A viagem estava atrasada em mais de dois dias. Mesmo com a grande influência de Ciro a locação do helicóptero estava muito truncada. Totila e Rômulo preocuparam-se com a demora, afinal Estela já começava a impacientar-se com a falta de resultados.
A temerária tempestade de areia havia danificado o helicóptero e o piloto se recusava a voltar àquela terra amaldiçoada. Depois do conserto do aparelho a dificuldade foi encontrar um piloto que se dispusesse a fazer a rota até a pirâmide. Apesar da demora a empresa conseguiu arranjar quem os levasse.
O piloto substituto era um tipo estranho e de pouco assunto, só apareceu no heliponto na hora da partida, deixando por conta da firma as verificações técnicas necessárias. O faro de investigador de Ciro chegou a apontar algum problema com aquele homem, mas, preferiu cortejar Totila a assuntar com o pobre piloto. O faro de repórter de Totila não percebeu problema algum. Rômulo não tinha faro nenhum.
As coordenadas estavam certas, depois de tanta demora o helicóptero enfim chegava à afamada pirâmide do Faraó Desconhecido.
O vento ainda soprava mais forte que o normal. Eles haviam pousado a poucos metros da base da pirâmide, próximos a outra aeronave, essa derrubada e quase soterrada pela força do vento que ainda arrastava grossas nuvens de areia rente ao chão.
– Você nos espera aqui – ordenou Ciro ao piloto –, nós vamos entrar nessa pirâmide, mas logo em seguida devemos voltar. Vá tentando estabelecer contato via rádio com sua base, possivelmente precisaremos chamar a polícia, mas por enquanto não chame ninguém, não faça nada sem minha autorização expressa!
– Essa pirâmide é devastadora! – exclamou Totila quase apopléctica, Rômulo permaneceu calado e com semblante pensativo, estava muito sugestionado com as palavras premonitórias que a cigana havia lhe dito no passado, sentiu uma forte emoção em estar ali, a vultuosidade daquela obra era realmente incontestável e imponderável.
Ciro os conduziu com seu jeito desembaraçado até a pirâmide e em pouco tempo encontrou a passagem que os levaria ao interior do monumento. Ele agia quase como se já conhecesse o lugar, no afã daquele momento ninguém perceberia qualquer coisa estranha.
Depois de passarem pelo primeiro corredor, escarpado e estreito, encontraram a Grande Câmara com a estátua gigantesca do Faraó com o rosto escondido pela mascara egípcia. Totila ficou exaustivamente deslumbrada, Ciro mesmo que achasse aquilo tudo fantástico não demonstraria, e Rômulo permanecia circunspeto, apenas observando.
Muitas galerias a frente estava o pequeno grupo de Milena. Tanto tempo naquelas condições adversas deveria tê-los deixados completamente esgotados, no entanto a energia de seus corpos era constantemente renovada pela capacidade restauradora que a pirâmide emanava. Milena percebeu que eram continuamente restabelecidos e já começava mesmo em segredo, a acreditar que Egmar poderia dar nova vida a uma criatura espetacular, afinal de contas tudo estava sendo absolutamente inexplicável.
Kaled interrompeu a expedição que seguia em um silêncio contemplativo. – Chegamos pessoal! Atrás dessa parede está a porta secreta da Câmara da Ressurreição, o outro grupo deve ter seguido pelo caminho normal, só quem esteve na construção dessa pirâmide sabe desse atalho, de alguma forma eu já estive aqui! – Kaled apontou para uma parede comum no fundo da galeria em que tinham chegado.
– Como assim Kaled? Só se fossemos nossos fantasmas para atravessar essa parede! – resmungou Milena ironicamente.
Kaled preferiu não responder, foi até a parede e começou a empurrar algumas rochas específicas. Embora fosse o mais forte do grupo precisou da ajuda de todos. Sem qualquer comentário os outros três uniram-se a ele.
Algumas pedras começaram a soltar. Continuaram a empurrar com mais força ainda, algumas delas estavam sobrepostas especialmente soltas e algum tempo sob pressão começaram a ceder. Acabaram sucumbindo ao chão. Uma pequena fenda aberta na parede se revelou. Empurram algumas rochas e puxaram outras.
A passagem era na verdade uma pequena frincha que deu acesso a um corredor. Esse atalho era de fato quase impossível de ser descoberto.
Novamente sentiram aquele ar abafado, quase nauseante de algo que lembrava o cheiro de mofo. A iluminação era precária e um sem-número de insetos cobria quase todo chão.
Kaled foi à frente e livrou-se das teias de aranha que atrapalhavam o caminho, seguiram entusiasmados pelo corredor abafado e estreito. Logo ao fim do corredor encontraram uma enorme porta. Nunca tinham visto algo assim, uma porta em ouro intacta e ricamente trabalhada. Milena teve a impressão que ela era idêntica a que viu quando foi picada pelo escorpião negro.
A porta estava ornamentada com hieróglifos. Ideogramas e representações incrustados com pedras preciosas verdadeiras. Jóias e cetros imbuídos com um requinte inigualável. Uma verdadeira obra de arte egípcia.
Analisaram cuidadosamente aquele tesouro que deveria valer muito dinheiro, tanto por suas características físicas quanto pelas históricas. Na verdade não demonstravam muito interesse pelo valor comercial, mas sim pela riqueza da arte egípcia que ali estava retrata em seu esplendor, certamente Neferin deveria ter trabalhado nela há milênios atrás.
