CAPÍTULO 37

A passagem era estreita, assustadora e sombria, mas mesmo assim era o melhor caminho a seguir. Eles não desejavam mais nenhuma surpresa naquela noite, mas já que estavam mesmo naquele gigantesco mausoléu o melhor a fazer era conhecer o lugar e ainda enriquecer as linhas da matéria com detalhes sobre a pirâmide.

Uma rocha muito pesada protegia a entrada da cave, afastara-a com cuidado para que não caísse novamente sobre o passadouro, isso impediria o retorno deles mais tarde. A passagem parecia mais um canal de ventilação do que uma entrada, as teias de aranha indicavam que por ali nenhuma pessoa passava há muito tempo. Nem saqueadores e nem os arqueólogos do consórcio de Egmar, o lugar era secreto até agora.

Desceram os muitos degraus que levavam até há uma outra galeria. A iluminação parva era oriunda da única lanterna que César trazia, as demais foram deixadas na Grande Galeria pois não acendiam mais.

Não conseguiam sequer ter uma noção da dimensão do lugar, sabiam apenas que era abafado e de cheiro desagradável. O chão coberto de areia abafava os passos, eles seguiam ocultos como três intrusos na casa do Faraó.

Na escuridão Milena temia ainda mais os bichos que moravam naquele lugar, na descida ela tinha tido o desprazer de esbarrar em alguns escorpiões negros e ameaçadores. Ainda que aparentemente protegidos dos problemas externos, como aquela devastadora tempestade, as coisas não pareciam estar nada bem ali dentro.

Tinham explorado pouco tempo a nova galeria, quando a luz da lanterna, que já estava fraca, esvaneceu de vez. Por vezes emitia uma tênue luz, mas logo apagava novamente. A escuridão completa gerou sobressalto em Milena e em Sadeh, César também ficou assustado, mas disfarçou.

– Não podemos prosseguir assim! – Sadeh era a mais nervosa entre eles – Eu vou pegar as pilhas das lanternas quebradas! Eu deixei lá em cima, posso ir buscá-las rapidamente para prosseguirmos! – a voracidade da jovem paralisou César e Milena.

Sadeh tinha razão, era muito perigoso prosseguir sem qualquer iluminação. César se ofereceu para ir em seu lugar, mas só ela sabia onde havia deixado as lanternas quebradas.

Sadeh encheu-se de coragem, lembrou que estava ali para proteger Kaled da ira de Disebek Djau e que precisaria de muita coragem. Com a lanterna fraca de César que emitia uma réstia de luz em seus últimos instantes de energia, ela seguiu rapidamente pelo caminho em que vieram. César tentou ir atrás dela, sentindo-se responsável pelo grupo, mas dessa vez foi Milena quem o impediu. Com César ali ela sentia-se, ao menos remida.

Como César previa, pouco tempo depois Sadeh gritava em pânico por seu nome. Na certa não encontrara a passagem para subir e retornar a Grande Galeria. Antes que Milena pudesse segurá-lo, ele saiu em disparada. – Não saia daqui sob hipótese alguma, eu volto logo! – e foi ajudar Sadeh sem dar chance a réplica.

Permaneceu quieta enquanto ele ia se afastando e sumindo na escuridão. Milena não gostou da idéia de ficar longe do campo de visão de César, ela tinha desenvolvido uma espécie de dependência, mesmo sob toda aquela tensão era cada vez maior a ternura que os unia.

Milena ouvia seus passos cada vez mais longe e ia negando a si mesma, mas estava na mais completa escuridão e apavorada. De repente circulou no lugar um sopro quente, mas que gelou sua alma.

Tentou ficar atenta a todos os ângulos do salão. Um pavor estranhou a dominou. Pensou que poderia ser o bafo de uma múmia despertando. Seus pensamentos estavam desconexos, teve que lembrar de até mesmo de respirar. César na certa já havia subido, e ela estava completamente sozinha. O tempo foi passando e seu pavor aumentando proporcionalmente.

Aguçou o ouvido, tentando antecipar a chegada de seus companheiros. Pareceu-lhe um barulho ao longe. Aquela situação inusitada tinha lhe comprometido à noção de tempo, mas eles já deveriam estar voltando, o ruído deveria ser o retorno deles.

