CAPÍTULO 39

- Precisamos continuar, Disebek Djau e Kaled não podem ficar muito tempo juntos, eles vão se matar! – balbuciou Sadeh nervosa.

– Acho que é hora de irmos embora daqui, o que aconteceu com a Milena foi um bom aviso, vamos procurar a polícia, a tempestade de areia já deve ter passado! – mesmo sem pensar Milena concordou com César, a experiência de alucinação foi suficiente para que quisesse deixar aquele lugar o quanto antes.

A pirâmide era muito maior que imaginavam, um verdadeiro labirinto. Poderiam passar dias ali, sem encontrar ninguém, ou ainda poderiam ser mortos a qualquer momento por alguma armadilha, sem falar nos perigosos animais que habitavam o lugar.

A tempestade de areia não poderia durar muito tempo, e certamente levaria consigo os perigos do acampamento, o que facilitaria a fuga deles.

– É hora de chamar as autoridades competentes. A prisão de Disebek Djau, Egmar, Gabrielle e do Professor Wild é uma questão de tempo, permanecer aqui já não fazia mais sentido. – ratificou Milena recobrando o tino.

Esperavam que Sadeh se opusesse a resolução, mas foram surpreendidos por sua anuência contemplativa. Seguiram novamente para a passagem de onde tinham descido. Como já era a terceira vez que fazia o percurso, César as guiou com destreza.

Ele subiu na frente limpando os degraus dos perigosos escorpiões que dominavam o ambiente. Antes mesmo de chegar ao fim da passagem percebeu que algo estava errado e logo confirmou sua suspeita.

A passagem estava bloqueada, a pesada pedra havia sido removida e agora impedia completamente o caminho de volta, o que não poderia ter acontecido por acidente, alguém havia agido intencionalmente.

Sadeh estava a certa distância, com certeza já sabendo do ocorrido. César tentou empurrar a rocha, mas a posição em que ambos estavam, ele e a pedra, impediu qualquer sucesso na tentativa. O desejo de Sadeh foi atendido, teriam que percorrer a pirâmide de qualquer forma.

Sadeh os seguiu cabisbaixa submersa em seus pensamentos – Espero que possam me perdoar por eu ter bloqueado a saída. Temos que salvar Kaled! – ao buscar as baterias Sadeh tinha bloqueado de forma definitiva a passagem de volta.

***

A expedição continuou com certa animosidade, percorreram o salão em silêncio, um silêncio perturbador. A galeria parecia agora ser bem maior do que imaginavam, mas Milena sabia que a escuridão podia dar dimensões erradas as suas percepções. Caminharam por alguns minutos sob a luz fraca da lanterna que César conduzia. Depois de algum tempo finalmente a galeria tinha um fim.

Atravessaram um pequeno túnel que os levou para uma outra câmara, essa bem mais fechada. Quase podiam tocar o teto inclinado. Além de dezenas de insetos, havia também uma pequena passagem na parte superior da sala que era sombria e alta, teriam alguma dificuldade em alcançá-la, mas era o único acesso disponível.

Com ajuda das duas, César subiu primeiro, depois puxou para cima uma de cada vez. Milena não queria falar, mas percebia que César já estava em seu limite físico. Ele não era do tipo atleta, e seu corpo dava claros sinais de fadiga, embora tentasse esconder isso, provavelmente para impressioná-la.

Tiveram que seguir a rasto. Milena dessa vez ia à frente do trio, César seguia por último, resguardando o caminho. Continuavam num silêncio sepulcral, o que deixava a jornada ainda mais extenuante.

O calor em algumas galerias era sufocante, aquele corredor em que estavam, parecia ter ligação direta com algum forno, o suor fazia com que as areias grudassem em suas peles, causando um desconforto agonizante. Milena teve a nítida impressão que estavam no inferno, num inferno talhado em pedra.

A passagem elevada deu acesso à outra câmara de passagem, ao menos puderam ficar em pé. Agora teriam que subir por um longo corredor ascendente que ficava cada vez mais íngreme e escorregadio. O aclive era muito acentuado, havia buracos no chão como degraus rústicos que facilitavam a subida, como os da entrada da pirâmide. Milena sabia que se o pé escapasse acabaria voltando ao ponto de partida.

Ao concluir esse pensamento seu pé acabou mesmo escapando, e foi inevitável o tombo. As lajes de granito que revestiam as passagens eram polidas ao extremo e pareciam ensaboadas. Sua queda pegou Sadeh de surpresa, que vinha centímetros atrás, Milena não conseguiu sequer desviar, as duas se embolaram e como uma avalanche levaram César junto com elas.

Por pouco não caíram de volta na câmara anterior, e nem se machucaram gravemente. Fora algumas escoriações estavam todos sãos e salvos. Depois do susto foi inevitável caírem no riso. A queda tinha sido tão espetacular e desajeitada que os três gargalharam por muito tempo. Certamente se valeram da situação para extravasarem a tensão dos acontecimentos. Finalmente voltaram a se entrosar, o que mudou completamente o clima entre eles.

Após a crise de riso desproporcional, perceberam que estavam os três exaustos, precisavam imperiosamente descansar. Mesmo muito cansada Milena não queria parar, toda pirâmide estava infestada por insetos, tinha impressão que se fechasse os olhos eles tomariam seu corpo inteiro.

No entanto foi voto vencido, depois de subirem o corredor novamente, descansariam na próxima galeria que encontrassem a frente.

Subiram o corredor, dessa vez com maior zelo para não repetirem o tombo. Como imaginavam havia outra galeria, igualmente pequena como a última que tinham passado. O corredor que saia dali dessa vez era descendente, mas só o utilizariam depois de descansarem e comerem um pouco.