Havia dois blocos de pedra salientes, uma de cada lado da porta, eram ornamentos visivelmente destacados. As inscrições sobre eles revelavam de que maneira os blocos deveriam ser empurrados para não acionar nenhuma armadilha. Executando o procedimento correto a porta seria destravada sem grandes problemas.
Milena saltou a frente de todos – Não empurrem a pedra da direita! Ela aciona uma armadilha mortal! – a jornalista tinha certeza que a alucinação provocada pelo escorpião era um aviso premonitório.
César riu – Sim Lena, aqui diz claramente que as duas pedras devem ser empurradas juntas! – explicou traduzindo com facilidade o ideograma acima das pedras. Depois das revelações sobre o passado no Egito Antigo ele encontrava grande habilidade em ler os hieróglifos daquela época, como se parte de uma memória vestigial tivesse submergido de seu inconsciente.
– Se essa porta abre a famosa Câmara da Ressurreição, por que precisavam tanto da chave de Anúbis? – ponderou Milena desviando as atenções de seu inútil comentário anterior.
Kaled explicou que aquela porta era na verdade um tipo de saída de emergência, algo não oficial e altamente protegido, ninguém sabia daquele acesso, a não ser os últimos artesões que ao lacrarem a câmara tiveram que sair por ali. Era um prodígio muito conveniente Kaled saber daquilo.
Imediatamente a explicação, Sadeh e Kaled, cada um numa das pedras, foram as empurrando simultaneamente e deslocando-as com força para dentro da parede. Após a tarefa concluída esperaram seu efeito, que não demorou. As pedras empurradas tinham liberado contrapesos que destravaram a porta da câmara.
A impenetrável Câmara da Ressurreição estava de portas abertas para César, Milena, Sadeh e Kaled, mas para a pirâmide quem entrava ali era Kalil, Radja, Fhara e Neferin.
Ao entrarem, respeitosamente, na câmara ficaram completamente sem fala diante do que viam. Todo tesouro do Faraó Selkheamon estava magnificamente exposto. A Câmara era um Santuário ricamente decorado, havia estátuas de deusas guardiãs primorosamente esculpidas. Jóias fantásticas, peitorais e amuletos de ouro, contas, espelhos de prata, anéis e colares, rubis e ainda os antídotos e soros para venenos das serpentes e das armadilhas, diamantes, ídolos, efígies, ícones; enfim toda a suntuosa riqueza acumulada por séculos pelo Faraó, sem dúvida os egípcios dominavam significantemente a arte de ourivesaria.
Entre alguns móveis luxuosos, o maravilhoso trono de ouro de Selkheamon, vasos de alabastro, cetros, arcos e flechas, leques de plumas de avestruz, além de outros diversos itens que não reconheciam a utilidade completamente.
No centro exato da câmara havia um altar especialmente decorado, em cima dele repousava solene um enorme sarcófago dourado, feito de quartzita amarela, o “Esquife da Ressurgência”, como era denominado nos hieróglifos, ainda esperava o dia em que poriam a múmia do Faraó em seu interior. Perpendicular ao sarcófago, precisamente acima dele, a cerca de vinte metros ficava o cume da pirâmide.
No ápice da câmara havia um suporte onde se encaixaria a Pedra Apical, o poderoso cristal potencializador da energia piezelétrica, o afamado e controverso arremate da pirâmide. Uma ferramenta extensa de madeira, resguardada num dos cantos, serviria para colocar encaixado o cristal em seu devido lugar.
Dos dois lados do altar no centro, havia dois poços tão profundos que quase não se enxergaria o fundo deles, senão fosse pelo movimento nervoso das serpentes que ferviam lá embaixo. O lendário Poço das Serpentes, também conhecido como 'as serpentes do inferno' era o último mecanismo de defesa da câmara, só se podia chegar ao altar com o sarcófago redentor pela cabeceira ou pelos pés.
No Egito Antigo era natural o convivo com as serpentes já que elas infestavam as margens do Rio Nilo, algumas dividades também eram ligadas a elas, mas somente o sobrenatural conseguiu explicar como ainda estavam vivas ali aquelas serpentes depois de tanto tempo passado. Para Milena isso era o de menos e não tão difícil de acreditar, ela tremeu só de olhar para os poços que pareciam sugar as coisas a sua volta com uma força gravitacional diferente, mas isso era só impressão da assustada jornalista.
– Então chegamos quase juntos! Fantástico!
Todos foram pegos de surpresa, estavam absorvidos com a suntuosidade do lugar, inebriados pelos tesouros do Faraó e nem perceberam Gabrielle surgindo de uma ante-sala por aonde se chegava pela entrada principal. – Eu vago há dias nesse inferno!
Milena conteve-se para não voar no pescoço dela, afinal, de certo modo, ficaram reféns de Egmar por culpa de Gabrielle, Milena lembrou ainda da voz daquela mulher no meio da multidão chamando-a de assassina, Hetheres tinha incitado o povo contra Radja.
Gabrielle estava sozinha e empunhava uma pequena pistola, o rebelde que a acompanhava tinha morrido numa armadilha há poucas horas atrás. Assim como eles, ela também estava em plenitude absoluta. A pirâmide havia restaurado suas energias e a deixou ainda mais bela e exuberante, o que irritou novamente Milena.
– Estava prestes a desistir da busca, mas num golpe de sorte encontrei a câmara! – Gabrielle detinha grande aptidão para gerenciar aquele tipo de situação. Logo os quatro reféns estavam sentados no chão, num canto da Câmara.
