CAPÍTULO 5

O Sr. Morales ouvia com atenção as revelações de Totila. Aparentemente tinha valido a pena deixar sua cama de madrugada apesar de toda aquela chuva. Qualquer assunto que envolvesse Estela Campos interessava ao Sr. Morales.

Ele esfregava com freqüência uma mão na outra, e depois esfregava as duas no rosto. Totila estava sentada sobre a mesa e furtivamente, como lhe era característico, prosseguiu sua história:
–... eu jamais imaginava que o Rômulo Portinho, meu namorado, fosse primo da Estela Campos! Fiquei abaladíssima! Imagina, logo a Estelinha! Foi uma surpresa devastadora e muito inquietante pra mim!

Totila sorveu seu expresso de maneira a ganhar fôlego, Rômulo Portinho era seu novo namorado. Ela como uma colunista social se achava na obrigação profissional de trocar de romance no máximo trimestralmente, renovando assim suas fontes e contatos.

Entendia-se o incomodo e o interesse do Sr. Morales, Estela Campos era sua ex-mulher. Os comentários nos bastidores do mundo jornalístico davam conta que por causa dela ele se tornara aquele gordo asqueroso e que a separação, assim como a divisão dos bens, fora bastante tumultuada.

***

Há cerca de quinze anos, o jovem casal recém formado em jornalismo investira todas suas economias e alguns empréstimos, num projeto de vulto. Era assim que nascia a revista Co-fator, um grande sucesso desde sua fundação.

No entanto o sucesso da revista não se repetiu no casamento, Estela pediu a separação alguns anos depois da fundação da revista. O Sr. Morales nunca havia se recuperado deste golpe.

Acabaram vendendo a revista e desfazendo a sociedade, mas Estela permaneceu sob seu comando como editora chefe. O Sr. Morales foi convidado, nesta mesma época, a chefiar a edição da revista concorrente Vis-à-vis que não tinha a menor expressão no cenário nacional. Em pouco tempo ele conseguiu reverter à situação e alavancar as vendas, transformando a Vis-à-vis na maior revista do país, posto ocupado até então pela Co-fator.

As coisas ficaram tensas entre os dois e a disputa profissional acirrava ainda mais o ódio que agora os ligava. Estela havia jurado recuperar o primeiro lugar para a revista Co-Fator e o Sr. Morales jurava acabar com a carreira de Estela.

***

Totila continuou contando seu encontro inusitado com Estela a ex-mulher de Morales e poderosa editora da Co-fator – Mesmo com a presença da Estelinha, por quem eu também não nutro boas impressões, permaneci no jantar normalmente, estava antes de tudo a trabalho. Ela e o Rômulo primos! Quem poderia imaginar!

O Sr. Morales a interrompeu – Você me chamou aqui há essas horas, debaixo dessa chuvarada, pra dizer que jantou com essa mulher? Ou seria pra dizer que ela é prima de seu namoradinho? Onde está seu bom senso japonesa? Faça-me o favor Totila! – o homem fingiu não se interessar pelo paradeiro de sua ex-mulher, o que não era verdade – O que está havendo aqui? Onde você quer chegar mocinha?

Ela ignorou solenemente a interrupção e continuou enquanto enrodilhava seus cabelos num coque que prendeu com um palito de madeira – Acho que Estela não me reconheceu, ou foram as doses de whisky que a deixaram com a língua mais solta – riu maldosa –, mas a verdade é que eu ouvi, de sua própria boca... – dramatizou o anúncio –, que o tal César Hernandez, esse jornalista famoso que o senhor pensa que contratou, não se desligou de verdade da revista Co-fator, ele só está aqui para roubar a matéria e o furo de reportagem da nossa querida Milena!! – ela fez uma pausa e continuou num tom debochado – O grande e premiado jornalista que o senhor acha que roubou da Co-fator não passa de um espião!! – e terminou num gole único o café.

