CAPÍTULO 42

Kaled dali em diante foi quem passou a conduzir a expedição. Passaram por um corredor descendente que os levou a um outro pequeno salão também de teto inclinado com a mesma função de desviar a pressão do peso dos blocos de pedra que se erguiam pirâmide acima.

– Aqui nós temos que nos decidir – Kaled interrompeu a caminhada –, se seguirmos por esse caminho – ele apontou uma passagem no fim do salão – levaremos muito tempo para alcançarmos a Câmara da Ressurreição, mas se subirmos por ali – apontou para cima, onde havia uma passagem de ar bastante estreita, na verdade um túnel bem menor que todos que já tinham passado antes –, se vocês quiserem ir pelo poço de ventilação, nós poderemos chegar até mesmo na frente do grupo de Disebek Djau e Egmar, é um bom atalho!
O canal de ventilação servia, além do seu propósito natural, como rota de saída dos trabalhadores que lacravam derradeiramente a pirâmide.

Uma rápida análise e a decisão foi unânime. Optaram pelo estreito, mas abreviado canal de ventilação. Embora estivesse no alto do salão, com César e Kaled de apoio foi simples alcançar a entrada do canal. Milena foi a primeira a invadir o pequeno túnel que era também habitado por alguns insetos indesejáveis. Além de muito compacto, o lugar era também bastante escuro e abafado. Logo Sadeh, César e Kaled por ordem entraram.

Milena seguiu na frente, era impossível trocar de lugar naquele canal estreito. Foi rastejando, pois era a única maneira de passar pelo túnel, tudo parecia-lhe estranhamente familiar. Ela seguiu rápido, estava sentindo uma angustiante claustrofobia, queria logo sair dali. Acabou adiantando-se demais e se afastou dos outros. Realmente aquele lugar fazia-lhe muito mal, o túnel pareceu não ter mais fim. A escuridão, aquele ar rarefeito, quando Milena deu por si, as imagens a sua frente começavam a esvanecer. Fechou os olhos para se acalmar e respirou fundo.

Já mais controlada abriu novamente os olhos, a escuridão tinha aumentado assustadoramente. Alguma coisa estava diferente, já não estava mais no túnel.

Milena descobriu-se presa, trancada em um sarcófago verdadeiro. Praticamente enterrada viva. A escuridão, o aperto, o ar escasseando... lembrou de onde reconhecia a terrível sensação. Era exatamente com isso que tinha sonhado no começo da viagem, dentro do avião. Ela estava presa num esquife de Faraós e logo estaria sufocada e morta. Não era um sonho, mas sim uma espécie de memória que emergia violentamente de seu inconsciente.

Tentou se acalmar, seus nervos estavam à flor da pele, se debater só acabaria com o oxigênio mais depressa ainda. Tinha que descobrir como e porque tinha acabado daquele jeito. Limpou a mente e deixou memórias mais remotas virem à tona.

***

Numa cabana abandonada a alguns quilômetros do palácio do Faraó Selkheamon, uma velhinha, bastante maltratada pelo tempo, contava histórias à cerca de dez pessoas, jovens e adultos, homens e mulheres escutavam ela com grande atenção, era uma sábia anciã transmitindo sabedoria. Pode perceber que o clima entre eles era muito tenso.

– Você tem que ouvir isso! – um jovem egípcio lhe arrastava pela mão até a velha cabana – Minha avó tem muita coisa a dizer! Você tem que ouvi-la hoje!

Milena diferenciava-se no meio daquelas pessoas, não era uma jovem qualquer. Estava vestida com uma túnica notável e entre diversos ornatos um delicado diadema de flores cingia seus cabelos. Seu bracelete em ouro com pedras de quartzo, turquesa e cornalina, chamava atenção junto com outros adereços que eram somente usados por famílias reais.

– Mas não posso demorar, vão dar por minha falta no palácio! – a resposta de Milena saiu instintivamente.

– Vamos Radja – era assim que ele a chamava –, já é hora de você saber toda verdade, e tem que ser hoje!