Além da ambição e do ódio por Wild, agora também tinha uma outra motivação, que só ao entrar na pirâmide tinha se revelado. – Quella storia è fantastica! É mesmo incrível as voltas que nossa vida dá para que cheguemos a um determinado ponto! Minha alma sempre ansiou por vingança, minha vida se ergueu sob esse sentimento! Mia anima desiderò per vendetta! Só não sabia que eram marcas mais profundas, bem mais profundas! Não foi só o Wild quem me traiu e que merece meu ódio!
Kalil mal tinha voltado do deserto e ainda se recuperava do ataque dos chacais quando um mensageiro do palácio entregou-lhe um presente enviado por Neferin, o próprio artesão não viera pessoalmente, pois havia um guarda de sentinela a porta do casebre e todos os amigos de Radja estavam sob vigia.
Hetheres observava tudo à distância. Desde que ela havia incitado o povo contra a princesa Radja, Kalil sequer a olhava, só não a tinha expulsado de casa por estar grávida, e por sorte Radja havia conseguido escapar da guarda real. A princesa não conseguiria esconder-se por muito mais tempo, o povo todo estava contra ela, era impossível ocultar-se com todos a procurando.
Num primeiro momento Kalil estranhou o presente, mas logo que viu a rica imagem do deus-falção folhada a ouro entendeu do que se tratava. Embaixo da estatueta havia um compartimento secreto onde Neferin escondera um papiro indicando o esconderijo de Radja. Ela precisava de ajuda, no entanto Kalil era um prisioneiro domiciliar. O casebre só tinha a porta da frente, onde estava o guarda.
Hetheres tinha visto Kalil lendo a mensagem recôndita no compartimento secreto, não foi difícil imaginar do que se tratava, dispensou o guarda e dissimulou o sono de gestante, ela desejava imperiosamente entregar a princesa ao Sumo Sacerdote.
O plano da jovem funcionou com precisão. Tão logo que o guarda se afastou ela fingiu dormir, Kalil saiu em segredo para ajudar Radja. Hetheres o seguiu, até a recém construída pirâmide.
Avisou o sumo sacerdote Hary-Seshta e juntos invadiram a pirâmide. Nikha-Meon, como sempre, seguia seu mestre.
Neferin e Radja esperavam aflitos na Câmara da Ressurreição por Kalil, o embalsamamento do Faraó ainda não estava findo, o processo de mumificação levava alguns meses. Eles esperavam que Kalil tivesse alguma idéia, os melhores planos sempre vinham dele, e ela tinha esperança de que arrumassem um modo de salvá-la daquela terrível confusão.
Com a morte de Akhenfis, Kalil tinha novamente esperanças a respeito do amor de Radja, mas Hetheres ainda impedia a felicidade dos dois. O reencontro dele com a princesa foi sincero e comovente, eles sabiam que o amor dos dois dificilmente teria um final feliz.
O momento foi interrompido por um barulho inesperado, Neferin ouviu vozes se aproximando rapidamente da câmara. – É a voz de Hary-Seshta e Nikha-Meon, eles estão vindo pra cá! – concluiu o jovem depois de breve avaliação.
A notícia os pegou de surpresa, não teriam tempo de se fugir. Deram prioridade para o esconderijo de Radja.
O esconderijo mais óbvio e único possível foi imediatamente repudiado por Radja, mas embora ela se recusasse a princípio, em seguida cedeu a pressão dos acontecimentos.
Com todo cuidado e muito asco, ela subiu no altar onde estava o sarcófago de Selkheamon. Mesmo nunca tendo sido usado, mesmo sabendo que aquele sarcófago era simbólico e só seria usado no dia da ressurreição, Radja estava em pânico. Acomodou-se lá dentro com o coração batendo descompassado. Antes que Neferin e Kalil fechassem o esquife, Radja com os olhos lacrimejados disse de forma quase inaudível – Eu sempre te amei muito Kalil... – a última imagem que Radja tinha visto foi o preocupado rosto do jovem. Fecharam o esquife com cuidado para não trancá-lo.
Mal tiveram tempo de se afastar do sarcófago e do poço das serpentes quando entraram urgentes na câmara Hary-Seshta e Nikha-Meon, acompanhados por Heheres, e mais quatro oficiais da guarda real.
Kalil não pode acreditar no que via. Novamente sua esposa tinha denunciado Radja. Senão fosse pela gravidez Kalil esqueceria do compromisso que assumira com ela, e quiçá a matasse com as próprias mãos tamanho seu ódio.
– Mas só vejo esses dois infelizes aqui! – confabulou Hary-Seshta com seu pupilo Nikha-Meon.
– Não, mas eu tenho certeza! Ela deve estar escondida em algum lugar! – adiantou-se Hetheres, garantindo a presença de Radja na pirâmide.
– Cala essa boca Hetheres, você não sabe do que está falando! – bramiu Kalil exasperado.
Nikha-Meon olhou-a com desprezo – Você viu a princesa Radja com eles, plebéia? – Hetheres permaneceu calada – Vamos, diga se viu ou somente pensou que eles estivessem com ela?
– Não cheguei a vê-la... – a voz de Hetheres foi sumindo frente à fragilidade de seu argumento embasado em suposições –,... mas o que mais esses dois fariam aqui na pirâmide? – ela estava convencida da presença de Radja, mesmo que ninguém lhe desse ouvidos.
– Tempo perdido! Tempo perdido! – Hary-Seshta estava possesso com o alarme falso. – Guardas! Levem esses indigentes daqui, quero que reforcem a entrada dessa maldita pirâmide. A cerimônia de enterro do Selkheamon será em uma semana, até lá quero dar segurança aos tesouros do Faraó que serão lacrados com ele!