Sadeh havia conseguido bons mantimentos, puderam se deliciar com algumas tâmaras e até mesmo com a carne de uma saborosa ave defumada. Tomaram cuidado em deixar víveres para mais alguns dias, não sabiam quando seria o fim da viagem.

Talvez por só terem parado agora, perceberam o quão frio era aquela câmara, inversamente proporcional a anterior, isso tinha acontecido em questão de minutos. Há séculos sem receber o calor do sol, o interior da pirâmide estava uma legítima geladeira em algumas galerias, mas mais do que essa explicação Sadeh acreditava no sobrenatural.

O plano era sempre um ficar de vigília, no entanto o cansaço era tanto que os três se aninharam uns nos outros e apagaram completamente.

Sem perceberem dormiram durante horas. Conseguiram se refazer de todas as noites mal dormidas. A pirâmide em geral possuía um campo magnético que modificava a energia das pessoas. As vibrações imperceptíveis restauraram completamente o físico e o mental dos três. Permaneciam dormindo tranqüilamente num sono restaurador.


César vestido com um camisolão talar corria pelo deserto. O sol escaldante queimava sua pele impiedosamente. Seus lábios ressecados pela falta d’água rasgavam como um couro estorricado.

Não existia nada ali além de areia, muita areia. Vastas dunas atrás de si e infinitas a sua frente. Via somente um gigantesco lençol de areia fina, que parecia potencializar os efeitos do sol que se refletia. César fugia amedrontado de um esfomeado chacal. Logo percebeu que fugia não de um, mas de um bando deles.

Os animais o observavam com olhar feroz, e agiam de forma ardilosa. Pareciam querer cansá-lo bastante antes de desferir o ataque derradeiro. Não demoraria muito para que César se entregasse aos animais, que se assemelhavam muito aos lobos brasileiros.

Não tinha pra onde ir. Um deles já se aproximava arreganhando os dentes em sua direção, seria dele o primeiro ataque. César em total desespero lembrou do deus egípcio Anúbis, o deus dos mortos e condutor das almas, que era um homem com cabeça de chacal.

Talvez pelo sol, talvez pelo pavor, César acabou desmaiando, entregando seu corpo a própria sorte.

Horas mais tarde acordou assustado em um casebre de tijolos. Estava sobre uma esteira. Percebeu que alguém estava o tratando, pelos ungüentos e essências que cobriam seus ferimentos, principalmente o do pulso, que era o mais profundo.

O lugar era muito simples e modesto, por isso uma opulenta peça religiosa chamou-lhe tanto a atenção. Num altar simples, feito de barro no canto da casa, estava uma belíssima imagem de Hórus folhada a ouro, destoando muito do resto do lugar. Não pode compreender que tipo de motivação levava as pessoas a terem esse tipo de religiosidade. A casa muito pobre, a peça riquíssima.

À porta uma moça observava o movimento na rua. Era ela quem o assistia, logo entrou e exultou ao vê-lo desperto. Vestia uma bata surrada que escondia a barriga de aproximados seis meses de gravidez, mantinha os cabelos presos, mal penteados, facilitando assim a lida. Tinha a pele amorenada pelo sol forte do Egito. Era bela, de fisionomia agradável mas intransigente e olhar penetrante. Ao aproximar-se ele reconheceu a jovem. Mesmo diferente, morena e com traços egípcios, era uma espécie de versão de Gabrielle Bianucci quem estava ali, ele não compreendia como, mas era ela sem dúvidas.

– Meu Deus! É você Gabrielle, como pode? Onde estamos? Que roupas são essas? – César estava desorientado. Ele havia reconhecido a italiana naquela jovem, e estava certo, era mesmo Gabrielle.

Ela acomodou-o novamente sobre a esteira. – O sol deve ter confundido você Kalil! Uma malta de chacais o atacou no deserto, arrastaram por milhas sua carcaça! É um milagre de Amon-Rá estar vivo! Esses animais mortos de fome deveriam tê-lo destroçado! – ela sentou-se no chão ao lado de César e ensaiou um início de choro.

– O que há? O que está acontecendo? – César esfregava as mãos nos olhos procurando respostas e sobriedade – porque ela o chamava de Kalil?

– Ora Kalil – ela o olhou com fúria –, até parece que esqueceu a desgraça que se abateu sobre nosso povo! – voltou a soluçar, mas sem muita convicção – Começaram ainda a pouco as cerimônias. Vão embalsamar o Faraó...

Uma confusão na rua interrompeu a conversa dos dois. Uma pequena multidão revoltada marchava em direção ao palácio do Faraó. Eles gritavam coisas que César não pode compreender, mas certamente insurgiam-se por algo grave.

– Hetheres, o que está acontecendo? – César surpreendeu-se consigo mesmo, ele sabia o nome pelo qual Gabrielle atendia naquela circunstância.

A jovem olhou novamente com fúria para seu companheiro. – Eles exigem justiça, querem ver sangue derramado! Querem acabar com tudo! E você Kalil, vai fazer alguma coisa? Vai tentar impedir novamente?

Na porta um homem parecia montar guarda. Que tipo de pesadelo era aquele? Será que tinha sido picado por algum escorpião e estava aos delírios?

César confuso entregou-se novamente a esteira. Sua cabeça doía muito, algumas cosias ele sabia, outras não conseguia lembrar. Não poderia ficar ali deitado, tinha que descobrir o que estava acontecendo.
Ao levantar-se do chão de areia quase tropeçou em Sadeh, que dormia serenamente ao seu lado. Milena acordou com a agitação de César, Sadeh da mesma forma acordou também.

Nenhum comentário: