CAPÍTULO 43

Milena sentia-se muito enjoada. O túnel de ventilação tinha despertado algum tipo de memória que ela não ficaria só para si. Contou a César, Kaled e Sadeh tudo que tinha presenciado, afinal eles eram parte fundamental da história.

Foram ouvintes muito atentos e interessados, principalmente César e Kaled, que também tinham tido o mesmo tipo de insight.

–... e foi assim que acabei me tornando a Rainha do Egito! Não é fantástico! – enjôo havia dado lugar a uma enorme empolgação.

César estava visivelmente aborrecido e incomodado com o final da história, o final não era feliz na visão dele.

Kaled interveio intrigado com alguns pontos incoerentes da história. Revelou que também tivera um delírio similar sobre o evento. O indiano contou então em minúcias o que tinha presenciado em seu transe, mas algumas coisas pareciam não combinar com o que Milena tinha acabado de contar.

– Realmente muitas coisas se encaixam, eu era um artesão, me chamavam de Neferin, meu pai Oferes era o Gael, isso tudo combina perfeitamente, mas no sonho que vivenciei as pessoas estavam tristes e não contentes! Não havia comemoração, justamente ao contrário! Uma revolta estava prestes a estourar!

Sadeh parecia constrangida com aquele assunto. Kaled contou que em sua lembrança Disebek Djau tinha assassinado seu pai, alimentando ainda mais o ódio que ele já nutria pelo homem.

César aproveitou que as coisas não estavam se encaixando e contou o que também tinha emergido em sua memória. Relatou tudo detalhadamente, tinham que descobrir a conexão entre as três revelações, cada detalhe poderia ser essencial.

Milena não conteve o ciúme – Hetheres era a Gabrielle e ainda estava grávida!

César riu e deu de ombros ajeitando os óculos no rosto – Você se tornou a Rainha do Egito com o novo Faraó Akhenfis? – se explicou em tom de descontração.

Kaled permanecia concentrado, procurando evidências que levassem a alguma conexão entre os relatos. – Acho que há uma coisa que liga essa três histórias! – as atenções voltaram-se para o jovem – A imagem do deus-falcão Hórus, essa representação mística aparece nos três segmentos! Isso pode nos dar a cronologia real dos fatos!

Milena se martirizou – Como não percebi esse detalhe tão importante! – pensou enraivecida. O indiano tinha toda razão. Na história de Kaled a estátua já estava pronta, na história de Milena ela ainda estava sendo esculpida, e na história de César ela aparecia já em seu casebre.

Concluíram que a cronologia correta seria primeiro a história de Milena, depois a de Kaled e por fim a de César, o que deixava tudo ainda muito incoerente.

– Que diferença isso faz agora, vai mudar alguma coisa saber o que fizemos ou deixamos de fazer em outras vidas? Se é que vocês também não foram picados pelos escorpiões e estão todos delirando impressionados por estarem dentro da primeira pirâmide do mundo! – Sadeh estava realmente perturbada com aquelas histórias, Milena chegou a pensar que ela estava aborrecida pelo fato de ter sido uma simples serva. Mas não seria pra tanto.

– Calma Sadeh, só queremos entender o que aconteceu no passado, isso pode nos ajudar agora de alguma forma! Não vai demorar muito! Logo partiremos! – explicou César.

Kaled concluiu – Depois dessa passagem já deve ser a porta secundária da Câmara da Ressurreição, só queremos saber antes de entrar lá, o que aconteceu nessa outra vida! Se isso realmente for verdadeiro e relevante!

Milena não se conformava, o fim deveria ser com a coroação de Akhenfis e a morte do Faraó vilão, mas agora aquilo perecia ser apenas a primeira parte da história – Ta tudo tão confuso! Por que um dos sacerdotes mataria o Oferes se Selkheamon já estava morto! Até onde me lembrei, o povo estava feliz, comemorando, mas César diz que logo depois o povo estava triste, e até revoltado, e a história de Kaled confirma essa desolação! O que terá havido depois daquele dia em que comemorávamos no púlpito do palácio?

César relembrou passagens de seu sonho: – Gabrielle, ou a Hetheres me disse exatamente assim: “Parece que esqueceu a desgraça que se abateu sobre nosso povo! Começaram ainda a pouco as cerimônias. Vão embalsamar o Faraó”. – Kaled e Milena escutavam novamente o relato de César, Sadeh preferiu afastar-se – Foi aí que uma confusão na rua interrompeu a conversa. Era uma pequena multidão revoltada, eles gritavam coisas, estavam indignados.

Kaled inferiu: – Será que o povo se arrependeu da morte do Faraó? Será que eles queriam depor Akhenfis?

