Milena e César esperavam ansiosos Gael voltar da tenda maior, ele poderia explicar o que o vírus Trh-5 significava dentro daquele contexto específico.
Milena por hora já nem se preocupava com o que estava acontecendo dentro da pirâmide, sabia que mais cedo ou mais tarde as coisas ocorridas lá seriam reveladas. A ausência de Egmar no acampamento dava uma sobrevida a ela e a César.
Kaled também estava preocupado com a demora de Gael, o jovem tinha uma devoção quase como à de um filho. Gael permanecia sozinho na tenda desde a noite passada e não costumava, segundo o próprio Kaled, trabalhar até tão tarde. Em algumas horas o sol nasceria e o homem não retornava.
Assim foi, em pouco tempo o sol acordou César e Milena de um sono desacomodado. O dia já tinha amanhecido e o espanhol ainda não havia voltado. Assim que acordou Kaled foi imediatamente à tenda principal verificar o que se passava. Encontrou Gael inconsciente mal jogado em um pequeno sofá. O homem não parecia estar passando bem.
Gael foi levado novamente para a tenda prisão e acabou ficando sob os cuidados Milena e de César, pelos sintomas, provavelmente o velho estava enfartando, e era quase certo seu diagnóstico.
Kaled transtornou-se com a possibilidade de perder Gael, e assim também perder a chance de sair dali. O jovem chamou César em particular e entregou a ele um pedaço de papel – Encontrei num dos bolsos do Gael esse papel amassado e rasgado. Me parece um tipo de cântico, um louvor que ele deve ter escrito pouco antes de ter o ataque. Isso é um pouco comum por aqui, alguns de nós escrevem cânticos de louvor, mas esse de Gael é particularmente estranho.
O bilhete incompleto pelo rasgo era escrito a mão com letra quase ilegível, era um verso simples e mal escrito, realmente estranho.
– Gael odiava Disebek Djau, sempre odiou, ele jamais escreveria algo em seu louvor! – Kaled riu triste – Vá entender um velho a beira da morte, estava delirando! – ele foi ao encontro de Gael e deixou o papel com César que o relia intrigado enquanto empurrava mecanicamente os óculos no rosto. Faltavam certamente só algumas linhas, o texto escrito em português não deixou dúvidas em César, era um recado só para ele e Milena entenderem.
O velho passava quase o tempo todo inconsciente, às vezes acordava balbuciando algumas coisas e voltava a apagar. Era questão de tempo até sua morte e ele levaria consigo as respostas que tanto faziam falta para os jornalistas.
Kaled mesmo tendo ficado responsável pelos rebeldes na ausência de Disebek Djau dedicava boa parte de seu tempo à volta do homem. Era visível seu sofrimento sincero.
Milena arriscou uma intervenção, mesmo Kaled sempre ter se demonstrado arredio. – Vocês têm uma ligação muito forte, não? – ela suavizou ao máximo a voz evitando um tom de interrogatório – Já se conheciam antes desse incidente da pirâmide?
Kaled estava sentado no chão com a cabeça de Gael no colo. Noutra ocasião certamente se esquivaria, mas a necessidade de desabafar era tão grande que não conseguiu permanecer calado. Varreu a tenda com os olhos e certificou-se que ninguém o ouviria, seus olhos molharam discretamente, era o começo de uma torrente.
– Estou aqui nesse acampamento pra ganhar algum dinheiro, não acredito que esse cerco seja motivado pela religião. Foi aqui que conheci Gael, ele foi seqüestrado por Disebek Djau e já está trabalhando conosco há algum tempo. – secou as lágrimas antes que caíssem – Logo que nos conhecemos ele pareceu simpatizar muito comigo... Foi mesmo uma empatia extraordinária! – seus olhos teimavam em lacrimejar – Até estranhei o jeito dele, não entendi o que ele poderia querer com um indiano errante como eu. Ele sendo um prisioneiro especial, tínhamos mais tempo juntos, eu acabei responsável por ele aqui no acampamento. – Milena escutava a história com atenção, poderia obter dali alguma pista sobre a ligação de Gael com o T-rh5.
– Nunca ninguém tinha me dado atenção assim... Eu não tive família, fui criado aqui e ali, sem paradeiro! Viajei por todos esses países daqui da volta, nunca tive ninguém por mim. Acabou que também me apeguei ao velho.
Ele disse que perdeu um filho e que eu era muito parecido com o garoto dele. Pobre Gael, tão infeliz quanto eu! – riu irônico enquanto fungava e alisava a testa do homem – Me perguntou uma vez, se eu acreditava em reencarnação, essas coisas. Nem sei se acredito! Acho que não acredito em nada!