Sim era hora de saber a verdade, sentia que escondiam dela muitas coisas, as pessoas do palácio eram naturalmente tratadas de forma diferente, mas o que acontecia naquele reinado era muito estranho.

Milena olhou nos olhos do rapaz que a trazia, pela intimidade eram grandes amigos, ainda que de classes sociais diferentes. Pode reconhecê-lo, era César quem estava ali, mas ao mesmo tempo não era. Foi inevitável o sorriso que brotou forte em seus lábios, agora sentia-se mais segura tendo César por perto, mesmo no físico não sendo ele exatamente. O jovem percebeu o sorriso dela – Me reconheceu também! – pensou.

– O que há Radja, não temos tido motivos de riso nos últimos tempos! Hoje você vai saber de nossos planos! – César não tinha uma fisionomia feliz, aliás ninguém tinha, nem os que estavam agrupados na cabana, nem os outros que tinham passado por ela na rua. Milena, ou Radja sentia a insatisfação latente da população.

– Vamos Kalil, – Milena instintivamente sabia que era como chamavam César naquele cenário inusitado –, o que vocês querem me contar?

A senhora que estava sentada num canto da cabana se pronunciou com a voz áspera da idade, mas firme como um mecenas – Nós vamos matar o Faraó menina!

Aquela frase pareceu um golpe na consciência de Milena, era uma heresia grande demais o que a velha tinha proferido. Milena estava chocada, aquele grupo planejava um atentado contra o Faraó Selkheamon e ainda haviam lhe chamado para ser conivente, ou quem sabe até cúmplice.

Levou a mão à boca segurando o espanto e saiu em disparada daquela barraca herege. Ela tremia apavorada com a possibilidade, se os pegassem seriam, como outros no passado, executados e Milena não queria esse fim para Kalil o seu amigo de infância.

Kalil, embora tão jovem quanto ela, já era casado e sua esposa Hetheres esperava há seis meses o primogênito. Todos sabiam que ele era apaixonado desde a infância por Radja, teriam casado se ele não fosse operário e ela da realeza. Mesmo o destino tendo separado os dois, ele sempre foi um fiel devoto dela. Sempre por perto, protegendo, cuidando, enfim, amando-a calado.

No entanto não foi ele quem suspendeu a fuga. Milena foi arrebatada cuidadosamente. Um outro jovem havia lhe segurado. Antes mesmo de ver quem era tentou desvencilhar-se e continuar a fuga, não sabia ainda o que fazer, mas na certa denunciaria a conspiração.

Akhenfis a segurava com força para que não escapasse. Assim que percebeu nos braços de quem estava, deixou-se vencer. Akhenfis era um jovem de traços marcantes e olhar inteligente. Mesmo vivendo de maneira simples junto ao povo, tinha ancestrais de sangue nobre, ou seja, era descendente de um antigo Faraó de outra região. Essa era sua diferença de Kalil, os dois a amavam, mas somente Akhenfis teve permissão para desposá-la.

Os dois formavam o mais belo casal da região, e em breve se casariam. Eram jovens, belos e cordatos, qualidade, essa, muitíssimo admirada no Paço Real. Dizia-se até que se o Faraó Selkheamon morresse sem deixar um herdeiro sucessor, seria o próprio Akhenfis a assumir seu trono. No entanto isso era impossível, Selkheamon reinava absoluto, e jamais os Sacerdotes de Amon, o clero da corte, deixariam alguém como o jovem Akhenfis assumir o poder.

Ele acabou conduzindo Milena as margens do Nilo para tentar acalmá-la antes de retornar ao Palácio. Na verdade Akhenfis procurava uma maneira de dizer que também fazia parte dos planos conspiratórios.

Akhenfis calmamente foi conversando e fazendo com que ela ouvisse uma série de coisas que ainda não tinha prestado atenção, embora fossem coisas que a cercavam desde a infância.

Milena, ou Radja, como a chamavam, nunca tinha parado para pensar, mas desde que nascera, o Faraó Selkheamon já governava toda aquela região com grande poder e astúcia. Ela nunca tivera espaço para questionar nada, mesmo porque a vida no palácio parecia quase perfeita.

Ainda que soubesse que a realidade fora dos portões dourados do paço fosse muito diferente, nunca tinha pensado que o povo poderia estar revoltado ou sofrendo.

A estranha postura do Faraó começou de fato a intrigá-la. Nunca, ninguém do povo, ou no próprio palácio havia visto pessoalmente a Selkheamon exceto, é claro, os cinco Sacerdotes de Amon.

A única estátua erguida em sua homenagem estava recôndita na pirâmide, e mesmo assim com o rosto encoberto convenientemente por uma máscara. Era um mistério que não se podia pedir explicações, especulações eram punidas de forma severa e exemplar, as penas eram aplicadas pelo conselho de Amon.

A história contada nos antigos papiros não precisavam, nem aproximadamente, a data em que Selkheamon havia começado seu reinado, dizia-se, fantasiosamente, que era um reinado de séculos sobre séculos, o que agora Radja notava que poderia ter um fundo de verdade. Ela estava profundamente intrigada com a história de Selkheamon.

Kalil encontrou seu primo Akhenfis, e Radja sentados à beira do rio Nilo. Estava aliviado em vê-la mais calma.

Até aquele ponto ela concordava, além dali Kalil e Akhenfis lhe trouxeram a verdade escondida.

O povo sofria absurdamente, mas de fato não era escravizado pela força, não era a opressão física que os subjugava, como acontecia com outros povos. A escravidão que eles sofriam era muito pior. O povo era mentalmente subjugado, algo imponderável. Uma força sobrenatural, uma espécie de energia tele cinética que dominava e coagia o inconsciente das pessoas, tornando-as escravas, transformando todo tipo de vida em serva voluntária.

Radja ao saber disso chocou-se profundamente, até então via somente um reino próspero e muito rico. Só pode acreditar ao ver pessoalmente as áreas de trabalho do povo. Ela foi levada por Kalil e Akhenfis e pode confirmar o que diziam ao ver os felás trabalhando sem parar, em jornadas intermináveis, sem comer, sem descansar por dias ininterruptos, só paravam mesmo quando o corpo desfalecia, ai vinha outro em seu lugar em revezamentos desumanos.

Os dois jovens caminhavam com ela pela cidade, e iam provando a desconcertante teoria da escravização voluntária.

Algumas mulheres, no entanto, eram poupadas, mas para a abjeta prática da manutenção da população, para que assim a fonte de trabalho nunca se esgotasse. As pessoas não passavam de zumbis, mão de obra escravizada por algum método vil e desconhecido.

A insurreição começou pelas mãos das felaínas grávidas. Como as mulheres pejadas eram poupadas dos serviços escravos, começaram a descobrir o que se passava com seu povo geração após geração, e foram transmitindo seus conhecimentos através de papiros secretos. O primeiro relato era datado de mais de cem anos. No entanto, somente agora os revoltos conseguiam vencer os grilhões da psico-dependência e constituir de fato uma revolução.

Chegaram os três aos portões do Palácio. Radja olhou desconfiada para as janelas fechadas do andar onde vivia isolado Selkheamon. O púlpito que se estendia de uma das janelas, onde o povo deveria ouvir e adorar o faraó estava abandoando, na verdade nunca fora usado.

Ela despediu-se de Akhenfis e Kalil, não poderia mais permanecer na rua àquelas horas. Já em seu quarto não conseguiu deixar de pensar nas barbaridades que tinha presenciado. Eram séculos de opressão. Tentou abstrair-se na sacada do quarto que contemplava os fundos do paço e ao longe a recém terminada pirâmide. Não conseguiu esquecer, aquilo tudo a revoltava tanto que seu estômago parecia revolver-se, não poderia conviver com aquelas práticas nem mais um dia.

Hary-Seshta era o Sumo Sacerdote de Amon, mas Radja tinha verdadeira ojeriza daquele homem com sua aura maligna. Com certeza ele era parte integrante do esquema. Na verdade todos sacerdotes pareciam envolvidos, principalmente Nikha-Meon, que era a própria sombra de Hary-Seshta. O único em que ela poderia confiar, era seu padrinho, o velho sacerdote Oferes.

Oferes era, na sua opinião, o homem mais sábio da corte de Selkheamon. Um velhinho de barbas e cabelos brancos que alcançavam a altura do peito. Era visível que no governo do Faraó, ele se tratava da oposição.

O primeiro-ministro e Sumo Sacerdote Hary-Seshta parecia explodir quando contrariado pelo simpático Oferes, que apesar de dócil e pacífico, não deixava suas idéias serem submetidas à pretensa superioridade do Sumo Sacerdote. No entanto sempre acabava vencido pelos outros três sacerdotes do conselho de Amon.

Permanecer trancada no quarto não iria ajudar seus amigos insurgentes, Radja queria encontrar uma saída sem que precisassem matar Selkheamon. Ela acreditava que o faraó fosse um velhinho doente e que Hary-Seshta com algum tipo de sortilégio controlava a todos. A cabeça de Milena não aceitava essa possibilidade, mas Radja pensava dessa forma.

Fora do prédio principal, mas ainda dentro da área do palácio, aos fundos estava o quarto de Oferes. Radja foi até lá, mas não encontrou ninguém, atraída pelo movimento encontrou Neferin, filho de Oferes, trabalhando em seu ateliê.

– Princesa Radja! Que prazer! – Neferin tinha a mesma idade dela e sempre foram grandes amigos, Radja era a fã número um dos trabalhos dele, Neferin era um promissor artesão. O bracelete em ouro que ostentava no braço era obra do jovem.

– Veja no que estou trabalhando – ele mostrou uma imagem de Hórus, o deus-falcão, que estava esculpindo – Depois vou revesti-lo com placas de ouro! Podem dizer que é heresia, mas aqui embaixo – ele mostrou a parte inferior da estátua – tem um compartimento secreto! Um bom esconderijo, não acha?

Radja ignorou o que ele dizia e logo disparou sua pergunta: – Neferin, seu pai já comentou com você como é o Faraó Selkheamon? – foi direta, não precisava de subterfúgios com seu amigo.

Ele imediatamente deixou a imagem de Hórus de lado e fechou a porta do ateliê. – Você já está sabendo então! – ela assentiu positivamente com a cabeça, não demonstrou, mas surpreendeu-se em saber que o sensível Neferin também fazia parte da conspiração. – Meu pai não pode saber de nada Radja, o Sumo Sacerdote Hary-Seshta mataria ele!

Ele baixou mais o tom de voz – Eu descobri, há algum tempo, os escritos de meu pai sobre o Faraó, são coisas terrificantes. Ajudei a organizar esse grupo que se reúne na cabana abandonada. Selkheamon é muito perigoso. Ele está acumulando um material deletério, um tipo de rocha venenosa, metálica e branca. Ele construiu aquela pirâmide como um tipo de depósito. Existem toneladas dessa rocha maldita escondida lá. Ela vale muito de onde ele veio. Somos apenas usados para captar esse recurso, esse falso faraó nos parasita há séculos!

Enquanto Neferin contava mais detalhes sobre o caso Milena pode reconhecê-lo, era Kaled quem estava ali habitando o corpo de Neferin, e obviamente Oferes, seu pai, era o espanhol Jaques Gael, incrivelmente as coisas se fechavam. Num esforço de memória ela soube quem era o maligno Hary-Seshta, e mesmo que não se lembrasse, não seria difícil imaginar que Egmar era novamente o grande vilão, não importava a data, ele conseguiu novamente se superar.

– Essa noite Akhenfis vai matar Selkheamon. Eu vou dar cobertura e Kalil também... – continuou Neferin.

– Hoje? Por que hoje? – ela não estava preparada para ouvir aquilo, de repente sem que ordenasse uma afirmação brotou em sua boca – Eu ajudo no que for preciso!

***

A noite chegou levando completamente a paz da garota. Kalil assim que entrasse no palácio viria ao seu quarto para chamá-la, mas já era madrugada e nem sinal dos três jovens. Neferin, Akhenfis e Kalil era o trio mais conhecido do reino. Desde a infância criados juntos, nunca se separavam, até o dia em que Radja noivou com Akhenfis, destroçando o coração de Kalil que em seguida acabou casando com Hetheres.