César continuou a contar: – Eu perguntei o que estava acontecendo e Hetheres me disse assim: “Eles exigem justiça, querem ver sangue derramado! Querem acabar com tudo! E você Kalil, vai fazer alguma coisa? Vai tentar impedir novamente?”.

– Não faz sentido algum! – exclamou Milena desanimada. – Acho que Sadeh tem razão, isso deve ter sido apenas uma alucinação!

– Talvez não, antes de Disebek Djau matar meu pai... – Kaled fez uma pequena pausa, Sadeh ao longe bufou –, antes do assassinato, Oferes falou de uma mulher, não de um homem, acho que não era Akhenfis que o povo repudiava! Ele disse aos sacerdotes de Amon mais ou menos assim: “Eu não vou me calar, não posso aceitar o que vocês estão querendo fazer! Nunca vi tamanha heresia, nós estamos aqui para defender a religião, não para escarnecê-la. Já é uma decisão, daqui vou direto a tribuna revelar a verdade ao povo e expiar toda culpa dela! Ela é inocente!”.

Milena sorriu, mas queria chorar, as coisas estavam cada vez piores. César ainda complicou um pouco mais sua mente.

– Meu amor! – novamente César usou o adjetivo que causava rubor em Milena – Você disse que quando estava no túnel pareceu estar presa num sarcófago?

– Claro! Como pude não me ater a isso! – Milena irradiou alegria. – Sim, eu estava presa num sarcófago! Tudo que contei foi uma lembrança que tive, mas eu terminei num sarcófago, não como rainha! Será que morri assim? Como eu fui parar lá se era a Rainha do Egito momentos antes? – sua alegria deu lugar às dúvidas.

– Pelo que entendi, o povo queria a sua cabeça Milena, e não a de Akhenfis, por isso Nikha-Meon matou meu pai, porque ele queria defendê-la de algo! – ponderou Kaled.

– Agora já podemos acreditar que nossas histórias fazem algum sentido, mas ainda não fazemos idéia de como você passou de Rainha do Egito para uma enterrada viva! – concluiu César tomado-a em seus braços.

Eles estavam felizes por encontrarem o fio da meada, mas ainda faltavam muitas peças naquele intrincado quebra-cabeça, e não faziam a menor idéia de como as encontrariam.

– Eu sei o que aconteceu! – a frase de Sadeh veio do fundo da sala e surpreendeu a todos. Esperavam que ela também tivesse tido alguma memória vestigial, mas acreditavam que ela nunca as partilharia com o grupo. – Se eu não for acusada, posso contar o que sei!

Os três cercaram a jovem mostrando grande interesse por suas revelações. Sadeh havia revivido os episódios no mesmo momento em que César, enquanto dormiam descansando, mas não queria, até agora, dividir o que tinha visto.

Os pais de Fhara haviam morrido numa das minas da Cidade Velha exauridos pelo trabalho forçado. A menina tinha oito anos ainda, o que pela lei significava que ela seria sacrificada e enterrada junto com os pais no Vale dos Mortos. O destino da pequena Fhara parecia ter sido duplamente cruel, no entanto ela acabou despertando a compaixão de um menino. Na época o pequeno Neferin conseguiu convencer seus pais a adotarem a pequena e bela Fhara. Oferes, pertencia aos Sacerdotes de Amon, e assim conseguiu contornar a lei e salvar da morte a garota órfã.

Ela foi crescendo em tamanho e beleza, encantando a todos a sua volta. Já adolescente Neferin se viu completamente apaixonado pela jovem Fhara que sentia o mesmo por ele.

A beleza da jovem acabou chamando a atenção de um outro rapaz do palácio. Nikha-Meon encantou-se pela formosura da órfã. Como ela correspondia os sentimentos de Neferin, declinou imediatamente da oferta de Nikha-Meon, que com seu orgulho ferido por ter sido trocado por um artesão jurou vingança.

Em breve Nikha-Meon seria consagrado o novo Sacerdote de Amon, ele era o pupilo dileto de Hary-Seshta, o Sumo Sacerdote de Amon e retentor de grande poder no reinado de Selkheamon. No dia de sua ordenação, como era de costume, o novo sacerdote podia desejar qualquer coisa que o Faraó Selkheamon realizaria de forma pragmática.

Aconteceu o que os jovens Neferin e Fhara haviam previsto. Nikha-Meon pedira por Fhara, mas não como sua esposa e companheira, mas sim como sua serva e amasia.

A lei era clara, Fhara resignou-se novamente com seu destino, para proteger Neferin disse que não sentia mais nada por ele, evitando assim um duelo de morte, e sendo um sacerdote contra um artesão, as coisas ficariam ruins para Neferin, mesmo ele sendo filho do sacerdote Oferes.