Não importa no que acredito, acreditei nele que foi à única pessoa que me amou nesse mundo! Prometeu me levar embora daqui, tínhamos um plano de fuja e agora ele ta morrendo! – voltou a chorar contrito, Milena teve que se esforçar para não se emocionar junto. Achou triste a história de duas pessoas sozinhas e muito carentes. Kaled deixou a tenda, Gael parecia ter piorado.
César juntou-se a ela e ao espanhol que padecia no chão de areia. De repente o velho teve um breve momento de lucidez, com a mão erguida pediu a aproximação deles. Mais que prontamente atenderam o apelo do homem. César pensou que não havia hora melhor para uma confissão do que aos pés da morte.
De fato Gael queria dizer suas últimas palavras. Entre muitos suspiros ofegantes o homem foi deixando seu legado. Implorou para que César e Milena servissem de testemunhas no caso de Kaled, ele havia deixado um documento expressando seu desejo de assumir o jovem como herdeiro, mas precisava que os brasileiros confirmassem a história legalmente.
Milena já começava a ficar aflita, entendia os últimos desejos do homem, mas queria entender o que acontecia de estranho no acampamento. Infelizmente o fôlego de Gael tinha se esvaído. Já não conseguia mais falar nada. Seria impossível ele explicar algo sobre o Trh-5, ele mal podia abrir os olhos.
Esperaram respeitosamente o fim do homem. Ele foi apagando aos poucos, aparentemente sem sofrimento intenso. Pouco antes de morrer, como não poderia ser diferente, o moribundo deixou seu enigma.
Milena percebeu que ele desejava dizer suas últimas palavras e aproximou seu ouvido a boca do velho. De maneira quase inaudível ele disse: – O cântico... A Esfinge, procure na Esfinge... – e essas foram suas últimas palavras que certamente iriam lhe causar uma insônia brutal.
As cenas que seguiram foram previsíveis, levaram o corpo do homem dali, Kaled precisou de algumas palavras de consolo, Milena ficou chateada com o ocorrido, enfim, nada absolutamente de anormal. À noite chegou menos fria.
– A Esfinge... Procure na Esfinge! – a voz do velho parecia reverberar dentro de sua cabeça. Por mais que tentasse não conseguia entender o que o homem queria dizer com aquilo que unido ao cântico à Disebek Djau fazia ainda menos sentido.
– Se teve tempo e sanidade para fazer esse joguinho, porque não nos contou de uma vez o que estava acontecendo! Velho miserável! – César chegou a praguejar o espanhol, tamanha inconformidade com a situação, mas sabia que certamente o código serviria para proteger a mensagem de outras pessoas. – E não tenho mais condições psicológicas pra deduzir enigmas! – desabafou renunciando a tarefa.
Milena comungava da idéia de César, mas ainda sentia-se pelo homem ter deixado ao menos uma pista. A referência sobre a Esfinge deveria ao menos nortear a solução, mas sequer sabiam se o cântico era realmente uma mensagem deixada com segundas intenções.
– Esfinge, Esfinge... – ela dava voltas pela barraca – Gael sabia que não poderíamos ir até a Esfinge de Gisé buscar provas. O que será então que isso quer dizer?
César tentava em vão dormir jogado num canto da tenda. Sua cabeça também estava cem por cento absorvida pelas palavras do homem e pelo papel encontrado. – Esfinge... Está na Esfinge... – esses pensamentos deixavam sua testa continuamente franzida.
O relâmpago que iluminou o céu deixou Milena ver pela porta da barraca, ao longe, a silhueta monumental da pirâmide, tinha esquecido que ela estava ali tão perto e tão longe ao mesmo tempo. – Maldito relâmpago! – esbravejou, agora preocupava-se com o enigma de Gael e ainda com o que poderia estar acontecendo dentro da pirâmide.
César contou sobre seu encontro infrutífero com Sadeh. Milena mal pode acreditar, logo quando Cassiana estava resolvendo a desinteligência com seu pai. Ela nunca suporia que Sadeh tivesse tido um envolvimento com Disebek Djau.
Como não conseguiria mesmo dormir a luz acesa na tenda de Sadeh deu a Milena a idéia de uma visita surpresa à barraca de Disebek Djau. Quem sabe conversando com uma outra mulher ela se abriria, quem sabe ela soubesse alguma coisa sobre a Esfinge.