Ouviu novamente o ruído – César, você está aí?

Nenhuma resposta.

– César, Sadeh, cadê vocês?

Silêncio como resposta.

Não era do gênero de César ou de Sadeh fazer brincadeiras assim, ainda mais numa situação como aquela. No entanto uma coisa era certa, Milena não estava sozinha.

Sentiu definitivamente que vinha alguém em sua direção. A escuridão era perturbadora. O som de sua voz havia orientado e revelado sua localização na galeria, alguém sabia exatamente onde ela estava. – Mas quem? Se fossem eles já teriam se identificado, trariam a luz da lanterna! – seus pensamentos turvaram, sequer respirava ou engolia a saliva evitando fazer mais barulho.

Os passos de quem vinha eram lentos, arrastados. Estavam tão próximo agora que ela podia ouvir respiração da pessoa, um arfar estranho, ofegante. Ela tinha quase certeza que não era César nem Sadeh. Sua intuição lhe dizia coisas absurdas, pensou novamente em múmias. Milena se perguntava como poderia temer uma múmia, mas temia, mesmo sendo muito surreal, ela temia a múmia do alienígena do faraó, ou qualquer outra.

Se o que se aproximava fosse mesmo uma manifestação, ou uma criatura humanóide como a que Egmar havia lhe mostrado. Talvez já tivessem ressuscitado o Faraó e ele estava ali, buscando os intrusos, emanando ira e mau-humor quem dormiu milênios. Tudo bem que, na verdade, ela não acreditasse na ressurreição, mas algo lhe dizia para fugir, porque o Faraó Desconhecido não estava feliz com a presença de estranhos em sua casa. Eram mais de 4500 anos de solidão ali embaixo e agora ele tinha novamente companhia.

Não podia ser o César que vinha, os passos de quem se aproximava eram lentos, arrastados, a respiração era ofegante, Milena tinha certeza que não era César, ele falaria com ela e se revelaria, com certeza era algo subumano que vinha em sua direção. Ela tinha certeza disso.

Milena começou a acreditar na maldição da pirâmide e não queria pôr a prova todo seu poder. O Faraó Desconhecido queria conhecê-la, mas ela não fazia mais a menor questão de enriquecer tanto assim sua matéria. Mesmo na mais completa escuridão tinha noção de onde viera e podia voltar para Grande Galeria e reencontrar Sadeh e o verdadeiro César.

Antes de começar a fuga, desistiu. Se fosse embora dali, ainda teria que enfrentar na subida, os escorpiões negros que a hostilizavam com uma veemência atroz – justificou. Ela estava paralisada de medo, mesmo que tentasse não conseguiria mover um músculo sequer para fugir. César era um homem de palavra, ele viria buscá-la conforme o combinado.

Achou melhor esperar em silêncio, desistiu da idéia de múmias, fantasmas, manifestações. Isso não condizia com sua personalidade, o que sua amiga Totila pensaria se pudesse ouvir seus pensamentos? Certamente era César vindo. – É ele vindo. É ele vindo. – Milena repetia essa frase mentalmente como num mantra pagão. Fez com tanta fé que era capaz de ouvir seus próprios pensamentos. Junto ainda, conseguia chorar baixinho, de maneira quase inaudível.

Cada vez mais próximos vinham os passos, arrastados, lentos, ofegantes, aterrorizantes. Ela já não controlava suas vontades, estava completamente impotente aos acontecimentos. Quase podia sentir a respiração da criatura. De repente algo segurou seu braço. Milena não pode conter-se e emitiu um estridente e agudo grito de pavor. Podia sentir as garras da criatura dilacerando a pele do seu braço. O bramido ecoou amplificado pela pirâmide e reverberou por algum tempo.

***

As garras da criatura, a pele sendo lacerada pelo subumano, felizmente tudo fruto da sua imaginação; a mão na verdade, era de Sadeh, que ao lhe alcançar despencou no chão quase desacordada. Após se recuperar do susto, Milena foi prontamente assisti-la. Sadeh estava suando muito, mal conseguia falar, sua língua enrolava, já desesperada compreendeu que uma serpente peçonhenta havia lhe atacado no caminho de volta.

