CAPÍTULO 4

A incursão de César atrás de mantimentos para a elaboração do jantar foi um fracasso. Sadeh, a única nativa preferiu apropriar-se da cozinha novamente e demonstrar os hábitos comensais egípcios.

A comida egípcia era uma inusitada e deliciosa combinação de sabores. Ela preparou o fuul, um tipo de feijão gordo de cor marrom enfeitado com limão, que acompanhou as verduras, saladas e o delicioso felafel, almôndegas temperadas com iogurte, queijo, alhos e ovos.

A noite, ainda que um pouco quente, estava extremamente agradável. As donas da casa eram de uma amabilidade incomparável. O jantar foi uma notável demonstração caseira da gastronomia egípcia e as conversas foram embaladas pelo vinho rosado, o regional Rubi D'Egyte. Poderiam ter optado por outras bebidas, já que o Egito era o berço da cerveja, no entanto era difícil encontrar alguma outra marca de cerveja que não fosse a onipresente "Stella", que ainda era sem álcool.

Milena não se imaginaria numa situação como aquela, nunca fora dada a interações sociais tão rápidas, intensas e aprazíveis como a que vivenciava. Poderiam estar hospedados em qualquer hotel do Cairo com as despesas pagas pela revista, mas Milena, primeiro por necessidade, e agora por desejo, agradecia estar ali.

Cassiana era uma mulher incrível, cheia de histórias sobre os países em que havia morado. Sadeh era extremamente local, mas tinha uma rica experiência de vida, era ela quem trazia a conversa o ponto de vista e os costumes regionais. As duas de certo modo se completavam.

César e Cassiana haviam se conhecido na Austrália alguns anos e agora Milena entendia como era fácil se tornar amigo daquela portuguesa. Finalmente se convenceu que entre eles apenas uma forte amizade existia, e isso inconscientemente foi reconfortante.

– Estou preparando uma surpresa para Sadeh! – comentou Cassiana aproveitando-se do momento em que Sadeh havia ido ao banheiro – Tem uma semana que falo com o pai dela. Já é hora deles se entenderem! – Cassiana novamente era uma mulher enorme naquele corpo franzino, a taça de vinho dançava em sua mão enquanto falava – O velho é do tipo durão, mas acho que consegui dobrá-lo! Bukra, intchaalá!

Cassiana pretendia reconciliar pai e filha. O pai de Sadeh havia a expulsado de casa por causa de seu namoro com um ocidental não islâmico. No fim a jovem ficara sem o namorado e sem a família.

– Mas se eles se reconciliarem ela volta a morar com a família e você perde a parceira! – retrucou César.

– Já é hora de sair daqui! Aprendi tudo por essas regiões, agora quero seguir pra Índia ou para Grécia! Amanhã mesmo o pai dela ficou de me dizer se ela pode voltar pra casa ou não! Se Allah assim o permitir! - Cassiana usava-se do vocabulário local, mesmo que necessariamente não acreditasse tanto nos desígnios de Allah.

– Permitir o que, posso saber? – Sadeh voltou do banheiro aos risos, visivelmente embalada pelo vinho, como todos naquela mesa. A jovem havia deixado a religião e entregava-se cada vez mais aos hábitos ocidentais.

– Isso é proibido aqui, hein! – brincou Cassiana referindo-se as bebidas alcoólicas. – Maalêsh! – concluiu rindo com a expressão que poderia ser comparada ao ‘dane-se’ no Brasil.

A janela, que dava para rua, trazia uma brisa abafada, o único inconveniente da noite. Haviam prevenido Milena que as noites no Egito eram geladas, mas não aquela noite, pelo menos.

Um barzinho, quase clandestino, de parede colada com a casa lembrava aos botequins do Brasil. Havia música ao vivo, mas o som percebia-se que era bem rudimentar. Seus frequentadores eram geralmente estrangeiros de classes menos favorecidas. O único sinal de alguma modernidade ficava por conta do letreiro, que brilhava em néon vermelho, fazendo sons monótonos de curto-circuito.

Riram muito, comeram muito, beberam bastante. A cabeça de Milena por vezes ficava zonza, ela ria toda vez que César empurrava os óculos para base do nariz, mesmo que esse nem chegasse a ter saído do lugar, era um cacoete que tinha enquanto falava.

Resolveram recolher-se, afinal tinham bebido em excesso e precisavam trabalhar duro no outro dia. Milena e César deixaram a sala rapidamente, evitando desordenar ainda mais a rotina das anfitriãs.

***

O quarto era tão pequeno que não havia possibilidade de algum dos dois dormir em outro lugar a não ser em cima da cama. Disputavam espaço no quarto um pequeno armário e a cama de casal.
Talvez sem o vinho, que com tanto gosto beberam, dividir a cama fosse muito constrangedor, mas depois de tantas taças, o fato era quase natural.