Toda tentativa era válida, Milena não tinha nada mesmo a perder. César não se opôs, realmente deveriam assuntar sobre a Esfinge, quem sabe era algum tipo de código, ou gíria usado no acampamento. Ele mesmo interpelaria mais tarde o indiano Kaled sobre o novo e despretensioso enigma da esfinge.
Como tudo estava calmo e os líderes do acampamento estavam ausentes, a guarda dos prisioneiros tinha relaxado, não foi difícil chegar à tenda onde estava Sadeh.
Logo que Milena entrou na barraca uma movimentação diferente começou nos arredores, ela nem chegou a perceber, mas César ficou apreensivo com aquela agitação inesperada no acampamento.
Um dos rebeldes trazia arrastado pelos pés outro insurgente morto. Ele voltava da pirâmide trazendo mais uma vítima de suas armadilhas mortais.
Todos rebelados ficaram em polvorosa com o retorno inesperado, começou ali mesmo no centro do acampamento, uma reunião extraordinária em torno ao corpo estendido. Por mais que César se esforçasse pouco entendia do que estava acontecendo.
Disebek Djau tinha novas ordens para prosseguir sua jornada. Como eles ainda não haviam conseguido avançar muito na pirâmide, e mesmo assim já haviam perdido contingente a nova ordem exigia a presença, a habilidade acima da média e o vigor de Kaled além de mais outro rebelde como reforço. Os três escolhidos, ainda naquela madrugada, seguir de volta para pirâmide
A ordem havia causado grande mal-estar entre os militantes. Mesmo subservientes, estavam com verdadeiro pânico da maldição do Faraó. Ninguém se prontificaria espontaneamente para missão.
Depois de um sem-número de altercações, decidiu-se pelo sorteio. Tudo foi muito rápido dali em diante. Kaled parecia não acreditar em sua má sorte. Na mesma noite em que perdera seu pai arranjado, ainda teria que enfrentar o terror da pirâmide maldita. O jovem estava desnorteado, ele e mais outros dois desafortunados partiriam logo em seguida.
César teve pena de Kaled, ele era um jovem forte fisicamente, mas transpassava uma fragilidade cativante, seu olhar abatido deixando o acampamento foi desconcertante. Sorte Milena não estar ali, a cena seria mais um motivo para o deleite de sua insônia.
Em pouco tempo já não se via mais os escolhidos na escuridão. Outro relâmpago rasgou o céu, dessa vez foi César que pode ver brotando nas areias do deserto a exuberante pirâmide que parecia espreitar cuidadosamente suas vítimas. Um forte vento correu com seu uivo anunciando a tempestade que se aproximava.
Milena entrou na barraca de Disebek Djau e encontrou Sadeh muito bem disposta. A garota que conhecera em Alexandria deva lugar a uma mulher exuberante e segura. Sadeh a recebeu como se a visita fosse natural naquela circunstância.
Envolvidas na conversa nem perceberam a movimentação no acampamento pelo sorteio e pela nova expedição.
Durante a conversa, Milena percebeu nitidamente que Sadeh escondia alguma coisa, talvez um trunfo que guardava contra Disebek Djau, concluiu, mas não houve jeito da arrancar informações da jovem que quando percebia a intenção se fechava em paus.
Milena tentou por horas cerca-la, mas cansadas acabaram entregando-se ao sono e dormiram lado a lado na confortável cama de Disebek Djau.
O sol já começava a dourar o horizonte quando César conseguiu driblar o sentinela que também havia adormecido e foi ao encontro das duas.
Tentou não assustá-las com sua presença. Despertou Milena primeiro, Sadeh se despertou em seguida. Estavam revigoradas, dormir numa cama, ainda que por poucas horas, foi realmente estimulante.
Não tinham muito tempo, deveriam deixar a barraca antes de o sol nascer completamente para não serem vistos.
– A Sadeh lembrou de alguma coisa? – a pergunta de César pegou as duas assonorentadas de surpresa, nem imaginavam do que ele estava falando. – A Esfinge? Lembra da Esfinge? – César refrescou a memória de Milena.
Milena riu encabulada, havia esquecido completamente de assuntar com Sadeh sobre o enigma da Esfinge proposto por Gael.
– Esfinge? A Esfinge da Grande Pirâmide? – Sadeh olhava para os dois em dúvida – O que eu deveria saber?
Somente a cara de admiração de Sadeh já respondia a dúvida dos dois: ela não tinha a menor idéia do que falavam.
Quando já estavam prontos para partirem, Milena pode ver nos olhos de Sadeh uma sombra de dúvida, e isso foi o suficiente para que voltasse a interpelar.