Os ouvidos atentos de Radja perceberam uma agitação estranha. Apertou os olhos, como se isso pudesse ajudá-la a ouvir mais claramente. Alguém havia passado correndo pelo piso de mármore do corredor, logo em seguida mais duas pessoas passaram correndo também. Alguma coisa tinha acontecido, e ela sentia-se a margem do episódio.

Devia ter seguido seus instintos, Kalil na certa havia lhe poupado dos perigos, ele sempre fazia isso. A essas horas da madrugada já deviam ter executado o plano. Seu coração quedou-se aflito.

De repente Akhenfis entrou afoito em seu quarto. Ele estava pálido, arquejante e completamente transtornado. Não conseguia dizer nada, não tinha fôlego e nem condições, por isso Radja não fez qualquer pergunta, apenas abraçou-o acolhedoramente, ele refugiou-se em seus braços. Ela não amava o noivo, apenas sentia um enorme carinho por ele.

No corredor agora eram dezenas de pessoas correndo pelo piso barulhento. Certamente o plano havia se cumprido. Pouco tempo depois às cornetas de alerta tocaram vigorosamente. Era o anúncio que alguma coisa havia acontecido com o Faraó.

Akhenfis permanecia atônito, sem qualquer reação, completamente chocado pelo ocorrido. Radja tentou conversar, mas foi inútil, ele permanecia inerte.

Sofreu um novo susto com a entrada fulminante de Neferin no quarto, ele fez com cuidado e rapidez para não ser visto. – Temos que tirá-lo daqui, os guardas viram ele no andar de Selkheamon, sabem que foi ele, e sendo seu noivo eles virão direto aqui procurá-lo. Temos que ser rápidos, as coisas estão perigosas aqui no paço!

Radja não teve tempo de perguntar o que havia acontecido, se o Faraó estava morto de fato. A sacada do quarto que dava para os fundos serviu como rota de fuga, Kalil já esperava lá embaixo.

Assim que os dois levaram Akhenfis, a jovem saiu pelo palácio atrás de informações. O lugar estava um pandemônio, toda a guarda real corria desnorteada. Os outros moradores, da mesma forma seguiam sem rumo pelos corredores.

A voz de Disebek Djau lhe assaltou – Princesa Radja, é melhor que vá para seu quarto, aconteceu uma tragédia! Mataram o Faraó Selkheamon! Nós os Sacerdotes de Amon vamos nos reunir no templo do palácio, logo que as coisas se elucidarem eu mando chamá-la em seus aposentos, agora vá, é perigoso ficar aqui! – Milena confundiu-se, na verdade era a voz de Nikha-Meon, ainda que ele fosse a mais perfeita personificação de Disebek Djau.

Ela fez que concordou com a falsa preocupação do sacerdote. Estava feliz pelo êxito do plano e preocupada com as decisões que o conselho sacerdotal tomaria, sendo o Egmar, ou Hary-Seshta o primeiro ministro as coisas poderiam piorar muito até melhorarem de fato.

Fora dali, o povo vinha de todas as direções e se aglomerava em frente ao palácio. Primeiro as cornetas haviam despertado a atenção, agora era o sentimento de liberdade que sentiam que os impelia até a frente do palácio.

Em pouco tempo já era uma verdadeira multidão que se reunia ali em frente, todos da cidade já tinham vindo, e as cidades vizinhas chegavam em grandes caravanas. De algum modo extraordinário a notícia havia sido sentida por toda região e as pessoas abandonavam tudo imediatamente para irem até o paço. As escavações, as minas, as obras, as plantações, enfim, tudo que eram obrigados a fazer tinha ficado para trás e a marcha só terminava em frente ao palácio do deposto Faraó Selkheamon.

No templo as coisas estavam tensas. Hary-Seshta presidia a reunião. Ele estava completamente encolerizado. Já havia dado ordens de lacrar o quarto de Selkheamon, para que mais ninguém o visse e também ordenou a prisão e execução de Akhenfis, o autor do sacrilégio. Oferes assistia tudo com serenidade. Nikha-Meon, como sempre, imitava as reações de Hary-Seshta.

