a maioria dessas viagens acompanhado por Estela, no fim do ano passado havia desfilado num evento no porto de Alexandria, mas não tivera tempo de fazer turismo, e nem teria agora.
Estela parecia uma máquina de notícias, logo ao chegar o primeiro indício sobre a pirâmide caiu diretamente em suas mãos. O motorista serviu, involuntariamente, como um rudimentar informante.
Estela acercou o homem sobre o Bahiti Hotel, estava intrigada com a recusa de suas reservas. Quis saber se ele sabia o que se passava lá.
Das cinco vezes que estivera em visita ao Cairo, quatro hospedou-se no Bahiti, só não as cinco porque no ano passado o hotel se encontrava em reformas para modernizar-se e manter seu status de cinco estrelas, e agora, que estava novamente fechado.
O homem entusiasmado justificou o fechamento do hotel mais requisitado da cidade. Explicou que haviam descoberto cerca de quinze corpos no hotel. Uma verdadeira chacina que chocou a opinião pública local. O governo, pelo menos temporariamente, preferiu abafar o caso e ia esconder o fato da imprensa internacional até que tudo fosse esclarecido, e os culpados identificados.
– Ainda mais as vítimas sendo do estrangeiro. Imagine à senhora, a crise internacional que isso vai gerar! Temos mais é que esconder, mesmo! – concluiu o motorista demonstrando ufanismo e alternando momentos de profunda percepção com de notável ignorância.
Ainda dentro do táxi Estela planejava seus próximos passos. – Um antigo conhecido não se recusará a tomar um chá de menta comigo... – pensou em voz alta.
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Já no hotel pela janela do quarto Rômulo observava as águas do rio Nilo, escurecidas pela noite sem estrelas. Ele estava apreensivo com o andar dos acontecimentos. Desfrutou de muitos e bons momentos ao lado de Estela, mas a sentia muito distante da mulher por quem tinha se envolvido. Ela estava cada vez mais perdida em sua ambição.Cada dia que passava Estela ia se transformando por suas aspirações equivocadas e ficava mais e mais seduzida pelo jogo do poder, ela faria qualquer coisa para atingir seus objetivos, e isso preocupava Rômulo.
Enganar Totila fora divertido, mas depois de tanto tempo naquele falso namoro ele já começava a se cansar do jeito superficial e frívolo da japonesa. Seu olhar perdido no Nilo na verdade procurava uma resposta, no entanto Rômulo ainda temia fazer a pergunta.
Mesmo estando a poucas horas naquela terra, sentia um estranho despertar em sua alma. Ele convivia há cinco anos com Estela, e há alguns meses com Totila, mas, no entanto a presença das duas parecia-lhe agora algo insuportável.
Tomou o ultimo gole do seu whisky e sentiu-se mais resoluto do que nunca, assim que o dia amanhecesse ele tomaria o primeiro vôo de volta ao Brasil, estava definitivamente cansado de ser o manteúdo de Estela Campos, sabia que não seria fácil explicar isso a temida Barracuda.
O dia amanheceu ensolarado, nem de longe lembrava a noite chuvosa. Totila e Rômulo pensaram que encontrariam Estela no café da manhã, mas ela não desceu. Rômulo aproveitou para conversar e terminar sua história amorosa com Totila. Em poucas palavras o fez.
Diferente do que esperava a jovem de olhos puxados não deu muita atenção ao caso. Ela era acostumada a trocar de namorados trimestralmente e aquele romance já estava longo demais. Totila pretendia encontrar um egípcio interessante para deixar a viagem completamente exótica. Rômulo sentiu-se aliviado, agora só faltava Estela saber da decisão dele.
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O desjejum de Estela foi no requintado restaurante panorâmico do hotel que possuia uma vista fenomenal do Rio Nilo. A mesa abastada enchia os olhos com regalos típicos da região, Estela não deixava por menos, não sairia dali sem antes provar boa parte das iguarias oferecidas, ela sempre acordava com grande apetite.Quinze minutos contados foi o tempo de atraso do seu conviva, tolerou tacitamente, submeteu sua ira à necessidade de obter aquelas informações. Tinha gasto horas de lábia para convencê-lo, o atraso seria perdoado. – Bons dias Mr. Aziz! Esperava-o ansiosa!
O homem cumprimentou-a com seus maneirismos exagerados – Sendo a senhora quem é Mrs. Campos, já posso imaginar do que se trata esse convite peculiar! Só vim porque se trata de uma hóspede antiga do hotel, estou proibido pela polícia a dar declarações oficiais. Acredito que a senhora já deve saber pelo que estamos passando... – Rewer ajeitou-se na cadeira observando o sortimento de viveres que logo estaria saboreando, o chá de menta, oferecido ali, era um dos mais saborosos do Cairo.
