CAPÍTULO 6

Milena acordou com o barulho do vento batendo a janela, só encontrou ao seu lado uma rosa no lugar onde deveria estar César. O sorriso parecia tatuado em seu rosto. Sentiu-se plena e serena pra enfrentar a jornada que viria a frente. Compreendeu que enfim, havia encontrado sua alma gêmea, seu porto seguro. Essa sensação que nunca sentira ao lado de seu noivo Oscar. Logo tratou de desvioar o pensamento, não desejava compará-los.

Enrolada no lençol deliciou-se com o perfume suave da rosa passando-a suavemente pelo rosto como se fosse o próprio César a fazê-lo. Abraçou o travesseiro impregnado com o cheiro dele e descobriu ali escondido outro presente. Um delicado colar em ouro branco com um pingente em forma do Olho de Hórus.

Um bilhete explicava a representação:
“Esse amuleto vai te proteger. Hórus o deus-falcão, deus do céu que perdeu seu olho numa batalha para vingar a morte de seu pai, o deus Osíris. Ele venceu a batalha e conquistou o trono. Desde então seu olho passou a representar a vitória do bem sobre o mal.”

Milena pôs imediatamente o amuleto, César havia comprado o souvenir enquanto procurava os ingredientes para o jantar.

Pareceu um milagre, e quase era de fato, em cima do baú que servia como cabeceira da cama o celular alternava entre sonoros toques e entusiasmadas vibrações. Ainda descrente atendeu o telefone rapidamente antes que o sinal sumisse novamente, era seu primeiro contato com a revista.

***

A tempestade geomagnética não dava tréguas, e especialistas da área garantiam que ela ainda não estava em seu apogeu. A ligação estava péssima e acabou caindo antes das considerações finais, mas Milena já tinha ouvido o bastante.

Tudo que Milena acabara de ouvir ao celular havia caído como uma bomba em sua cabeça. Sr. Morales repassou em detalhesa história que Totila havia descoberto. Milena sentiu-se duplamente traída e percebeu o quanto havia sido leviana, pessoal e profissionalmente – seus pensamentos a torturavam.

Por impulso jogou a rosa pela janela, mais numa tentativa simbólica do que realmente prática de acabar com o que sentia . Ficou ali parada segurando o amuleto com a mão próximo ao peito, tinha que pensar rápido, articular e digerir tudo que o Sr. Morales tinha contado e as novas determinações que ele havia lhe impingido, lembrou do significado lúdico do olho de Hórus e acreditou na vitória do bem sobre o mal.

Quando César entrou no quarto já a encontrou vestida. Milena não correspondeu seu beijo, o que gerou estranheza e um breve mal-estar, ele tentou novamente, só que dessa vez ela esquivou-se mais claramente.

– Milena... o que está acontecendo? Eu pensei... – o constrangimento de César invadiu todo quarto junto com uma rajada de vento que irrompeu pela janela interrompendo a conversa.

Milena o cortou indo em outra direção e ficando o mais longe possível – César, isso não vai dar certo, então antes que a gente se machuque ou acabe confundindo as coisas e antes que essa matéria vá por água abaixo, eu decidi que acaba aqui o que nem era pra ter começado! Eu estava bêbada, nós estávamos... – Milena fez uma pausa e respirou fundo, cuidando para que sua voz não saísse trêmula e não fosse perceptível a mentira –... eu só queria que pudéssemos continuar numa boa, como colegas apenas. Pode ser?

César estava estupefato. Atônito não conseguiu sequer argumentar, mesmo por que o discurso dela não deixou brechas para uma réplica, ele apenas concordou em silêncio, ainda em choque. César não era homem de pedir explicações, ele sabia que não era um sucesso enorme entre as mulheres, mas podia jurar que neste caso as coisas estavam sendo diferentes. Concluiu ainda em silêncio que estava enganado em relação à Milena.

Na verdade não estava enganado, ela realmente havia correspondido proporcionalmente ao seu interesse, mas não poderia passar por cima de uma traição, ainda que profissional – Quem faz no pouco, faz no muito! – Milena lembrou da máxima usada sempre pelo editor da revista. Aquele fato evidenciava a falta de caráter de César. Milena nunca poderia supor que ele fosse capaz de algo tão antiético – Como as pessoas se enganam! – pensaram os dois.