A ordem foi acatada imediatamente, os guardas agarraram Kalil e Neferin expulsando-os da pirâmide. Hetheres se demorou um pouco mais, na verdade ela sabia, ou imaginava, onde Radja tinha se escondido. O constante olhar de Kalil para o Esquife da Ressurgência havia chamado atenção.
Tão logo a câmara voltou a ficar vazia, Hetheres tranqüilamente desviou-se com cuidado do poço das serpentes e aos pés do sarcófago, esticando seu braço ao máximo conseguiu travar a tampa do esquife. Sendo o ataúde muito bem confeccionado seria impossível que a tranca cedesse, mesmo sob grande pressão.
Radja estava atenta aos movimento no exterior do esquife e sentiu o sangue gelar quando depois de um período de silêncio ouviu a barulho do sarcófago sendo trancado.
Ela estava praticamente enterrada viva. A escuridão, o aperto, o ar escasseando, aquela terrível sensação. Tentou acalmar os nervos, se debater só acabaria com o oxigênio mais depressa ainda, no entanto era impossível não entrar em pânico naquela situação, ela tinha ouvido que a cerimônia seria somente em uma semana, e isso era tempo demais para esperar por socorro.
Radja gritou, esmurrou, sacudiu, enfim, exauriu todas as forças tentando se libertar, mas ao contrário, quase conseguiu desequilibrar o esquife, fazendo com que por pouco não caísse no poço das serpentes.
Hetheres permaneceu satisfeita ouvindo os gritos apavorados de sua rival. Ela tinha um sorriso de prazer em seus lábios, demonstrando a frieza e a maldade de sua alma. Sua alegria, no entanto foi substituída pelo espanto, alguém subitamente entrou na câmara, a pirâmide servia de esconderijo para mais alguém.
Fhara, a serva de Nikha-Meon, entrou na câmara, estava visivelmente abatida, mas seus passos firmes demonstravam uma outra intenção.
– Fhara, você aqui? Seu senhor Nikha-Meon está a sua procura – Hetheres tentou transpassar uma falsa tranqüilidade. – Parece que seu nome foi envolvido no escândalo do assassinato de Selkheamon! Logo vão querer interrogá-la!
– Maldita Fhara! Porque não apareceu e contou a verdade, foi você quem me entregou o jarro com a serpente! – pensou Radja dentro do esquife crispando os punhos com raiva.
– Eu estou escondida aqui desde que mataram o Faraó, estava com medo, sou apenas uma serva, com certeza a culpa recairia sobre mim! – Fhara usava um tom de voz forte, diferente do habitual – Hoje eu vi Neferin aqui na pirâmide, lembrei de tudo que ele e Oferes fizeram por mim quando meus pais morreram, só então me dei conta que nunca poderei conviver com isso... – a jovem encheu os pulmões de ar e coragem, ainda assim sua voz saiu trêmula pela emoção – Eu jurei a mim mesma que vou resolver isso! Não é justo a princesa Radja pagar pelo assassinato! Quero que Neferin tenha orgulho de ter salvado minha vida. Hoje mesmo vou a tribuna revelar toda verdade!
A declaração de Fhara pareceu açoitar a felicidade de Hetheres. Se a verdade viesse à tona Radja continuaria a ser um fantasma em seu casamento, e ela não poderia continuar por muito mais tempo sustentando a mentira de sua falsa gravidez. Hetheres tinha pouco tempo para reverter àquela situação.
– Você tem razão, também não poderei conviver com isso! Venha até aqui Fhara, me ajude a destrancar o esquife. Tenho a impressão que Radja está aqui dentro! – Fhara não percebeu a dissimulação na voz de Hetheres, que tentava atraí-la para o poço das serpentes.
Inocentemente a jovem foi ajudar, com a barriga que Hetheres ostentava seria um risco equilibrar-se tão próxima ao poço.
Assim que Fhara deu as costas a Hetheres e esticou-se se equilibrando em apenas uma perna para alcançar a tranca do ataúde, agilmente a falsa grávida aproximou-se e num movimento ardiloso, rápido e brusco, calçou a perna de Fhara que já estava quase desequilibrada. Foi inevitável a queda no poço das serpentes. Antes de chegar ao fundo ainda bateu a cabeça na orla do poço, caindo desfalecida em seu interior.
A rasteira de Hetheres tinha sido certeira, sem chances de Fhara esquivar-se. Ela aproximou-se ainda mais do Esquife da Ressurgência e do poço a fim de acompanhar o ataque voraz das serpentes.
No entanto a Câmara da Ressurreição estava especial e definitivamente movimentada aquele dia, mais alguém surgiu à porta, interrompendo a contemplação de Hetheres.
A presença daquela pessoa desconcertou o ar de vitória que retornara a sua fisionomia, sua voz embargou-se, novamente alguém lhe tirava abruptamente o sorriso do rosto – Você? Então você voltou! Está ai há muito tempo?
Hetheres estava intimidada, não esperava ser interrompida novamente, tinha para si que a pirâmide já estivesse vazia. No entanto estava enganada e alguém tinha presenciado tudo que tinha feito com Fhara.
O olhar da testemunha era altamente reprovador, Hetheres certamente estava numa má situação.
– E - eu posso explicar! As coisas não foram bem assim! – a voz de Hetheres vacilava. Quando a pessoa deu um passo em sua direção, ela instintivamente recuou um passo, e assim fez novamente quando outro passo foi dado.
Hetheres tinha esquecido que estava tão próxima do poço, ao recuar o terceiro passo foi inevitável que se desequilibrasse. Ficou por alguns segundos ali, movendo os braços em todas as direções no afã de re-equilibrar-se, poderia ter sido resgatada, mas não foi da vontade de seu interlocutor salvá-la.
