CAPÍTULO 40

César ainda custou a se recuperar do seu sonho desconexo e extremamente realista, pretendia mais tarde compartilhar com as suas companheiras o que tinha vivenciado, seria difícil descrever com tamanha realidade o que havia se passado com ele.

– Ouçam! Vocês estão ouvindo isso? – Milena alertou os dois sobre ruídos que ouvia próximos dali.

Imediatamente silenciaram, nem mesmo se mexiam tentando ouvir e confirmar as suspeitas de Milena. De fato havia alguma coisa acontecendo. Por mais absurdo que parecesse os três se viram com o rosto colado numa das paredes rochosas da sala tentando ouvir se vinha do compartimento paralelo aquele barulho.

Apuraram o ouvido o mais que podiam e finalmente a teoria se confirmou. Algumas pessoas conversavam numa outra galeria.

– Eu não falei! Eu não disse! – Milena comemorava a descoberta quando César lhe puxou fazendo com que se calasse.

Repreendeu-a em tom baixo de voz – Fica quieta! Se podemos ouvi-los, eles podem nos ouvir também! – replicou explicando seu tratamento menos cordial.

Permaneceram com o ouvido na parede tentando decifrar de quem seria a voz. Não custou para perceberem que falavam em árabe, e que não era através da parede que ouviam a conversa, mas sim pelo canal de ventilação que nem haviam notado no canto superior da galeria.

Sadeh se concentrou no diálogo para conseguir entender o assunto. – Não reconheci a voz de ninguém, mas acho que é o grupo de Disebek Djau. Parece que alguma armadilha... – antes que Sadeh terminasse a tradução foi interrompida por alguém que invadiu a sala em disparada.

Os três estremeceram de susto. O rompante da pessoa que tomou a sala foi absolutamente inesperado. Da mesma forma o homem se assustou, parecia não esperar mais intrusos na pirâmide. Com o encontro inesperado acabou desequilibrando-se e se chocando violentamente contra a parede, acertou a cabeça direto na rocha.

O choque foi tão violento que poderia ter causado um traumatismo craniano na pessoa, no entanto logo constataram que, ao menos aparentemente, o encontrão não tinha sido tão grave assim.

Kaled permaneceu ali desmaiado enquanto Milena, Sadeh e César se recompunham do susto, não esperavam que invadissem a galeria e muito menos que fosse Kaled. O garoto tinha conseguido fugir de Disebek Djau e tentava sair da pirâmide, só não contava com a presença deles.

Apesar de o dia ter amanhecido nublado, coisa rara e geralmente muito festejada, o povo parecia profundamente consternado. A confusão de alguns dias atrás agora dava lugar a um profundo sentimento de perda e desolação. Não era o tempo que estava nublado, mas sim as pessoas é que estavam.

Kaled tentava entender o que se passava ali. Estava confuso, e mesmo sem entender direito, sentia-se profundamente triste também. Ele estava sozinho em seu quarto que era também uma espécie de atelier.

No chão estavam espalhados diversas esculturas de todos os deuses egípcios, em especial chamava a atenção à suntuosidade da imagem de uma versão de Hórus, o deus-falcão, em madeira revestida com placas de ouro, esse era o seu trabalho mais recente. Kaled era um grande artista.

Agora com a mente menos confusa ele começava a compreender as coisas. Notou que seu físico era de menor porte, não devia ter mais do que dezoito anos. Estava em seu quarto que ficava nos fundos do palácio do Faraó Selkheamon. Kaled era um artesão e trabalhava para o rei egípcio.

Assustou-se ao entrar no quarto um senhor de grandes proporções, vestia uma túnica comprida e ricamente bordada. O homem tinha barba e cabelos brancos alcançando a altura do peito. Aquela pessoa não lhe era estranha.

– Ah meu filho, as coisas vão mal aqui no palácio! Não sei se poderei me calar dessa forma! Estou sofrendo ameaças! – o velho sentou-se preocupado na cama rústica que era um dos poucos móveis do quarto.

Kaled estava atônito, seus olhos logo reconheceram quem estava em sua frente lhe chamando de filho. Kaled tinha certeza não se conteve e foi ao encontro do homem abraçando-o fortemente. Kaled se reencontrava com seu pai, o velho espanhol Jaques Marques Gael.

– Que isso meu filho? Por que esse desespero? Parece que não me vê há séculos! – o velho riu da atitude de Kaled e correspondeu ao abraço apertado.

– Pai, meu pai! – o jovem soluçava muito emocionado pelo momento, no entanto Gael estava agitado por outras razões.
– Não quero ser desagradável Neferin, eu sei que está triste por causa de seus amigos – Kaled não entendeu sobre que amigos Gael falava –, mas meu filho, já era pra você estar na pirâmide concluindo as escrituras. Em pouco tempo vão lacrar a pirâmide com o corpo do Faraó e os hieróglifos devem estar concluídos. Ande logo, o Sumo Sacerdote Hery-Sestha está impaciente! – o homem deixou os aposentos enquanto Kaled, ou Neferin se recompunha.

Agora ele se lembrava de mais coisas ainda. Seu pai era um dos sacerdotes da casta egípcia. Os sacerdotes de Amon, que cultuavam Amon-Rá, o deus dos deuses.

O Faraó Selkheamon havia morrido de maneira trágica e estavam mumificando o seu corpo. O Trabalho de Kaled na pirâmide era de ornamentar a Câmara do Rei, onde ele seria enterrado depois do embalsamamento.

Kaled estava emocionado demais para conseguir racionalizar o que se passava ali. Conforme o apelo de seu pai ele foi até a pirâmide realizar seu trabalho. No caminho pode perceber o quanto às pessoas estavam tristes e desnorteadas, imaginou então o tamanho do amor daquele povo por seu Faraó, embora não fosse exatamente esse o sentimento que sentia em seu coração. Logo chegou a pirâmide.

Com mais tempo para discernir as coisas ele retomou em sua mente as palavras que Gael havia lhe dito no quarto. – Quem seria o Sumo Sacerdote Hery-Sestha? Por que as coisas estavam tão ruins no paço? Quem ameaçava Gael? Que verdade ele não queria calar?

A Câmara do Faraó estava sendo ricamente ornamentada. Havia mais outros três artesões cobrindo as paredes com hieróglifos e pinturas religiosas. Ninguém sabia ao certo o que os hieróglifos diziam, eram coisas incompreensíveis para aquela época. Esse era o legado do Faraó Selkheamon. Teoricamente serviam para que ele pudesse voltar ao seu corpo mais tarde e retomar sua vida, o que era perfeitamente normal, já que para isso mumificavam os faraós.

Kaled não poderia ficar guarnecendo a pirâmide tendo tantas coisas a descobrir, discretamente deixou a galeria e seguiu pelas intermináveis salas da pirâmide recém construída.

Ele sabia se mover por aqueles corredores e passagens com habilidade, como artesão ele tinha acesso liberado a pirâmide.

De volta ao palácio do Faraó, Kaled confirmou que realmente estavam todos em sobressalto. Nas ruas o povo estava desolado e numa eminente revolta, a morte inesperada do Faraó havia desestruturado toda a sociedade. Um dos servos indicou a Kaled onde estava seu pai.
Todo o clero, os cinco Sacerdotes de Amon, estavam reunidos no templo que ficava no pátio interno do palácio. Kaled sabia que não poderia interrompê-los, então preferiu acompanhar a reunião escondido num dos camarotes que cercavam o altar. Naquele lugar estratégico poderia descobrir o que se passava no reinado do falecido Selkheamon.

Hery-Sestha era o Sumo Sacerdote, mas era o sacerdote Nikha-Meon quem presidia a reunião. Kaled reconheceu também aquele olhar austero, o jeito pausado de falar, mas não pode reconhecer quem era ele àquela distância.

Se ele e Gael estavam naquele contexto, era possível que mais pessoas também estivessem. Ele precisava ligar os personagens daquela vida estranha com as pessoas de sua vida real, isso facilitaria sua compreensão dos fatos.

Eles estavam, os cinco, reunidos em torno a uma mesa redonda e pareciam discutir os novos rumos do reinado. Kaled se esforçava para ouvir, mas o eco do lugar dificultava a compreensão.