Ela preferiu não revelar o verdadeiro motivo daquela cisão abrupta e optou, por hora, não romper a parceria profissional com César, pelo menos até a chegada de Totila ao Egito. Inconscientemente Milena queria ficar perto dele o maior tempo possível, mesmo sem tocá-lo. César havia se tornado a referência dela naquela viagem, continuar sem ele era quase inconcebível. No Brasil o Sr. Morales estava abrindo um processo contra César e a revista Co-fator.

Antes que César deixasse o quarto, coisa que ele desejava fazer desesperadamente, ouviu ao longe barulho de tiros, os disparos também alertaram Milena. César foi imediatamente verificar o que estava acontecendo.

Outros disparos mais próximos da casa assustaram a todos, os tiros foram seguidos por uma intensa correria, acompanhada de uma gritaria crescente. Parecia que uma multidão havia perdido o controle e estava em franco conflito. Milena espiou pela janela enquanto ia rapidamente terminando de se arrumar. As coisas estavam ficando tensas na rua.

Na sala César conversava apreensivo com Cassiana, Sadeh servia o café, mas também se mantinha atenta à conversa. A notícia que Cassiana trazia da rua era a mais valiosa informação que haviam conseguido até ali.

***

Naquela manhã o governo do Egito havia liberado uma equipe mista de estudiosos e pesquisadores para entrarem na “Pirâmide do Faraó Desconhecido”. Essa decisão já estava sendo aguardada havia dias, estavam todos sob pressão: governo, a comunidade internacional e o povo.

Agora estava confirmado oficialmente, a pirâmide existia de fato e não era apenas um boato como o povo local queria que acreditassem, conseqüentemente o mundo saberia de sua existência, a exclusividade já não pertencia mais aos dois repórteres, não obstante, estavam alguns passos à frente dos muitos outros jornalistas que surgiriam.

A população local também havia reagido mal a essa notícia. Uma espécie de líder religioso, muito influente na região, estava se opondo veementemente a essa autorização de exploração concedida pelo governo. Ele defendia a não violação do túmulo do Faraó, alegando que esse amaldiçoaria toda a região de forma a dizimá-la completamente conforme as profecias locais haviam prenunciado. Todos na casa escutavam atentamente o relato de Cassiana.

Disebek Djau, o tal líder, incitou seus discípulos e seguidores contra o governo e outros que desejassem ir até a Pirâmide do Faraó Desconhecido. Por isso havia estourado uma espécie de guerrilha pelo país, daí os tiros que ouviram há pouco. Tudo era pressão para não violarem a pirâmide. O próprio Disebek Djau estava à frente das batalhas e defendia a Pirâmide com um grupo de rebeldes que hostilizavam quaisquer uns que quisessem se aproximar do monumento.

Isso explicava o porquê dos hotéis e hospedarias estarem fechados. A decisão do governo já era aguardada e o grupo rebelde esperava de prontidão. Cassiana também estava admirada com o acontecido. Sadeh justificou o povo alegando que todos na região sempre foram muito hospitaleiros, mas também muito supersticiosos e com a notícia da maldição, e a manipulação sagaz de Disebek Djau, não viram outra saída senão expulsar todos os forasteiros. A jovem egípcia era a mais nervosa e interessada nas notícias que sua amiga trazia.

Nem todas as notícias de Cassiana eram ruins, ela prosseguiu com o que poderia ser uma grande e valiosa novidade para a dupla brasileira.

Conforme o combinado, Cassiana havia telefonado para o pai de Sadeh naquela manhã, ele morava no Cairo e num momento como aquele de tensão que o país atravessava, era melhor que Sadeh ficasse junto dos seus parentes.

No entanto o homem não poderia buscá-la, ele fora contratado emergencialmente como segurança de um grande congresso que aconteceria no Cairo. Cassiana sabendo que a notícia poderia servir a César assuntou mais com o homem a cerca do caso.

O congresso, onde o pai de Sadeh iria trabalhar, era justamente sobre a pirâmide descoberta recentemente, e contaria com a presença dos maiores historiadores, geólogos, pesquisadores e até religiosos do ramo, onde seriam levantados temas como geologia, fisiologia, psicologia, metafísica e medicina.