O Sr. Morales engasgou-se com a fumaça do charuto que acabava de acender – Você está me dizendo o quê Totila? Esse talzinho está infiltrado aqui como um agente duplo? – o homem agora sim tinha levantado a voz, em segundos ficou vermelho e agitado.

Totila se preocupou, quase se arrependera da notícia que trouxera, mas tinha que contar o que havia descoberto, por uma obrigação profissional, como depois se gabou para os colegas.

A jovem acalmou o homem, trouxe-lhe um café, não se dando conta que a cafeína poderia piorar mais ainda seu estado de agitação. Ele levou quase uma hora para se articular normalmente.

– O que faço Totila? Não posso deixar Milena sozinha no Egito! – o velho parecia inconsolável – Mas se acontecer desse César roubar mesmo a minha matéria, eu estarei desmoralizado! Acabado!

– Eu já pensei nisso Sr. Morales, amanhã mesmo eu vou para o Egito, já peguei todos os detalhes da viagem com o abusado do menino Murilo – ela falava com empolgação –, me encontro com eles lá, mando esse César embora e completo a missão com a Lena, nós somos uma dupla devastadora! – terminou a frase piscando o olho.

– Você Totila! – o homem usou um tom desacreditado já que julgava Totila ainda muito verde para uma matéria tão séria e cara – Você não tem o perfil adequado, seu negócio é festas e fofocas! Se alguém deve ir, esse alguém é o Casagrande, ele já foi editor de política internacional e é nosso correspondente em Londres, fica bem mais viável economicamente, e você sabe “Lança afiada não precisa de brilho!”.

Totila não se deixou abater com o comentário preconceituoso de Morales, ela usou todo seu poder persuasivo para convencê-lo. No entanto todos os argumentos eram facilmente rebatidos por ele, até o momento em que Totila entrou no tema “Estela”, então as coisas começaram a mudar de figura.

O Sr. Morales não aceitava essa derrota para sua ex-esposa. Ele mesmo tomaria as providências legais para que César não saísse impune daquela improbidade. Totila fez o homem acreditar que quanto menos gente soubesse do escândalo e da rasteira que Estela tinha lhe dado, seria melhor. Ele não quis mesmo que a notícia se espalhasse sequer pela redação. Ficou fortemente inclinado a autorizar a viagem da japonesa.

– Nessa altura Totila ou você é pedra ou você é vidraça! Talvez seja mesmo uma boa idéia mandar você para o Egito, afinal onde o diabo não pode ir, manda uma mulher como mensageiro! – se riu, achando graça, como sempre, dos ditados infames que proferia, ela riu também, mas com uma certa dose de desfaçatez.

Murilo, o estagiário ainda não tinha deixado a redação esperando algum contato de Milena ou de César. Permanecia vigilante e ficou muito desconfiado daquela reunião secreta na sala de Morales menos vinte e quatro horas depois da viagem dos dois.

***

Horas antes Totila havia perguntado muitas coisas a ele sobre a viagem ao Egito, soube ser persuasiva com seus beijos, abraços e promessas dissolutas. Envolvido Murilo acabou contando sem reservas tudo que sabia sobre a matéria. Mais tarde a culpa roeu-lhe a alma, qualquer coisa relacionada à viagem era altamente sigilosa, mas como resistir a luxúria nipônica? Logo ele que não conseguia resistir a ninguém.

Assim que soube tudo que queria, a oriental voltou a ignorá-lo, sem dúvidas só precisava mesmo das informações. Murilo antes do ocorrido já não suportava Totila por seu jeito esnobe e prepotente, depois de ter sido usado começou a odiá-la. Nunca sido usado antes, também nunca havia confiado naquela japonesa.

– Você não sai mais daqui menino? Parece uma coruja! Pensei que só eu era uma morcega trabalhando na noite! – brincou Salete terminando a faxina e se preparando para continuar a jornada madrugada adentro em outras duas companhias que também trabalhava.

– Essa Salete deve ter sido bem interessante quando jovem! – pensou Murilo observando a servente de aspecto cansado que deixava o andar.




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