– Eu não vou me calar Nikha-Meon, não posso aceitar o que vocês estão querendo fazer! Nunca vi tamanha heresia, nós estamos aqui para defender a religião, não para escarnecê-la. – Oferes, ou Gael elevava o tom de voz já rouquenho pela idade. – Já é uma decisão tomada, daqui vou direto a tribuna revelar a verdade ao povo e expiar toda culpa dela. Ela é inocente!

Gael parecia estar sozinho naquela decisão, nenhum outro integrante do conselho parecia apoiá-lo em sua atitude, ficaram tesos aprisionados pelo olhar terrificante e castrador do poderoso Sumo Sacerdote Hery-Sestha que acompanhava tudo calado.

Foi Nikha-Meon, presidindo a reunião, quem se pronunciou – Se essa é sua última palavra, se não adiantou o conselho todo se opor a está decisão sem discernimento, eu não vejo outra alternativa para você Oferes... – Nikha-Meon deu a volta na mesa enquanto falava calma e tranqüilamente.

Do camarote Kaled pode ver o que Gael não via, já atrás dele, Nikha-Meon tinha uma pequena adaga. Kaled saiu em disparada para evitar o mal que o sacerdote pretendia fazer. As escadas pareceram ter o dobro de degraus, ele correu o mais que pode.

Chegou a tempo de ver Nikha-Meon retirando o punhal das costas de Gael que logo em seguida tombou desfalecido no chão. Hery-Sestha, o Sumo Sacerdote acompanhava impassível à cena.

Kaled sentiu novamente a dor de perder o pai. A pior dor que havia sentido. Foi como se ele morresse um pouco junto com Gael.

– Paaaai! – seu grito foi encharcado de dor e revolta. Os outros sacerdotes já sabiam os planos de Hery-Sestha e estavam em pé quando foram tomados de assalto pelo grito de Kaled. Foi uma surpresa indesejável sua presença ali.

– Maldito, o que você fez com meu pai?! – Kaled estava mortificado, não conseguiu se agüentar e acabou caindo no chão de joelhos tamanho seu desespero. Seu choro ecoou pelo templo amplificando sua suplica dolorosa.

Hery-Sestha, o sumo-sacerdote tomou a frente em defesa ao ato de Nikha-Meon – Não lhe devemos satisfações criança, as inspirações divinas só devem ser executadas, nunca questionadas, e não esqueça que até a coroação do novo Faraó sou eu, o Sumo Sacerdote de Amon, que governo tudo nesse reino! – ele não parecia preocupado com a testemunha do assassinato. – Guardas! Tirem essa criança daqui e o joguem na rua. Neferin não é mais um artesão do governo! Ele está proibido de entrar em todo paço!

– Seu pai estava velho, eu lhe fiz um favor! – Nikha-Meon saiu de trás do seu protetor e concluiu seu ato bárbaro com a frase desprezível.

Aquela frase foi o suficiente para que Kaled reconhecesse aquele homem, enxugou as lágrimas e pode confirmar o olhar maligno de Disebek Djau, Nikha-Meon era o próprio Disebek Djau. Outra vez ele era o responsável pela morte de Gael.

Dois homens com a farda real entraram imediatamente no templo e seguraram o jovem pelos braços, antes de ser arrastado dali Kaled vociferou com toda força de sua alma – Passe o tempo que passar, custe o que custar, eu juro! Eu juro que matarei você Nikha-Meon, eu juro! Eu serei a tua maldição! Minha alma não há de descansar até que eu vingue a morte de mau pai!

Nikha-Meon recebeu a intimidação com desprezo, a alma Disebek Djau não se assustaria com a ameaça de um garoto.

César, Sadeh e Milena observavam com preocupação a agitação de Kaled. Como quem desperta de um terrível pesadelo ele pulou no chão. Milena era a pessoa mais próxima e foi nela que o jovem se abraçou e chorou copiosamente. Era estranho ver um jovem com aquele porte físico chorando como uma criança desamparada.

Nenhum dos três entendia nada do que estava acontecendo ali, apenas respeitavam o choro sentido de Kaled. A batida na cabeça poderia ter despertado algumas coisas no jovem indiano.

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