– O que a gente faz agora? O povo livre não mais acatará as ordens! Maldito Akhenfis devia tê-lo matado quando criança! Era certo que um dia ele lutaria pelo trono. – a ira do Sumo Sacerdote saltava-lhe a veia do pescoço – Mas eu garanto que não será dele a cátedra do Faraó!

– Se Akhenfis morre, Nahgibis, seu irmão mais novo, assume o trono em seu lugar, que diferença fará? – argumentou placidamente Oferes.

– Seja quem for, mas esse assassino não! Isso eu não permitirei!

Seu discurso foi subitamente interrompido por um ruidoso coro vindo da rua. Todos permaneceram em silêncio tentando ouvir o que se passava.

Na rua as milhares de pessoas que se amontoavam em frente ao palácio gritavam por Akhenfis. A comemoração era intensa. O povo festejava a libertação sem precedentes. Na verdade nem sabiam do que tinham sido libertos, mas o sentimento era forte e se extravasava, eles exigiam a presença do salvador. Akhenfis era o novo herói e enviado dos deuses para salvar seu povo. – Akhenfis, Akhenfis, Akhenfis – o coro ia aumentado e cada vez mais e mais vozes iam se somando a multidão.

– Isso não pode ser! – Hary-Seshta abandonou a reunião e saiu desesperado, tentaria controlar a multidão e reverter o quadro, eles não podiam estar cultuando o assassino de Selkheamon. Nikha-Meon o seguiu apressado.

De nada adiantaria as tentativas de Hary-Seshta, o povo já tinha descoberto o paradeiro de Akhenfis e o conduzido em seus braços até o palácio. Hary-Seshta encontrou Akhenfis já no púlpito, que era antes desativado. Era da natureza de Akhenfis liderar as multidões, seu carisma radiava e ele encantava o povo como um líder nato.

Radja ouviu a gritaria e as comemorações, pode escutar de longe o começo do discurso de seu noivo. Nem acreditava que em pouco tempo seria a nova Rainha do Egito. Milena nem em seus mais extravagantes e exagerados sonhos chegou a imaginar que seu passado fosse tão majestoso. Apressou-se, queria logo estar no púlpito, ao lado de Akhenfis.

No corredor acabou trombando com uma jovem serva que carregava um enorme jarro. Era a última surpresa que a história lhe reservava. Sadeh em sua frente, de olhar baixo em respeito a sua autoridade, Milena teve vontade de rir. – Qual é seu nome menina? – perguntou levantando delicadamente o rosto da moça pelo queixo.

– Me chamo Fhara, sou a serva do sacerdote Nikha-Meon, peço desculpas por ter esbarrado na senhora. – ela permaneceu olhando para o chão – Estou levando esse jarro com presentes, para o novo Faraó distribuir ao povo.

Radja achou hilário, não poderia mesmo ser diferente, Sadeh servia a Disebek Djau até mesmo no Egito antigo, e na certa era apaixonada por ele também.

– Deixa isso comigo Fhara – tirou o jarro das mãos dela – eu estou indo encontrar Akhenfis e entrego o jarro a ele. Hoje é dia de festa, o povo foi libertado, vá comemorar com os seus!

A jovem desapareceu no corredor que estava repleto de gente indo e vindo. Agora era a vez da glória. Ela não via a hora de poder, enfim, comemorar o seu final feliz.

No caminho até púlpito Milena se deu por conta que não havia reconhecido quem era Akhenfis, se César era Kalil, quem era Akhenfis? Bem isso pouco importava, ela era a nova Rainha do Egito!

– Você está se sentindo bem?

Neferin é sempre tão preocupado comigo – pensou enquanto voltava seu rosto na direção da voz, mas já não era Neferin, mas sim Kaled quem perguntava.

Milena estava no chão de uma nova galeria, a sua volta César e Sadeh também demonstravam preocupação.

– Amor! Você ficou desacordada quase meia hora – o adjetivo “amor” usado por César foi inusitado –, você apagou dentro do túnel de ventilação!

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