Um pequeno baú servia de cabeceira na cama e era utilizado também como criado-mudo. Os lençóis estavam impecavelmente limpos e cheirosos, cuidados especiais de Sadeh que era muito asseada e atenciosa.

César estava ligeiramente embriagado, o que lhe conferia um charme extra. Normalmente ele já era um pouco atrapalhado, ébrio lembrava uma criança desajeitada.

Sentados à cama falaram ainda algumas bobagens, César contou ótimos casos desastrados de suas viagens pela região. Uma vez num dos Templos de Abu Simbel ele havia se perdido por quase dois dias. Tentaram rir baixo para não fazer barulho e acordar as donas da casa. Milena percebeu em segredo que há muito tempo não ria tanto e com tanto gosto.

– César escute essa música! – ela falou encostando o indicador na boca dele para que se calasse e ouvisse a canção vinda do barzinho ao lado da casa – Eu adoro essa música!

Ele prontamente silenciou e tentou ouvir aquele som abafado. Franziu a testa como se pudesse apurar a audição com esse artifício; quando identificou a canção foi como se ela passasse a tocar ali mesmo, no quarto, alta e clara. Abriu um sorriso aprovando o gosto musical.

Ouviram a canção ali parados por algum tempo. De ímpeto César pulou, tropeçando pela cama, e puxou Milena, para algo que deveria ser uma dança.

O jeito atrapalhado dele deu leveza ao gesto e riram novamente, mas quando a graça passou Milena percebeu que o toque dele não era de um menino, mas de um homem.

A maneira que ele a segurava era forte, pressionando seu corpo contra o dela. Com destreza conduzia o moroso balanço dos corpos no ritmo da música. Ela sentiu-se esvanecer em seus braços e gostou. O calor que emanava da boca de César era suave e parecia atrair seus lábios.

Sentiu a mão dele apertando com mais intensidade seu corpo, empurrava suavemente a cintura de Milena contra a dele num movimento sutil, mas perceptível. Ela estava completamente envolta por César, a respiração quase arfante de ambos compassava o andamento das ações.

As mãos dela também deslizavam pelas costas de César sentindo os relevos de seus contornos masculinos. Enchiam-se de mais desejo a cada segundo, Milena já estava ávida pelo corpo de César.

Ele não resistiu e com as mãos descobria os ombros de Milena, procurando uma maneira delicada de invadir suas roupas.

Deslizou a boca pelo pescoço dela, sua respiração estava quente; depois de percorrer quase todo pescoço apenas provocando, voltou ao ponto de partida, ficaram frente a frente, com os lábios praticamente colados.

Estavam a menos de um centímetro de se entregarem completamente ao desejo. Os próximos passos dependiam daquele primeiro beijo que estava prestes a acontecer, até ali houvera apenas uma dança sensual, facilmente superável e até esquecível. Se Milena pretendesse não ir muito além, aquele era o único momento que poderia estancar a torrente de desejos, depois as coisas certamente sairiam do controle.

Milena teve não mais que um segundo pra pensar em muita coisa. Sabia que o quê mais queria, era de fato se entregar a César e curtir o momento como uma mulher sadia, madura, solteira e com os hormônios em ebulição.

Porém sabia também no que essa atitude poderia implicar. Se envolver com um colega de trabalho em plena pesquisa de campo era um erro primário. Se envolver com um homem menos de 48 hs depois de terminar um noivado de cinco anos, era outro erro primário.

Seu cérebro inundado de mediadores químicos permitiu que tudo isso corresse por seus neurônios num milésimo de segundo, e muitas outras coisas poderiam correr se tivesse mais tempo, mas não tinha, teve que decidir se prosseguia ou não, sabia que era hora de barrar aquele erro enquanto ainda podia.

Milena sentiu um relaxamento estranho, uma vontade de se entregar quase inexplicável. Deixou tudo de lado, inclusive o discernimento e se entregou, sem pensar mais, aos beijos e ao que mais viesse de César.

Não soube se foi o melhor beijo de sua vida, mas foi o que mais desejou. Naquele instante ela soube com certeza que estava nos braços de sua alma gêmea, ainda que não acreditasse em almas gêmeas.

César percorreu seu corpo com malícia e grande desejo, sabia muito bem o que estava fazendo, e fazia muito bem. Jogou-a sobre a cama com uma violência controlada. Tirando-lhe os sapatos, beijou seus dedos, seus pés; eram beijos quentes e úmidos, exatamente como Milena se sentia.

Logo passou pra cama também, deitando-se e fazendo peso sobre o corpo dela. Deixou todo o resto de lado e concentrou os beijos no pescoço perfeito e delicado de Milena, logo seguiu avidamente até seu colo, buscava os seios, enquanto o resto de seu corpo empenhava-se no encaixe dos quadris. A noite seria satisfatoriamente longa.


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