Milena conhecia aqueles tipos de serpentes que viviam ali, horas da programação de TV a cabo tinham lhe tornado quase uma bióloga autodidata. Antes de viajar, quando foi tomar as vacinas obrigatórias o médico ainda havia lhe alertado sobre essas possibilidades e lhe deu algumas noções de como proceder nesse tipo de eventualidade – eu não estou indo para Amazônia! – pensou com certo desprezo ao ouvi-lo, agora as informações do médico pareciam tão importantes, no entanto insuficientes.

Os sintomas eram facilmente identificáveis, além, é claro, da evidente laceração na pele, indicativa do bote. O veneno de uma picada poderia matar um homem em algumas horas, dependendo da serpente. Sadeh já estava com claros sinais de intoxicação e em pouco tempo estaria morta.

Milena lembrou dos hieróglifos nos pilares da Grande Galeria que diziam sobre os antídotos escondidos na Câmara da Ressurreição. Essa seria a única e pequena chance de salvar a jovem daquela morte trágica, se é que algum tipo de soro ainda teria eficácia milênios depois de sua elaboração.

Já tinha passado tempo suficiente para César voltar, no entanto não havia nem sinal dele. Cada minuto era vital para Sadeh, não poderia perder mais tempo esperando por César. Mesmo sendo a última coisa que Milena pretendia ou imaginava fazer, era percorrendo as galerias e corredores da pirâmide que ela encontraria a salvação de sua companheira de viagem.

Milena ajeitou a jovem, retirou o casaco que trazia amarrado na cintura e a cobriu, Sadeh apesar do suor intenso estava gelada, depois de uma rápida despedida começou sua jornada pela vida. Uma coragem súbita encheu-lhe de esperanças, o Faraó Desconhecido desconhecia sua força.

Mesmo sabendo muito pouco sobre pirâmides Milena contava com sua intuição, além dos conhecimentos adquiridos nos filmes do gênero, não era raro um filme sobre aventuras espetaculares em pirâmides, só não sabia que eles serviriam um dia como manual de sobrevivência. Milena não sabia a que dinastia esse faraó pertencia, mas sabia seguir seus instintos.

O tempo era curto, ela saiu a procura do salão central, a Câmara da Ressurreição. Seguiu instintivamente na direção oposta a da entrada. Percorreu o ambiente com cuidado levando consigo a lanterna que Sadeh havia devolvido. Como não chegara a encontrar as pilhas a luz continuava diminuta.

Passou por um corredor descendente, chegou a um pequeno salão de teto inclinado que servia para desviar as pressões provocadas pelas pedras que se encontravam acima. Sentia, constantemente, alguém a observando, sabia, no entanto, que estava muito assustada e impressionada, poderia ser mesmo apenas impressão.

No pequeno salão onde estava, havia num dos cantos um túnel discreto, era um poço de ventilação. Segundo César aqueles dutos de ventilação eram importantes, pois os antigos egípcios após vedarem a Câmara principal saiam por esses dutos deixando as portas lacradas. Pela lógica Milena deveria então fazer o caminho inverso para chegar até a sala indicada. Não tinha certeza nenhuma, mas o pensamento parecia coerente.

Encheu-se de coragem para entrar no pequeno túnel que era habitado por toda sorte de insetos. A única maneira de passar pelo túnel era rastejando, e assim ela foi. No fim, do mesmo, havia uma outra sala, porém ela estava bem abaixo do nível onde o ele culminava. Observou desanimada a altura da sala lá em baixo.

Milena teria que saltar até o chão, cerca de três metros abaixo, mas o que a consumia não era a queda, e sim a dúvida de como sairia dali depois, caso não houvesse outro caminho a seguir. Como a sala estava escura ela não enxergava nenhuma saída. Entendeu com clareza a expressão: “Um salto no escuro”.

E foi o que fez, não pensou muito e atirou-se com cuidado, por pouco a lanterna não se espatifou no chão, mas ao contrário, sua luz deu uma efêmera intensificada. O chão fofo pela areia atenuou a queda. Ali em baixo a luminosidade era estranhamente melhor, ela podia enxergar quase tudo, ainda que sem total clareza.