– Qualquer coisa Sadeh... Pense... Esfinge... – Milena acertou em voltar e insistir, Sadeh havia se lembrado de algo.
– Não sei se ajuda..., não deve ter nada a ver! – Sadeh olhou para cima buscando alguma imagem em suas lembranças – Há um documento que tem uma esfinge estilizada desenhada em seu verso!
César ajustou os óculos no nariz. – Um documento? Você tem esse documento?
– Não! Não está comigo! – ela riu embaraçada com a interpretação de César – Na verdade é um documento que Gael entregou a um dos aldeões! – Sadeh estava embaraçada, visivelmente preferia não ter dito nada.
– Eu não preciso me justificar, não fiz nada! – antes que perguntassem ela fez questão de se antecipar – Disebek Djau jamais me deixaria partir, então tenho um plano de fuga. Tenho observado coisas terríveis que Disebek Djau planeja, e talvez eu não consiga usufruir da fortuna desse monstro, então, no caso de tudo dar errado, eu já tenho como ir embora.
Num dia desses de ventania intensa essa barraca quase voou pelos ares, Disebek Djau não estava na aldeia, ele tinha ido a cidade buscar uma enorme caixa misteriosa, mas por sorte Kaled, o braço direito de Djau veio me acudir. Descobri que esse é diferente dos outros. – Sadeh prosseguia tentando se justificar – nessa ultima semana nos aproximamos muito e decidimos que no momento certo vamos deixar esse acampamento, os ideais de Djau estão realmente muito além da sanidade. Há um cientista famoso preso aqui no acampamento, nós vamos fugir com ele! Fortuna por fortuna, eu fico com Kaled e seu padrinho rico!
César e Milena estavam surpresos com mais uma história de Sadeh, nunca imaginariam que aquela moça que conheceram em Alexandria fosse capaz de ter em sua personalidade tantas nuances. Provavelmente nem Cassiana sabia desse lado de Sadeh.
Milena continuou – E a esfinge? E o documento?
– Ah! É claro, a esfinge! - Sadeh sacudiu a cabeça se orientando – O cientista ta meio convalescente, então ele deu a Kaled um tipo de documento, parece que é um codicilo ou algo que o valha. Eu lembro que nesse mesmo papel havia uma esfinge muito bonita, algo como um selo desse Gael. Havia alguma coisa aos pés desse monstro.
Em pensar que Kaled esteve o tempo todo ali, ao seu alcance. Ainda não tinha certeza de que era essa a esfinge certa, mas Kaled tinha ligação direta com Gael, possivelmente estava ali a chave do código. No entanto, a exaltação de Milena foi rapidamente cerceada por César.
– Se o documento está com Kaled, então é melhor desistirmos, ontem à noite ele deixou o acampamento!
A notícia surpreendeu tanto Sadeh quanto Milena, mas principalmente Sadeh ficou abalada. César então explicou o acontecido no acampamento durante a madrugada. Todo o entusiasmo havia se esvaído como água pelo ralo, melhor, como água no chão quente do deserto, o sentimento de frustração era um dos poucos sentimentos que Milena não sabia lhe dar com facilidade. O comunicado trouxera novamente a pirâmide a seu pensamento.
Sadeh não reagiu bem ao que César havia dito. Sua fuga tinha ruído como um castelo de areia, sem contar que a morte do outro rebelde na pirâmide confirmava que Kaled estava correndo risco de morte. Essa possibilidade a deixou completamente transtornada. Passou a percorrer o interior da barraca de um lado para outro.
– Eu vou atrás dele! Eu tenho que ir, Disebek Djau e Kaled vinham se desentendo muito, talvez por minha causa! Tenho certeza que Djau chamou Kaled para pirâmide para que ele morra! Eu tenho que tira-lo de lá!
Milena ardeu com a possibilidade de acompanhá-la a pirâmide. Era a chance que precisava para entrar no monumento, novamente tinha a chance de satisfazer aquela ânsia que consumia sua alma.
Agora seria necessário convencer César a fugir do acampamento e acompanhá-las na expedição, nenhuma das duas coisas seriam tão difícil. Assim que a noite chegasse novamente, os três deixariam o acampamento.
Kaled também estava preocupado com a demora de Gael, o jovem tinha uma devoção quase como à de um filho. Gael permanecia sozinho na tenda desde a noite passada e não costumava, segundo o próprio Kaled, trabalhar até tão tarde. Em algumas horas o sol nasceria e o homem não retornava.