Diferente de Fhara, ela atingiu o fundo poço ainda consciente, e pode sentir a fúria das serpentes e seus botes mortais perfurando sua pele.
O piloto substituto era um tipo estranho e de pouco assunto, só apareceu no heliponto na hora da partida, deixando por conta da firma as verificações técnicas necessárias. O faro de investigador de Ciro chegou a apontar algum problema com aquele homem, mas, preferiu cortejar Totila a assuntar com o pobre piloto. O faro de repórter de Totila não percebeu problema algum. Rômulo não tinha faro nenhum.
As coordenadas estavam certas, depois de tanta demora o helicóptero enfim chegava à afamada pirâmide do Faraó Desconhecido.O vento ainda soprava mais forte que o normal. Eles haviam pousado a poucos metros da base da pirâmide, próximos a outra aeronave, essa derrubada e quase soterrada pela força do vento que ainda arrastava grossas nuvens de areia rente ao chão.
– Você nos espera aqui – ordenou Ciro ao piloto –, nós vamos entrar nessa pirâmide, mas logo em seguida devemos voltar. Vá tentando estabelecer contato via rádio com sua base, possivelmente precisaremos chamar a polícia, mas por enquanto não chame ninguém, não faça nada sem minha autorização expressa!
– Essa pirâmide é devastadora! – exclamou Totila quase apopléctica, Rômulo permaneceu calado e com semblante pensativo, estava muito sugestionado com as palavras premonitórias que a cigana havia lhe dito no passado, sentiu uma forte emoção em estar ali, a vultuosidade daquela obra era realmente incontestável e imponderável.
Ciro os conduziu com seu jeito desembaraçado até a pirâmide e em pouco tempo encontrou a passagem que os levaria ao interior do monumento. Ele agia quase como se já conhecesse o lugar, no afã daquele momento ninguém perceberia qualquer coisa estranha.
Depois de passarem pelo primeiro corredor, escarpado e estreito, encontraram a Grande Câmara com a estátua gigantesca do Faraó com o rosto escondido pela mascara egípcia. Totila ficou exaustivamente deslumbrada, Ciro mesmo que achasse aquilo tudo fantástico não demonstraria, e Rômulo permanecia circunspeto, apenas observando.
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Muitas galerias a frente estava o pequeno grupo de Milena. Tanto tempo naquelas condições adversas deveria tê-los deixados completamente esgotados, no entanto a energia de seus corpos era constantemente renovada pela capacidade restauradora que a pirâmide emanava. Milena percebeu que eram continuamente restabelecidos e já começava mesmo em segredo, a acreditar que Egmar poderia dar nova vida a uma criatura espetacular, afinal de contas tudo estava sendo absolutamente inexplicável.
Kaled interrompeu a expedição que seguia em um silêncio contemplativo. – Chegamos pessoal! Atrás dessa parede está a porta secreta da Câmara da Ressurreição, o outro grupo deve ter seguido pelo caminho normal, só quem esteve na construção dessa pirâmide sabe desse atalho, de alguma forma eu já estive aqui! – Kaled apontou para uma parede comum no fundo da galeria em que tinham chegado.
– Como assim Kaled? Só se fossemos nossos fantasmas para atravessar essa parede! – resmungou Milena ironicamente.
Kaled preferiu não responder, foi até a parede e começou a empurrar algumas rochas específicas. Embora fosse o mais forte do grupo precisou da ajuda de todos. Sem qualquer comentário os outros três uniram-se a ele.
Algumas pedras começaram a soltar. Continuaram a empurrar com mais força ainda, algumas delas estavam sobrepostas especialmente soltas e algum tempo sob pressão começaram a ceder. Acabaram sucumbindo ao chão. Uma pequena fenda aberta na parede se revelou. Empurram algumas rochas e puxaram outras.
A passagem era na verdade uma pequena frincha que deu acesso a um corredor. Esse atalho era de fato quase impossível de ser descoberto.Novamente sentiram aquele ar abafado, quase nauseante de algo que lembrava o cheiro de mofo. A iluminação era precária e um sem-número de insetos cobria quase todo chão.
Kaled foi à frente e livrou-se das teias de aranha que atrapalhavam o caminho, seguiram entusiasmados pelo corredor abafado e estreito. Logo ao fim do corredor encontraram uma enorme porta. Nunca tinham visto algo assim, uma porta em ouro intacta e ricamente trabalhada. Milena teve a impressão que ela era idêntica a que viu quando foi picada pelo escorpião negro.
A porta estava ornamentada com hieróglifos. Ideogramas e representações incrustados com pedras preciosas verdadeiras. Jóias e cetros imbuídos com um requinte inigualável. Uma verdadeira obra de arte egípcia.
Analisaram cuidadosamente aquele tesouro que deveria valer muito dinheiro, tanto por suas características físicas quanto pelas históricas. Na verdade não demonstravam muito interesse pelo valor comercial, mas sim pela riqueza da arte egípcia que ali estava retrata em seu esplendor, certamente Neferin deveria ter trabalhado nela há milênios atrás.Havia dois blocos de pedra salientes, uma de cada lado da porta, eram ornamentos visivelmente destacados. As inscrições sobre eles revelavam de que maneira os blocos deveriam ser empurrados para não acionar nenhuma armadilha. Executando o procedimento correto a porta seria destravada sem grandes problemas.
Milena saltou a frente de todos – Não empurrem a pedra da direita! Ela aciona uma armadilha mortal! – a jornalista tinha certeza que a alucinação provocada pelo escorpião era um aviso premonitório.