Não foi difícil constatar o óbvio, algo tinha saído errado. Olhando a volta percebeu que aquela câmara era provavelmente uma armadilha. A pequena sala estava ocupada por um esqueleto humano jogado num dos cantos, na certa de alguém que como Milena acreditou que o lugar tivesse alguma outra saída. Mas não tinha, e por onde ela tinha entrado era alto demais para voltar. Se aquilo não fosse uma armadilha, não passava muito de um mero reservatório de ar. Um desânimo fez com que Milena caísse sentada no chão coberto de areia.

Esse era o fim de Sadeh que esperava pelo antídoto, esse era o fim de Milena. Ela teve tempo pra pensar em toda sua vida, em toda viagem, em seu ex-noivo Oscar, na revista Vis-à-vis, na ambição desenfreada que a levou até ali, enfim teve tempo de se arrepender de cada mau passo que dera. Lembrou de sua mãe e da quimera que suas almas se encontrariam em breve no plano astral. Não pode evitar as lembranças.

Lembrou da solidão disfarçada que sentiam desde que ficaram sozinhas, uma para a outra. Sua mãe que parecia ter uma saúde de ferro e uma vivacidade incomum, era o alicerce sob qual Milena tinha crescido, a mulher mais generosa e feliz que conhecera.

Há três anos, no entanto, uma sombra de preocupação tornou-se comum nos olhos de sua mãe que aos poucos foram ficando mais e mais fundos, logo apareceram os primeiros sintomas da doença.

Menos de seis meses depois do diagnóstico de câncer, Milena se viu diante do túmulo de sua mãe, sem saber o que fazer sozinha, sem saber onde tinha ido parar sua fé.

Ficou angustiada ao lembrar-se da mãe, lembrou de César, trocou em vão os pensamentos, pensar em César também a angustiou, descobriu, talvez tarde demais, que realmente estava envolvida com ele, se sobrevivesse queria muito conhece-lo de verdade e quem sabe passar o resto da vida ao seu lado. Esse episódio tinha servido ao menos para lhe trazer lucidez quanto ao que sentia pelo colega, mas era inútil essa percepção agora, já não tinha esperanças, apenas esperava a morte chegar, e chegar lentamente.

***

Talvez não tivesse passado nem uma hora, mas parecia para Milena uma eternidade, enquanto esperava a morte, pode observar o intenso movimento de formigas, ou algum parente próximo delas, que percorriam num dos cantos do lugar incessantemente. Observou os insetos e pode constatar que eles tinham passagem daquela câmara para uma outra, por uma fenda na parede, e isso deu um fio de esperança a Milena.

Ignorou o asco sentido anteriormente do esqueleto, jogou aqueles ossos para outro lado a fim de acompanhar o trajeto integral dos invertebrados que, de fato, circulavam entre dois ambientes.

– Há uma outra sala secreta atrás dessa parede – concluiu Milena, agora teria que achar uma maneira de abri-la. Passou a perscrutar o lugar com cuidado. Não havia notado antes, mas agora algo lhe saltava aos olhos.

Na parede, em relevo sobressaia uma espécie de emblema. Milena conhecia aquele símbolo, era uma cruz egípcia, com o braço superior em forma de balão. – Que ironia! Logo uma cruz! – pensou. O símbolo estava talhado de maneira quase que imperceptível na própria pedra. A insígnia lhe chamou atenção, pois sendo aquela câmara apenas uma canal de ventilação ou uma armadilha, não deveriam existir nela aquele tipo de artefato.

Analisando mais de perto Milena descobriu que o objeto não estava talhado na pedra, mas sim sobreposto à rocha. Ela poderia então girar o objeto que com certeza desvelaria a saída dali ou ainda coisas melhores, como um atalho para Câmara da Ressurreição.

Antes de qualquer decisão pensou duas vezes, se algo saísse errado uma outra armadilha seria desencadeada.

Não dependia de coragem, não dependia de conhecimentos, nem estava sendo precipitada por medos, Milena tinha que decidir pra que lado girar a cruz. Também não havia nenhum argumento plausível que indicasse uma coisa ou outra. Sentido horário, anti-horário. Tentou associações: Faraó Desconhecido – desconocido – estraño – sinistro – izquierdo – canhoto. Direito – esquerdo – correto – errado. Não conseguiu se convencer de nada. Nem o jogo de palavras tinha elucidado algo.

Agora tinha que decidir-se sobre uma coisa bastante corriqueira, apenas escolher para que lado girar a insígnia do faraó: esquerda ou direita!

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