Assim foi, em pouco tempo o sol acordou César e Milena de um sono desacomodado. O dia já tinha amanhecido e o espanhol ainda não havia voltado. Assim que acordou Kaled foi imediatamente à tenda principal verificar o que se passava. Encontrou Gael inconsciente mal jogado em um pequeno sofá. O homem não parecia estar passando bem.
Gael foi levado novamente para a tenda prisão e acabou ficando sob os cuidados Milena e de César, pelos sintomas, provavelmente o velho estava enfartando, e era quase certo seu diagnóstico.
Kaled transtornou-se com a possibilidade de perder Gael, e assim também perder a chance de sair dali. O jovem chamou César em particular e entregou a ele um pedaço de papel – Encontrei num dos bolsos do Gael esse papel amassado e rasgado. Me parece um tipo de cântico, um louvor que ele deve ter escrito pouco antes de ter o ataque. Isso é um pouco comum por aqui, alguns de nós escrevem cânticos de louvor, mas esse de Gael é particularmente estranho.
O bilhete incompleto pelo rasgo era escrito a mão com letra quase ilegível, era um verso simples e mal escrito, realmente estranho.

“Disebek Djau tem bom coração, que nunca lhe digam não.
É um homem generoso, temos como líder um grande religioso.
Enganará aos chacais e lobos e nos livrará a todos.
Quer a nossa gente livrar e dar fim a quem veio nos roubar.
Tesouro raro que o bem nos fará e aos maus certamente matará.
Todos verão como ele é bom, nosso rei sem coroa ou com.
Vírus modernos do mal, para nós jamais serão algo mortal.
Diz isso a quem tu vê, que acreditem e não pergunte o porquê.
Foi isso que brotou em meu coração e contra isso não há maldição.
Do ser que não o ama tenho dó, porque não será salvo pelo faraó.
Mas ele guardará...”
É um homem generoso, temos como líder um grande religioso.
Enganará aos chacais e lobos e nos livrará a todos.
Quer a nossa gente livrar e dar fim a quem veio nos roubar.
Tesouro raro que o bem nos fará e aos maus certamente matará.
Todos verão como ele é bom, nosso rei sem coroa ou com.
Vírus modernos do mal, para nós jamais serão algo mortal.
Diz isso a quem tu vê, que acreditem e não pergunte o porquê.
Foi isso que brotou em meu coração e contra isso não há maldição.
Do ser que não o ama tenho dó, porque não será salvo pelo faraó.
Mas ele guardará...”
– Gael odiava Disebek Djau, sempre odiou, ele jamais escreveria algo em seu louvor! – Kaled riu triste – Vá entender um velho a beira da morte, estava delirando! – ele foi ao encontro de Gael e deixou o papel com César que o relia intrigado enquanto empurrava mecanicamente os óculos no rosto. Faltavam certamente só algumas linhas, o texto escrito em português não deixou dúvidas em César, era um recado só para ele e Milena entenderem.
O velho passava quase o tempo todo inconsciente, às vezes acordava balbuciando algumas coisas e voltava a apagar. Era questão de tempo até sua morte e ele levaria consigo as respostas que tanto faziam falta para os jornalistas.
Kaled mesmo tendo ficado responsável pelos rebeldes na ausência de Disebek Djau dedicava boa parte de seu tempo à volta do homem. Era visível seu sofrimento sincero.
Milena arriscou uma intervenção, mesmo Kaled sempre ter se demonstrado arredio. – Vocês têm uma ligação muito forte, não? – ela suavizou ao máximo a voz evitando um tom de interrogatório – Já se conheciam antes desse incidente da pirâmide?
Kaled estava sentado no chão com a cabeça de Gael no colo. Noutra ocasião certamente se esquivaria, mas a necessidade de desabafar era tão grande que não conseguiu permanecer calado. Varreu a tenda com os olhos e certificou-se que ninguém o ouviria, seus olhos molharam discretamente, era o começo de uma torrente.
– Estou aqui nesse acampamento pra ganhar algum dinheiro, não acredito que esse cerco seja motivado pela religião. Foi aqui que conheci Gael, ele foi seqüestrado por Disebek Djau e já está trabalhando conosco há algum tempo. – secou as lágrimas antes que caíssem – Logo que nos conhecemos ele pareceu simpatizar muito comigo... Foi mesmo uma empatia extraordinária! – seus olhos teimavam em lacrimejar – Até estranhei o jeito dele, não entendi o que ele poderia querer com um indiano errante como eu. Ele sendo um prisioneiro especial, tínhamos mais tempo juntos, eu acabei responsável por ele aqui no acampamento. – Milena escutava a história com atenção, poderia obter dali alguma pista sobre a ligação de Gael com o T-rh5.
