CAPÍTULO 45

Gabrielle era não só movida pela vaidade do reconhecimento renegado, mas também pelo sentimento de ódio que submergira de seu passado. A confusão em sua cabeça era compreensível, se sua vida tivesse sido diferentes ela não acabaria daquela forma.

Os reféns estavam conscientes que logo o efêmero reinado de Gabrielle chegaria ao fim, não tardaria a entrada de Egmar e Disebek Djau, eles precisavam apenas esperar e conservar suas vidas até lá.

Gabrielle apontou a arma na direção de Kaled – Você nativo! Agora vá até a outra galeria e traga aqui a múmia do tal faraó, o esquife ficou aqui perto! Finalmente veremos se essa Câmara da Ressurreição funciona mesmo!

Kaled antes de obedecer às ordens da italiana procurou a aprovação de César e Milena que consentiram com o olhar.

O esquife com a múmia estava numa galeria próxima dali, aonde o rebelde morto numa armadilha o havia deixado. Kaled era forte o bastante para arrastar sozinho a múmia até a galeria.

Obrigado por Gabrielle César ajustou o cristal no cume da pirâmide com a ajuda de uma ferramenta extensa de madeira similar ao chaduf, um instrumento de elevação que os egípcios usavam na construção das pirâmides.

Ele encaixou a Pedra Apical cuidando rigorosamente os símbolos e seus pontos cardeais correspondentes.
Kaled deixou o sarcófago com a múmia próximo do Esquife da Ressurgência, ao lado do poço das serpentes. Ele esperou novas ordens de Gabrielle, que parecia ter muita cautela no ritual, já que agia mais por instinto do que por conhecimento de causa.

Já estava quase tudo pronto. A pedra estava no arremate da pirâmide, a Câmara tinha sido aberta pela chave de Anúbis, a tempestade solar estava ainda em seu ápice e o corpo do Faraó estava pronto para ser colocado no esquife. Gabrielle conferiu tudo novamente, ela parecia se concentrar antes do começo da cerimônia, estava visivelmente tomada pelas lembranças de seu pai.

Num gesto com a mão ordenou que Kaled pusesse o corpo mumificado do humanóide no esquife em cima do altar central.

Kaled cumpria as ordens placidamente, no entanto ao abrir o tampo do sarcófago para transportar a múmia o jovem, assim como Sadeh mais ao longe, se estarreceu ao ver do que de fato se tratava a múmia de Selkheamon.

Milena mesmo já sabendo, ainda não tinha visto o corpo subumano da criatura. Sua reação não foi diferente da dos outros, era realmente impressionante o que viam, o elemento singular estava completamente íntegro, em perfeitas condições. Seus olhos negros assustadoramente oblíquos, ainda que sem vida eram ladinos e aterrorizantes.

Tinha um pouco mais de um metro e meio e sua pele mesmo mumificada parecia com uma borracha acinzentada com aspecto macio e viscoso. Isso demonstrava que a dessecação da criatura era muito diferente das humanas. – Será mesmo uma fraude? Parece tão real. – pensou Milena atenta a tudo.

Antes que Kaled cumprisse a ordem e repousasse a múmia no Esquife da Ressurgência aconteceu o que Milena e César previam e esperavam. Voluptuosamente adentraram a câmara Egmar e Disebek Djau, acompanhados por dois rebeldes armados.

Milena soube que não era exatamente a cavalaria, mas pelo menos eles teriam nova chance de fugir, a confusão poderia abrir uma brecha para isso, ela só não contava com os dois rebeldes que estavam muito atentos ao que se passava. O grupo sentado no canto da câmara assistia a tudo como meros espectadores.

A impetuosidade da entrada do grupo assustou Gabrielle que estava próxima a abertura do fosso das serpentes. Ela virou-se rapidamente para ver quem invadia a câmara, o gesto rápido acabou gerando uma estranha tontura que a deixou zonza e desequilibrada.

Gabrielle tinha esquecido que estava tão próxima das serpentes, e recuou o corpo chegando perigosamente a beira do fosso. Outra breve privação de sentidos a desequilibrou completamente, ela ficou por alguns segundos ali, movendo os braços em todas as direções tentando recobrar o equilíbrio. Tudo aconteceu em uma fração de segundos, mas Gabrielle pode reconhecer a cena que se repetia com ela. Já não sabia mais quem estava ali na beira da morte, se era ela ou se era Hetheres.

Diferente da outra vez, Gabrielle conseguiu recobrar o prumo. Aliviada respirou profundamente por não ter sido vítima da mesma morte novamente. Alívio que não durou muito tempo, pouco depois Gabrielle estava no fundo daquele buraco sendo devorada pelas serpentes venenosas.

Foi o impacto do tiro que lançou o corpo de Gabrielle ao fundo do fosso. Ela caiu ainda consciente, e pode sentir a fúria das serpentes e seus botes mortais lacerando sua pele e o que sentia não era uma sensação inédita.

Mesmo tentando negar, Milena sentiu-se mais tranqüila com a morte da italiana. Era menos um bandido naquele quadro complicado que estava pintado a sua frente. Gabrielle era muito bem treinada e perigosa, o melhor para todos, sem dúvida, foi a sua morte. O professor Wild já havia sido morto pela própria pirâmide e certamente Milena revelaria ao mundo que a descoberta da pirâmide era um mérito de Giuseppe Bianucci, que assim a alma errante de Gabrielle encontrasse um caminho de luz.

César, Milena, Kaled e Sadeh permaneceram sentados no chão num dos cantos da câmara procurando não serem tomados por Egmar. Dali eles assistiriam privilegiadamente o que acontecia dentro de toda sala.

- Vocês novamente! – Egmar voltou sua atenção para César e Milena que eram vigiados de perto por Disebek Djau. Milena pode verificar a pequena ampola que o homem trazia amarrada ao pescoço. O vírus T-rh5 estava ainda inócuo mas era um perigo latente que nem mesmo Egmar sabia.

Egmar estava visivelmente bem humorado e com um aspecto vitorioso. – Demorou, mas eu consegui reunir todos aqui novamente! – ele olhou mais intensamente para Milena – Agora sim, talvez você possa entender o porquê fiz questão que você viesse cobrir esse caso pessoalmente! Está sendo tudo como me foi revelado!

Egmar fez uma referência ao que tinha se passado há milhares de anos atrás, e sobre a revelação que o oráculo havia lhe feito já em suas primeiras visitas ao Manancial. Foi uma surpresa descobrir que Egmar sabia há muito mais tempo sobre os fatos que para maioria dos envolvidos tinha vindo à tona recentemente. Muita coisa era parte de uma coincidência incomum, mas outras coincidências tinham sido fabricadas por Egmar.

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