Alguns anos passaram e as coisas só pioraram para a jovem. Ela já não era nem a sombra da vistosa egípcia de antes. Sujeitava-se aos desejos de Nikha-Meon que manipulado por Hary-Seshta tornava-se mais cruel e corrupto a cada dia.

O mau de amor de Neferin o tornou um grande artesão. A dor foi seu maior professor, como costumava dizer.

Aquela madrugada as coisas pareciam enfim ter tomado um novo rumo. Com a morte do Faraó Selkheamon tudo mudaria na corte, era provável que o novo Faraó Akhenfis dissolvesse o conselho de Amon, assim ela seria liberta de Nikha-Meon. Pretendia reconquistar Neferin, e finalmente ser feliz, esquecendo de vez o ódio que sentia por Nikha-Meon.

O povo comemorava na rua o fim do domínio de Selkheamon, mas até a substituição do Sacerdotes, ela ainda devia servidão a Nikha-Meon. Ele a chamou em seus aposentos. Antes de Fhara entrar, ela viu sair do quarto um apressado Hary-Seshta, visivelmente transtornado pela vitória de Akhenfis.

***

– Em que posso servi-lo? – questionou Fhara sem entrar no quarto, num tom de voz insolente. Eles sabiam que aquela situação poderia se inverter a qualquer momento.

– Não conte com sua liberdade Fhara, ainda há muita água para correr no nosso sinuoso Nilo! – ele foi até a mesa e tomou em seus braços um jarro grande de barro com uma tampa ricamente ornamentada. – Aqui há alguns presentes para que o nosso novo Faraó ofereça ao povo! Soube que ele está no púlpito discursando!

Ele entregou o jarro que parecia ter somente seu próprio peso. Fhara deu uma discreta sacudida para avaliar o que Nikha-Meon oferecia, mas não conseguiu descobrir.

– Agora vá logo! Vá, vá, vá – enxotou-a dali aos gritos. Nikha-Meon tentava inutilmente parecer bondoso e cordial aos olhos de Akhenfis, mas Fhara sabia que era inútil, o novo Faraó saberia separar muito bem o joio de trigo.

Não foi fácil equilibrar o enorme jarro com as dezenas de pessoas que circulavam pelos corredores. Foi desviar-se de um servo apressado quando deu um encontrão violento com a princesa Radja que quase derrubou os presentes que havia no interior do jarro.

– Qual é seu nome menina? – perguntou Radja levantando pelo queixo o rosto de Fhara.

Ela odiava esse tipo de interpelação, sentia pena no tom de voz dos nobres, e isso lhe enraivecia, ninguém nunca havia se importado com o que ela tinha sofrido nas mãos do seu senhor – Me chamo Fhara, sou a serva do sacerdote Nikha-Meon, peço desculpas por ter esbarrado na senhora! – permaneceu olhando para o chão numa falsa subserviência – Estou levando esse jarro com presentes, para o novo Faraó distribuir ao povo.

– Deixa isso comigo Fhara – Radja tirou o jarro de suas mãos –, eu estou indo encontrar Akhenfis e entrego o jarro a ele. Hoje é dia de festa, o povo foi libertado, vá comemorar com os seus!

Fhara saiu depressa para não desacatar a futura Rainha do Egito. Ela não tinha mais os “seus” para comemorar, a salvação tinha chego com anos de atraso.

Radja seguiu contente até o púlpito. A multidão festejava o novo Faraó com devoção, eles acreditavam que Akhenfis era o enviado dos deuses para reconduzir a civilização egípcia ao caminho certo.

Kalil e Neferin também eram bajulados com honrarias pelo povo, com certeza se tornariam membros do conselho de governo que Akhenfis logo formaria.

Radja se colocou ao lado de seu noivo no oratório, a multidão agora alternava o coro: – Akhenfis, Radja, Akhenfis, Radja, Akhenfis, Radja!

Ela inebriada com tantas horarias quase esqueceu de entregar o jarro a Akhenfis. – Amor, isso é pra você distribuir para o povo.

Imediatamente Akhenfis abriu o jarro e sem olhar em seu interior, enfiou a mão dentro dele para pegar as dádivas, no entanto sentiu em sua mão dentro do jarro uma voraz picada de cobra.

O jovem num impulso tirou a mão imediatamente do jarro e o soltou. No chão o jarro se partiu em pedaços denunciando a terrível áspide em seu interior. O bicho peçonhento exasperado pela situação rastejou-se pelo chão ameaçando novos botes, até cair na direção do povo que em pânico correu para todos os lados, pisoteando-se e causando grande desordem.

O veneno do ofídio era letal e a intoxicação levava a morte em poucos minutos. Akhenfis, impressionado logo caiu de joelhos, fitava os olhos de Radja incrédulo por ela tê-lo envenenado. Suas forças pareciam escoar por seus olhos.