– Nunca ninguém tinha me dado atenção assim... Eu não tive família, fui criado aqui e ali, sem paradeiro! Viajei por todos esses países daqui da volta, nunca tive ninguém por mim. Acabou que também me apeguei ao velho.
Ele disse que perdeu um filho e que eu era muito parecido com o garoto dele. Pobre Gael, tão infeliz quanto eu! – riu irônico enquanto fungava e alisava a testa do homem – Me perguntou uma vez, se eu acreditava em reencarnação, essas coisas. Nem sei se acredito! Acho que não acredito em nada!
Não importa no que acredito, acreditei nele que foi à única pessoa que me amou nesse mundo! Prometeu me levar embora daqui, tínhamos um plano de fuja e agora ele ta morrendo! – voltou a chorar contrito, Milena teve que se esforçar para não se emocionar junto. Achou triste a história de duas pessoas sozinhas e muito carentes. Kaled deixou a tenda, Gael parecia ter piorado.
César juntou-se a ela e ao espanhol que padecia no chão de areia. De repente o velho teve um breve momento de lucidez, com a mão erguida pediu a aproximação deles. Mais que prontamente atenderam o apelo do homem. César pensou que não havia hora melhor para uma confissão do que aos pés da morte.
De fato Gael queria dizer suas últimas palavras. Entre muitos suspiros ofegantes o homem foi deixando seu legado. Implorou para que César e Milena servissem de testemunhas no caso de Kaled, ele havia deixado um documento expressando seu desejo de assumir o jovem como herdeiro, mas precisava que os brasileiros confirmassem a história legalmente.
Milena já começava a ficar aflita, entendia os últimos desejos do homem, mas queria entender o que acontecia de estranho no acampamento. Infelizmente o fôlego de Gael tinha se esvaído. Já não conseguia mais falar nada. Seria impossível ele explicar algo sobre o Trh-5, ele mal podia abrir os olhos.
Esperaram respeitosamente o fim do homem. Ele foi apagando aos poucos, aparentemente sem sofrimento intenso. Pouco antes de morrer, como não poderia ser diferente, o moribundo deixou seu enigma.
Milena percebeu que ele desejava dizer suas últimas palavras e aproximou seu ouvido a boca do velho. De maneira quase inaudível ele disse: – O cântico... A Esfinge, procure na Esfinge... – e essas foram suas últimas palavras que certamente iriam lhe causar uma insônia brutal.
As cenas que seguiram foram previsíveis, levaram o corpo do homem dali, Kaled precisou de algumas palavras de consolo, Milena ficou chateada com o ocorrido, enfim, nada absolutamente de anormal. À noite chegou menos fria.
– A Esfinge... Procure na Esfinge! – a voz do velho parecia reverberar dentro de sua cabeça. Por mais que tentasse não conseguia entender o que o homem queria dizer com aquilo que unido ao cântico à Disebek Djau fazia ainda menos sentido.
– Se teve tempo e sanidade para fazer esse joguinho, porque não nos contou de uma vez o que estava acontecendo! Velho miserável! – César chegou a praguejar o espanhol, tamanha inconformidade com a situação, mas sabia que certamente o código serviria para proteger a mensagem de outras pessoas. – E não tenho mais condições psicológicas pra deduzir enigmas! – desabafou renunciando a tarefa.
Milena comungava da idéia de César, mas ainda sentia-se pelo homem ter deixado ao menos uma pista. A referência sobre a Esfinge deveria ao menos nortear a solução, mas sequer sabiam se o cântico era realmente uma mensagem deixada com segundas intenções.
– Esfinge, Esfinge... – ela dava voltas pela barraca – Gael sabia que não poderíamos ir até a Esfinge de Gisé buscar provas. O que será então que isso quer dizer?
César tentava em vão dormir jogado num canto da tenda. Sua cabeça também estava cem por cento absorvida pelas palavras do homem e pelo papel encontrado. – Esfinge... Está na Esfinge... – esses pensamentos deixavam sua testa continuamente franzida.
O relâmpago que iluminou o céu deixou Milena ver pela porta da barraca, ao longe, a silhueta monumental da pirâmide, tinha esquecido que ela estava ali tão perto e tão longe ao mesmo tempo. – Maldito relâmpago! – esbravejou, agora preocupava-se com o enigma de Gael e ainda com o que poderia estar acontecendo dentro da pirâmide.
César contou sobre seu encontro infrutífero com Sadeh. Milena mal pode acreditar, logo quando Cassiana estava resolvendo a desinteligência com seu pai. Ela nunca suporia que Sadeh tivesse tido um envolvimento com Disebek Djau.