– Exatamente, eu gosto de pessoas assim diretas assim como o senhor. Economizo tempo e saliva. Estou muito ocupada e apressada – Estela percebeu que estava afoita demais e poderia espantar sua presa, mudou o tom da frase imediatamente –, mas que bom que encontrei um tempinho livre para rever bons conhecidos.
No hotel Totila demorou-se no banho de chuveiro. Na verdade o rompimento com Rômulo a abalou mais do que havia demonstrado, o choque fez com que refletisse profundamente sobre o momento de sua vida. Por mais venal que fosse, estava sentindo que suas atitudes poderiam de fato prejudicar Milena. Mais que arrependimento, Totila sentia que o carrasco da sua decapitação era a própria Estela Campos, e a lamina da guilhotina estava aproximando-se rapidamente do seu pescoço. Só não entrou em pânico e desespero por conta de um telefonema que recebeu em seguida. – Uma tênue luz no fim do túnel, e não é um trem desgovernado! – pensou ao desligar.
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Já quase meio-dia Estela entrou como um furacão pelo saguão do hotel. Totila a esperava no quarto.
– O que você quer? Não tenho muito tempo. – falou Estela enquanto trocava de roupa.
Totila inversamente ao que sentia, usou um tom consternado – Ligaram da revista! Querida, sei que isso é devastador, mas parece que você vai ter que voltar urgente para o Brasil!
Do outro lado do atlântico a revista Co-fator estava em absoluto caos, mesmo Estela tendo deixado a semana praticamente fechada e a edição quase concluída, anos de liderança paternalista tinham tolhido completamente a autoconfiança e a iniciativa de seus editores.
Comandar uma revista daquele porte precisava de uma boa dose despotismo, mas agora isso se voltava contra ela mesma. Anos sem férias era um sinal claro que algo estava errado, mas como deixar a revista em momentos tão delicados como os que ela vinha passando perdendo tiragem dia a dia. Desde a saída de Morales a revista havia entrado em declínio, paulatino, porém constante. O aviso já tinha sido dado, o emprego de Estela não era mais tão sólido quanto antes.
Além do fechamento semanal, Estela precisava estar no Brasil para se defender das acusações de Morales. Seu ex-marido havia entrado com um processo ético contra Estela. Isso seria fácil desmentir, já que César não tinha, de verdade, mais nenhum vinculo empregatício com a Co-fator. Mais tarde, quando descobrissem o envolvimento de Totila é que seria complicado explicar, mas até lá as manchetes do novo Faraó suplantariam esses pormenores. Novamente Estela acreditava nos fins e ignorava os meios.
A volta inesperada de Estela tomou Rômulo de surpresa. Teve que desistir de ir também embora, Estela requisitou que ele ajudasse Totila naquela missão fundamental. Seu curso técnico em fotografia teria enfim alguma utilidade, mesmo que ele o tivesse abandonado antes de completar um terço dos créditos.
A contra gosto Estela passou adiante as informações obtidas de Aziz. O gerente do Bahiti hotel, pressionado de modo correto, tinha entregado todos os detalhes dos eventos acorridos no congresso. As informações eram boas, mas incompletas, o homem até sabia dos acontecimentos, mas ignorava os motivos, o que era imprescindível.
Todas aquelas revelações estranhas haviam aguçado muitíssimo o faro jornalístico de Estela, há anos ela não se envolvia em reportagens investigativas, e daria um tudo para poder ficar, mas, no entanto teve que deixar a bomba nas mãos inexperientes de Totila, que a seu ver mal diferenciava uma pirâmide de um triângulo.
A história toda havia interessado Rômulo, ele começava a se sentir numa espécie thriller e isso o empolgava muito. – Pode deixar Estela, eu mesmo fico responsável por tudo, a Totila depois só escreve a matéria! – a colocação não fez o sucesso esperado e Rômulo voltou a calar-se.
– Procurem a agência onde eles alugaram o tal helicóptero, isso deve indicar o paradeiro deles e onde está localizada a pirâmide! – Estela reforçava mais uma vez o que já havia dito uma dezena de vezes. – Mas tomem muito cuidado, estão matando gente a revelia, os repórteres da Vis-à-vis podem estar até mesmo mortos! Mantenham muito cuidado, descubram o que está acontecendo e voltem o mais depressa possível! – os dois já tinham assinado termos de responsabilidade. Estela não queria ser responsabilizada por nenhum problema no futuro, se fosse mesmo verdade tudo que o gerente do hotel havia lhe dito, a morte não seria algo tão improvável.
Estela criou um momento em particular com Rômulo ela despediu-se dele com um olhar sedutor, ele foi indiferente, havia se tornado pesaroso estar com ela, seria difícil que Estela aceitasse o fim, nunca antes alguém a tinha preterido.
Antes de sumir no corredor de embarque Estela gritou sua última recomendação: – Estão prevendo uma tempestade de areia bem grande! Cuidado se já estiverem no deserto!
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