– Amor! – Radja correu em seu socorro – Não fui eu! Eu juro, uma serva me entregou esse jarro, não foi eu! – nesse momento que Radja percebeu de quem eram aqueles olhos. Estava ali, morrendo em seus braços seu ex-noivo Oscar Martins de Alcântara. Ela teve quase certeza que era ele, Oscar não merecia aquele fim.

Já em choque Akhenfis não respondeu aos clamores de Radja que caiu num pranto violento. O corpo de Akhenfis desfalecido em pleno púlpito foi uma imagem muito marcante para todo povo, que mais calmo, após a captura da cobra, voltava a ocupar a frente do palácio.

Um silêncio aterrador tomou conta de tudo. A multidão parecia não acreditar no que via diante de seus olhos. Até o vento pareceu parar de soprar, ouvia-se apenas o choro de Radja ecoando pelo deserto.

Kalil ao ver seu primo morto e sua amada sofrendo tanto correu para o palácio, queria abraçá-la e tirá-la de lá o quanto antes.

O silêncio foi quebrado pelo grito de uma mulher no meio do povo: – Foi ela quem matou nosso novo Faraó! Assassina! Ela que o matou! – o povo permaneceu em silêncio. Radja suspendeu o choro e levantou-se para ver quem a acusava. – Isso mesmo, foi você que preparou essa cilada para o nosso salvador! – a mesma mulher grávida vociferava na multidão, Radja reconheceu Hetheres, era a mulher de Kalil quem a acusava e incitava a multidão.

Uma segunda voz no povo se levantou concordando com Hetheres, logo uma terceira fez o mesmo, depois uma quarta, em pouco tempo toda a multidão se voltava contra a princesa.

Kalil previu que isso pudesse acontecer e já quase alcançava o púlpito para tirar Radja da execração pública. Antes de entrar nos aposentos que dava acesso ao oratório, Kalil ouviu uma conversa entre o sacerdote Nikha-Meon e o Sumo Sacerdote Hary-Seshta. Eles comemoravam a morte de Akhenfis e acabaram confessando que o ardil da cobra no jarro foi um plano do próprio Hary-Seshta.

– Então foram vocês! – Kalil agiu sem pensar, uma quentura cruzou-lhe o corpo e quando viu já estava cara a cara com os sacerdotes.

Os dois se surpreenderam com a presença de Kalil, mas não demonstraram preocupação. – Guardas! – Hary-Seshta bramiu e logo foi atendido.

Três homens fardados entraram prontamente no aposento. – Guardava esses homens para prender Radja, mas vejo que terão outra utilidade também! – Hary-Seshta mantinha um ar de superioridade, estava tudo sob seu controle. Dirigiu-se aos guardas – Levem esse parasita daqui, joguem ele no deserto para servir de comida aos chacais!

As ordens foram imediatamente acatadas. Eles arrastaram Kalil pelos corredores, por sorte Oferes passava apressado, ia ao púlpito ajudar Radja a pedido de Neferin. Kalil, mesmo sendo arrastado conseguiu denunciar a verdade sobre o atentado ao velho Oferes.

O povo exigia a execução de Radja por alta traição. Ninguém acreditou em suas justificativas, já que a serva Fhara não apareceu para confirmar o caso. O governador temporário do reino, era o Sumo Sacerdote, e ele já havia condenado Radja a morte.

Sadeh ficou muito constrangida ao contar a história, tomando a culpa de Fhara para si. Foi com os olhos encharcados que ela terminou seu relato.

Permaneceram em silêncio. Redefiniram a cronologia concluindo que a história de Kaled viria depois daquilo, quando Oferes resolveu defender Radja e foi morto por Nikha-Meon.

– Isso explica a morte do meu pai – exclamou Kaled.

– Isso explica o que eu fazia perdido no deserto. – continuou César.

– Isso explica por que eu estava presa num sarcófago! – concluiu Milena.

– Eu só vi até ai, não sei o que houve depois, sinto muito por não ter aparecido e com meu testemunho ter salvado você Milena! – Sadeh ainda mantinha lágrimas nos olhos.

Kaled inquietou-se – Será que tudo terminou assim? Não posso acreditar!

César empurrou os óculos nariz acima. – Acho que não! Quando eu, ou melhor, quando Kalil voltou do deserto ele encontrou a imagem de Hórus no casebre, certamente o você Kaled, ou melhor, o Neferin lhe presenteou com a imagem e nela havia, suponho, um recado no compartimento secreto, sem dúvida eles tentariam salvar Radja!

Milena concordou com César, tudo pareceu fazer certo sentido.

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