César riu – Sim Lena, aqui diz claramente que as duas pedras devem ser empurradas juntas! – explicou traduzindo com facilidade o ideograma acima das pedras. Depois das revelações sobre o passado no Egito Antigo ele encontrava grande habilidade em ler os hieróglifos daquela época, como se parte de uma memória vestigial tivesse submergido de seu inconsciente.
– Se essa porta abre a famosa Câmara da Ressurreição, por que precisavam tanto da chave de Anúbis? – ponderou Milena desviando as atenções de seu inútil comentário anterior.
Kaled explicou que aquela porta era na verdade um tipo de saída de emergência, algo não oficial e altamente protegido, ninguém sabia daquele acesso, a não ser os últimos artesões que ao lacrarem a câmara tiveram que sair por ali. Era um prodígio muito conveniente Kaled saber daquilo.
Imediatamente a explicação, Sadeh e Kaled, cada um numa das pedras, foram as empurrando simultaneamente e deslocando-as com força para dentro da parede. Após a tarefa concluída esperaram seu efeito, que não demorou. As pedras empurradas tinham liberado contrapesos que destravaram a porta da câmara.
A impenetrável Câmara da Ressurreição estava de portas abertas para César, Milena, Sadeh e Kaled, mas para a pirâmide quem entrava ali era Kalil, Radja, Fhara e Neferin.
Ao entrarem, respeitosamente, na câmara ficaram completamente sem fala diante do que viam. Todo tesouro do Faraó Selkheamon estava magnificamente exposto. A Câmara era um Santuário ricamente decorado, havia estátuas de deusas guardiãs primorosamente esculpidas. Jóias fantásticas, peitorais e amuletos de ouro, contas, espelhos de prata, anéis e colares, rubis e ainda os antídotos e soros para venenos das serpentes e das armadilhas, diamantes, ídolos, efígies, ícones; enfim toda a suntuosa riqueza acumulada por séculos pelo Faraó, sem dúvida os egípcios dominavam significantemente a arte de ourivesaria.
Entre alguns móveis luxuosos, o maravilhoso trono de ouro de Selkheamon, vasos de alabastro, cetros, arcos e flechas, leques de plumas de avestruz, além de outros diversos itens que não reconheciam a utilidade completamente.
No centro exato da câmara havia um altar especialmente decorado, em cima dele repousava solene um enorme sarcófago dourado, feito de quartzita amarela, o “Esquife da Ressurgência”, como era denominado nos hieróglifos, ainda esperava o dia em que poriam a múmia do Faraó em seu interior. Perpendicular ao sarcófago, precisamente acima dele, a cerca de vinte metros ficava o cume da pirâmide.
No ápice da câmara havia um suporte onde se encaixaria a Pedra Apical, o poderoso cristal potencializador da energia piezelétrica, o afamado e controverso arremate da pirâmide. Uma ferramenta extensa de madeira, resguardada num dos cantos, serviria para colocar encaixado o cristal em seu devido lugar.
Dos dois lados do altar no centro, havia dois poços tão profundos que quase não se enxergaria o fundo deles, senão fosse pelo movimento nervoso das serpentes que ferviam lá embaixo. O lendário Poço das Serpentes, também conhecido como 'as serpentes do inferno' era o último mecanismo de defesa da câmara, só se podia chegar ao altar com o sarcófago redentor pela cabeceira ou pelos pés.No Egito Antigo era natural o convivo com as serpentes já que elas infestavam as margens do Rio Nilo, algumas dividades também eram ligadas a elas, mas somente o sobrenatural conseguiu explicar como ainda estavam vivas ali aquelas serpentes depois de tanto tempo passado. Para Milena isso era o de menos e não tão difícil de acreditar, ela tremeu só de olhar para os poços que pareciam sugar as coisas a sua volta com uma força gravitacional diferente, mas isso era só impressão da assustada jornalista.
– Então chegamos quase juntos! Fantástico!
Todos foram pegos de surpresa, estavam absorvidos com a suntuosidade do lugar, inebriados pelos tesouros do Faraó e nem perceberam Gabrielle surgindo de uma ante-sala por aonde se chegava pela entrada principal. – Eu vago há dias nesse inferno!
Milena conteve-se para não voar no pescoço dela, afinal, de certo modo, ficaram reféns de Egmar por culpa de Gabrielle, Milena lembrou ainda da voz daquela mulher no meio da multidão chamando-a de assassina, Hetheres tinha incitado o povo contra Radja.
Gabrielle estava sozinha e empunhava uma pequena pistola, o rebelde que a acompanhava tinha morrido numa armadilha há poucas horas atrás. Assim como eles, ela também estava em plenitude absoluta. A pirâmide havia restaurado suas energias e a deixou ainda mais bela e exuberante, o que irritou novamente Milena.
– Estava prestes a desistir da busca, mas num golpe de sorte encontrei a câmara! – Gabrielle detinha grande aptidão para gerenciar aquele tipo de situação. Logo os quatro reféns estavam sentados no chão, num canto da Câmara.
Além da ambição e do ódio por Wild, agora também tinha uma outra motivação, que só ao entrar na pirâmide tinha se revelado. – Quella storia è fantastica! É mesmo incrível as voltas que nossa vida dá para que cheguemos a um determinado ponto! Minha alma sempre ansiou por vingança, minha vida se ergueu sob esse sentimento! Mia anima desiderò per vendetta! Só não sabia que eram marcas mais profundas, bem mais profundas! Não foi só o Wild quem me traiu e que merece meu ódio!