Como os estudiosos não conseguiriam entrar na pirâmide, mesmo autorizados pelo governo, já que a pirâmide estava sitiada, eles fariam o congresso na cidade do Cairo.

Ainda que alguns desses temas parecessem discrepantes, muito se comentava sobre esse grande encontro, porém, essa reunião se tornara uma espécie de conclave, com portas cerradas a todos que não pertencessem à elite dos temas abordados, pois seriam discutidos temas ignorados ou providencialmente abafados até hoje.

Cobrir esse evento seria, sem dúvida, um salto na carreira de qualquer repórter que conseguisse algo a mais que os outros tantos que almejavam essa oportunidade.

César ficou entusiasmado com o simpósio no Cairo, ele além de repórter era um grande interessado na história egípcia e seus mistérios, as revelações de uma reunião daquele porte poderiam ser fenomenais. Nunca uma descoberta como aquela havia acontecido na contemporaneidade, encontrar um monumento desse porte intocado era realmente um acontecimento histórico.

Apesar de tudo, o coração e o instinto de Milena apontavam em direção a pirâmide. Ela sentia que era lá que a notícia realmente aconteceria. Pensou em partir sozinha, já que César era ainda funcionário da Co-Fator, a separação naquele momento seria justificável.

Com o coração apertado guardou sua decisão em segredo. Estava profundamente amedrontada e insegura, tudo que não queria era separar-se de César num momento como aquele que o país atravessava. Mesmo assim deveria honrar a confiança depositada nela pelo Sr. Morales.

Cassiana alertou sobre o fato da Pirâmide do Faraó Desconhecido não estar aberta a visitações e que o grupo que fazia o cerco estava capturando todos que tentavam se aproximar. Ouvia-se falar até mesmo em diversos assassinatos, com o agravante de ninguém saber ao certo a localização do monumento. Esses argumentos convenceram César em definitivo, não parecia uma boa idéia seguir para pirâmide e em contra ponto parecia uma ótima oportunidade a que surgia no Cairo.

César saiu para providenciar a ida deles de volta ao Cairo onde poderiam cobrir o congresso. Logo partiria de Alexandria uma espécie de microônibus com outros jornalistas que estavam no país como turistas e aproveitariam também a oportunidade. Milena resignada não comentou sua decisão particular.

***

O microônibus estacionou em frente ao casebre de Sadeh e Cassiana, as despedidas foram longas e sinceras, a empatia surgida entre o grupo era significativa.

Milena respirou fundo puxando da alma a coragem necessária para tomar aquela atitude, chamou o colega para um lugar mais privado, não seria fácil àquela conversa.

– César, eu não vou com você, daqui eu sigo sozinha para pirâmide. Acho que é lá que a notícia mora! – Milena não deixou transparecer o que de fato sentia. Por dentro implorava pela presença de César junto a ela, mas sua aparência era mais contida, ainda que em seus olhos a tristeza da despedida fosse aparente.

César novamente foi pego de surpresa pelas atitudes de Milena, mas dessa vez não ficaria calado. Fez sinal para que o ônibus esperasse um pouco mais e praticamente arrastou Milena até o quarto.

Da sala, Cassiana e Sadeh puderam ouvir a discussão acalorada, não comentaram, mas sabiam que não eram puramente profissionais os problemas que enfrentavam. A condução não esperaria muito mais tempo, eles precisavam tomar logo uma decisão.

Milena não revelaria a verdadeira razão de querer seguir sozinha, ela jamais assumira que fora tão facilmente enganada. César não entendia o que estava acontecendo e não abria mão de uma explicação, aquele impasse parecia insolúvel.

– Eu só quero te manter a salvo e segura, as coisas estão perigosas próximo a Pirâmide! Será que é isso que você considera parceria? Nós somos uma dupla, uma equipe, só temos um ao outro aqui! Qual é o problema com a gente?

Milena comungava daquelas mesmas expectativas que ele, se César estivesse falando a verdade seria perfeita a coesão entre eles, mas ela não poderia mais continuar se enganando e fingindo que ele não era um repórter da Co-Fator tentando roubar a matéria.

Por muito pouco não correu para os braços dele e seguiu feliz para o Cairo, chegou perto de ser convencida, mas não deixou o discurso afinado de César dissuadi-la.

O ônibus partiu para o congresso no Cairo sem ela.



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