Como não conseguiria mesmo dormir a luz acesa na tenda de Sadeh deu a Milena a idéia de uma visita surpresa à barraca de Disebek Djau. Quem sabe conversando com uma outra mulher ela se abriria, quem sabe ela soubesse alguma coisa sobre a Esfinge.
Toda tentativa era válida, Milena não tinha nada mesmo a perder. César não se opôs, realmente deveriam assuntar sobre a Esfinge, quem sabe era algum tipo de código, ou gíria usado no acampamento. Ele mesmo interpelaria mais tarde o indiano Kaled sobre o novo e despretensioso enigma da esfinge.
Como tudo estava calmo e os líderes do acampamento estavam ausentes, a guarda dos prisioneiros tinha relaxado, não foi difícil chegar à tenda onde estava Sadeh.
Logo que Milena entrou na barraca uma movimentação diferente começou nos arredores, ela nem chegou a perceber, mas César ficou apreensivo com aquela agitação inesperada no acampamento.
***
Um dos rebeldes trazia arrastado pelos pés outro insurgente morto. Ele voltava da pirâmide trazendo mais uma vítima de suas armadilhas mortais.
Todos rebelados ficaram em polvorosa com o retorno inesperado, começou ali mesmo no centro do acampamento, uma reunião extraordinária em torno ao corpo estendido. Por mais que César se esforçasse pouco entendia do que estava acontecendo.
Disebek Djau tinha novas ordens para prosseguir sua jornada. Como eles ainda não haviam conseguido avançar muito na pirâmide, e mesmo assim já haviam perdido contingente a nova ordem exigia a presença, a habilidade acima da média e o vigor de Kaled além de mais outro rebelde como reforço. Os três escolhidos, ainda naquela madrugada, seguir de volta para pirâmide
A ordem havia causado grande mal-estar entre os militantes. Mesmo subservientes, estavam com verdadeiro pânico da maldição do Faraó. Ninguém se prontificaria espontaneamente para missão.
Depois de um sem-número de altercações, decidiu-se pelo sorteio. Tudo foi muito rápido dali em diante. Kaled parecia não acreditar em sua má sorte. Na mesma noite em que perdera seu pai arranjado, ainda teria que enfrentar o terror da pirâmide maldita. O jovem estava desnorteado, ele e mais outros dois desafortunados partiriam logo em seguida.
César teve pena de Kaled, ele era um jovem forte fisicamente, mas transpassava uma fragilidade cativante, seu olhar abatido deixando o acampamento foi desconcertante. Sorte Milena não estar ali, a cena seria mais um motivo para o deleite de sua insônia.
Em pouco tempo já não se via mais os escolhidos na escuridão. Outro relâmpago rasgou o céu, dessa vez foi César que pode ver brotando nas areias do deserto a exuberante pirâmide que parecia espreitar cuidadosamente suas vítimas. Um forte vento correu com seu uivo anunciando a tempestade que se aproximava.
***
Milena entrou na barraca de Disebek Djau e encontrou Sadeh muito bem disposta. A garota que conhecera em Alexandria deva lugar a uma mulher exuberante e segura. Sadeh a recebeu como se a visita fosse natural naquela circunstância.
Envolvidas na conversa nem perceberam a movimentação no acampamento pelo sorteio e pela nova expedição.
Durante a conversa, Milena percebeu nitidamente que Sadeh escondia alguma coisa, talvez um trunfo que guardava contra Disebek Djau, concluiu, mas não houve jeito da arrancar informações da jovem que quando percebia a intenção se fechava em paus.
Milena tentou por horas cerca-la, mas cansadas acabaram entregando-se ao sono e dormiram lado a lado na confortável cama de Disebek Djau.
O sol já começava a dourar o horizonte quando César conseguiu driblar o sentinela que também havia adormecido e foi ao encontro das duas.
Tentou não assustá-las com sua presença. Despertou Milena primeiro, Sadeh se despertou em seguida. Estavam revigoradas, dormir numa cama, ainda que por poucas horas, foi realmente estimulante.
Não tinham muito tempo, deveriam deixar a barraca antes de o sol nascer completamente para não serem vistos.
– A Sadeh lembrou de alguma coisa? – a pergunta de César pegou as duas assonorentadas de surpresa, nem imaginavam do que ele estava falando. – A Esfinge? Lembra da Esfinge? – César refrescou a memória de Milena.
Milena riu encabulada, havia esquecido completamente de assuntar com Sadeh sobre o enigma da Esfinge proposto por Gael.