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Kalil mal tinha voltado do deserto e ainda se recuperava do ataque dos chacais quando um mensageiro do palácio entregou-lhe um presente enviado por Neferin, o próprio artesão não viera pessoalmente, pois havia um guarda de sentinela a porta do casebre e todos os amigos de Radja estavam sob vigia.
Hetheres observava tudo à distância. Desde que ela havia incitado o povo contra a princesa Radja, Kalil sequer a olhava, só não a tinha expulsado de casa por estar grávida, e por sorte Radja havia conseguido escapar da guarda real. A princesa não conseguiria esconder-se por muito mais tempo, o povo todo estava contra ela, era impossível ocultar-se com todos a procurando.
Num primeiro momento Kalil estranhou o presente, mas logo que viu a rica imagem do deus-falção folhada a ouro entendeu do que se tratava. Embaixo da estatueta havia um compartimento secreto onde Neferin escondera um papiro indicando o esconderijo de Radja. Ela precisava de ajuda, no entanto Kalil era um prisioneiro domiciliar. O casebre só tinha a porta da frente, onde estava o guarda.
Hetheres tinha visto Kalil lendo a mensagem recôndita no compartimento secreto, não foi difícil imaginar do que se tratava, dispensou o guarda e dissimulou o sono de gestante, ela desejava imperiosamente entregar a princesa ao Sumo Sacerdote.
O plano da jovem funcionou com precisão. Tão logo que o guarda se afastou ela fingiu dormir, Kalil saiu em segredo para ajudar Radja. Hetheres o seguiu, até a recém construída pirâmide.
Avisou o sumo sacerdote Hary-Seshta e juntos invadiram a pirâmide. Nikha-Meon, como sempre, seguia seu mestre.Neferin e Radja esperavam aflitos na Câmara da Ressurreição por Kalil, o embalsamamento do Faraó ainda não estava findo, o processo de mumificação levava alguns meses. Eles esperavam que Kalil tivesse alguma idéia, os melhores planos sempre vinham dele, e ela tinha esperança de que arrumassem um modo de salvá-la daquela terrível confusão.
Com a morte de Akhenfis, Kalil tinha novamente esperanças a respeito do amor de Radja, mas Hetheres ainda impedia a felicidade dos dois. O reencontro dele com a princesa foi sincero e comovente, eles sabiam que o amor dos dois dificilmente teria um final feliz.
O momento foi interrompido por um barulho inesperado, Neferin ouviu vozes se aproximando rapidamente da câmara. – É a voz de Hary-Seshta e Nikha-Meon, eles estão vindo pra cá! – concluiu o jovem depois de breve avaliação.
A notícia os pegou de surpresa, não teriam tempo de se fugir. Deram prioridade para o esconderijo de Radja.
O esconderijo mais óbvio e único possível foi imediatamente repudiado por Radja, mas embora ela se recusasse a princípio, em seguida cedeu a pressão dos acontecimentos.
Com todo cuidado e muito asco, ela subiu no altar onde estava o sarcófago de Selkheamon. Mesmo nunca tendo sido usado, mesmo sabendo que aquele sarcófago era simbólico e só seria usado no dia da ressurreição, Radja estava em pânico. Acomodou-se lá dentro com o coração batendo descompassado. Antes que Neferin e Kalil fechassem o esquife, Radja com os olhos lacrimejados disse de forma quase inaudível – Eu sempre te amei muito Kalil... – a última imagem que Radja tinha visto foi o preocupado rosto do jovem. Fecharam o esquife com cuidado para não trancá-lo.Mal tiveram tempo de se afastar do sarcófago e do poço das serpentes quando entraram urgentes na câmara Hary-Seshta e Nikha-Meon, acompanhados por Heheres, e mais quatro oficiais da guarda real.
Kalil não pode acreditar no que via. Novamente sua esposa tinha denunciado Radja. Senão fosse pela gravidez Kalil esqueceria do compromisso que assumira com ela, e quiçá a matasse com as próprias mãos tamanho seu ódio.
– Mas só vejo esses dois infelizes aqui! – confabulou Hary-Seshta com seu pupilo Nikha-Meon.
– Não, mas eu tenho certeza! Ela deve estar escondida em algum lugar! – adiantou-se Hetheres, garantindo a presença de Radja na pirâmide.
– Cala essa boca Hetheres, você não sabe do que está falando! – bramiu Kalil exasperado.
Nikha-Meon olhou-a com desprezo – Você viu a princesa Radja com eles, plebéia? – Hetheres permaneceu calada – Vamos, diga se viu ou somente pensou que eles estivessem com ela?
– Não cheguei a vê-la... – a voz de Hetheres foi sumindo frente à fragilidade de seu argumento embasado em suposições –,... mas o que mais esses dois fariam aqui na pirâmide? – ela estava convencida da presença de Radja, mesmo que ninguém lhe desse ouvidos.
– Tempo perdido! Tempo perdido! – Hary-Seshta estava possesso com o alarme falso. – Guardas! Levem esses indigentes daqui, quero que reforcem a entrada dessa maldita pirâmide. A cerimônia de enterro do Selkheamon será em uma semana, até lá quero dar segurança aos tesouros do Faraó que serão lacrados com ele!
A ordem foi acatada imediatamente, os guardas agarraram Kalil e Neferin expulsando-os da pirâmide. Hetheres se demorou um pouco mais, na verdade ela sabia, ou imaginava, onde Radja tinha se escondido. O constante olhar de Kalil para o Esquife da Ressurgência havia chamado atenção.
Tão logo a câmara voltou a ficar vazia, Hetheres tranqüilamente desviou-se com cuidado do poço das serpentes e aos pés do sarcófago, esticando seu braço ao máximo conseguiu travar a tampa do esquife. Sendo o ataúde muito bem confeccionado seria impossível que a tranca cedesse, mesmo sob grande pressão.
Radja estava atenta aos movimento no exterior do esquife e sentiu o sangue gelar quando depois de um período de silêncio ouviu a barulho do sarcófago sendo trancado.
Ela estava praticamente enterrada viva. A escuridão, o aperto, o ar escasseando, aquela terrível sensação. Tentou acalmar os nervos, se debater só acabaria com o oxigênio mais depressa ainda, no entanto era impossível não entrar em pânico naquela situação, ela tinha ouvido que a cerimônia seria somente em uma semana, e isso era tempo demais para esperar por socorro.
Radja gritou, esmurrou, sacudiu, enfim, exauriu todas as forças tentando se libertar, mas ao contrário, quase conseguiu desequilibrar o esquife, fazendo com que por pouco não caísse no poço das serpentes.
Hetheres permaneceu satisfeita ouvindo os gritos apavorados de sua rival. Ela tinha um sorriso de prazer em seus lábios, demonstrando a frieza e a maldade de sua alma. Sua alegria, no entanto foi substituída pelo espanto, alguém subitamente entrou na câmara, a pirâmide servia de esconderijo para mais alguém.
Fhara, a serva de Nikha-Meon, entrou na câmara, estava visivelmente abatida, mas seus passos firmes demonstravam uma outra intenção.
– Fhara, você aqui? Seu senhor Nikha-Meon está a sua procura – Hetheres tentou transpassar uma falsa tranqüilidade. – Parece que seu nome foi envolvido no escândalo do assassinato de Selkheamon! Logo vão querer interrogá-la!
– Maldita Fhara! Porque não apareceu e contou a verdade, foi você quem me entregou o jarro com a serpente! – pensou Radja dentro do esquife crispando os punhos com raiva.
– Eu estou escondida aqui desde que mataram o Faraó, estava com medo, sou apenas uma serva, com certeza a culpa recairia sobre mim! – Fhara usava um tom de voz forte, diferente do habitual – Hoje eu vi Neferin aqui na pirâmide, lembrei de tudo que ele e Oferes fizeram por mim quando meus pais morreram, só então me dei conta que nunca poderei conviver com isso... – a jovem encheu os pulmões de ar e coragem, ainda assim sua voz saiu trêmula pela emoção – Eu jurei a mim mesma que vou resolver isso! Não é justo a princesa Radja pagar pelo assassinato! Quero que Neferin tenha orgulho de ter salvado minha vida. Hoje mesmo vou a tribuna revelar toda verdade!
A declaração de Fhara pareceu açoitar a felicidade de Hetheres. Se a verdade viesse à tona Radja continuaria a ser um fantasma em seu casamento, e ela não poderia continuar por muito mais tempo sustentando a mentira de sua falsa gravidez. Hetheres tinha pouco tempo para reverter àquela situação.
– Você tem razão, também não poderei conviver com isso! Venha até aqui Fhara, me ajude a destrancar o esquife. Tenho a impressão que Radja está aqui dentro! – Fhara não percebeu a dissimulação na voz de Hetheres, que tentava atraí-la para o poço das serpentes.
Inocentemente a jovem foi ajudar, com a barriga que Hetheres ostentava seria um risco equilibrar-se tão próxima ao poço.
Assim que Fhara deu as costas a Hetheres e esticou-se se equilibrando em apenas uma perna para alcançar a tranca do ataúde, agilmente a falsa grávida aproximou-se e num movimento ardiloso, rápido e brusco, calçou a perna de Fhara que já estava quase desequilibrada. Foi inevitável a queda no poço das serpentes. Antes de chegar ao fundo ainda bateu a cabeça na orla do poço, caindo desfalecida em seu interior.A rasteira de Hetheres tinha sido certeira, sem chances de Fhara esquivar-se. Ela aproximou-se ainda mais do Esquife da Ressurgência e do poço a fim de acompanhar o ataque voraz das serpentes.
No entanto a Câmara da Ressurreição estava especial e definitivamente movimentada aquele dia, mais alguém surgiu à porta, interrompendo a contemplação de Hetheres.
A presença daquela pessoa desconcertou o ar de vitória que retornara a sua fisionomia, sua voz embargou-se, novamente alguém lhe tirava abruptamente o sorriso do rosto – Você? Então você voltou! Está ai há muito tempo?
Hetheres estava intimidada, não esperava ser interrompida novamente, tinha para si que a pirâmide já estivesse vazia. No entanto estava enganada e alguém tinha presenciado tudo que tinha feito com Fhara.
O olhar da testemunha era altamente reprovador, Hetheres certamente estava numa má situação.
– E - eu posso explicar! As coisas não foram bem assim! – a voz de Hetheres vacilava. Quando a pessoa deu um passo em sua direção, ela instintivamente recuou um passo, e assim fez novamente quando outro passo foi dado.
Hetheres tinha esquecido que estava tão próxima do poço, ao recuar o terceiro passo foi inevitável que se desequilibrasse. Ficou por alguns segundos ali, movendo os braços em todas as direções no afã de re-equilibrar-se, poderia ter sido resgatada, mas não foi da vontade de seu interlocutor salvá-la.
Diferente de Fhara, ela atingiu o fundo poço ainda consciente, e pode sentir a fúria das serpentes e seus botes mortais perfurando sua pele.
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