– Esfinge? A Esfinge da Grande Pirâmide? – Sadeh olhava para os dois em dúvida – O que eu deveria saber?
Somente a cara de admiração de Sadeh já respondia a dúvida dos dois: ela não tinha a menor idéia do que falavam.
Quando já estavam prontos para partirem, Milena pode ver nos olhos de Sadeh uma sombra de dúvida, e isso foi o suficiente para que voltasse a interpelar.
– Qualquer coisa Sadeh... Pense... Esfinge... – Milena acertou em voltar e insistir, Sadeh havia se lembrado de algo.
– Não sei se ajuda..., não deve ter nada a ver! – Sadeh olhou para cima buscando alguma imagem em suas lembranças – Há um documento que tem uma esfinge estilizada desenhada em seu verso!
César ajustou os óculos no nariz. – Um documento? Você tem esse documento?
– Não! Não está comigo! – ela riu embaraçada com a interpretação de César – Na verdade é um documento que Gael entregou a um dos aldeões! – Sadeh estava embaraçada, visivelmente preferia não ter dito nada.
– Eu não preciso me justificar, não fiz nada! – antes que perguntassem ela fez questão de se antecipar – Disebek Djau jamais me deixaria partir, então tenho um plano de fuga. Tenho observado coisas terríveis que Disebek Djau planeja, e talvez eu não consiga usufruir da fortuna desse monstro, então, no caso de tudo dar errado, eu já tenho como ir embora.
Num dia desses de ventania intensa essa barraca quase voou pelos ares, Disebek Djau não estava na aldeia, ele tinha ido a cidade buscar uma enorme caixa misteriosa, mas por sorte Kaled, o braço direito de Djau veio me acudir. Descobri que esse é diferente dos outros. – Sadeh prosseguia tentando se justificar – nessa ultima semana nos aproximamos muito e decidimos que no momento certo vamos deixar esse acampamento, os ideais de Djau estão realmente muito além da sanidade. Há um cientista famoso preso aqui no acampamento, nós vamos fugir com ele! Fortuna por fortuna, eu fico com Kaled e seu padrinho rico!
César e Milena estavam surpresos com mais uma história de Sadeh, nunca imaginariam que aquela moça que conheceram em Alexandria fosse capaz de ter em sua personalidade tantas nuances. Provavelmente nem Cassiana sabia desse lado de Sadeh.
Milena continuou – E a esfinge? E o documento?
– Ah! É claro, a esfinge! - Sadeh sacudiu a cabeça se orientando – O cientista ta meio convalescente, então ele deu a Kaled um tipo de documento, parece que é um codicilo ou algo que o valha. Eu lembro que nesse mesmo papel havia uma esfinge muito bonita, algo como um selo desse Gael. Havia alguma coisa aos pés desse monstro.
Em pensar que Kaled esteve o tempo todo ali, ao seu alcance. Ainda não tinha certeza de que era essa a esfinge certa, mas Kaled tinha ligação direta com Gael, possivelmente estava ali a chave do código. No entanto, a exaltação de Milena foi rapidamente cerceada por César.
– Se o documento está com Kaled, então é melhor desistirmos, ontem à noite ele deixou o acampamento!
A notícia surpreendeu tanto Sadeh quanto Milena, mas principalmente Sadeh ficou abalada. César então explicou o acontecido no acampamento durante a madrugada. Todo o entusiasmo havia se esvaído como água pelo ralo, melhor, como água no chão quente do deserto, o sentimento de frustração era um dos poucos sentimentos que Milena não sabia lhe dar com facilidade. O comunicado trouxera novamente a pirâmide a seu pensamento.
Sadeh não reagiu bem ao que César havia dito. Sua fuga tinha ruído como um castelo de areia, sem contar que a morte do outro rebelde na pirâmide confirmava que Kaled estava correndo risco de morte. Essa possibilidade a deixou completamente transtornada. Passou a percorrer o interior da barraca de um lado para outro.
– Eu vou atrás dele! Eu tenho que ir, Disebek Djau e Kaled vinham se desentendo muito, talvez por minha causa! Tenho certeza que Djau chamou Kaled para pirâmide para que ele morra! Eu tenho que tira-lo de lá!
Milena ardeu com a possibilidade de acompanhá-la a pirâmide. Era a chance que precisava para entrar no monumento, novamente tinha a chance de satisfazer aquela ânsia que consumia sua alma.
Agora seria necessário convencer César a fugir do acampamento e acompanhá-las na expedição, nenhuma das duas coisas seriam tão difícil. Assim que a noite chegasse novamente, os três deixariam o acampamento.
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