O barulho do tiro que acertou Gabrielle reverberou pelas paredes e percorreu boa parte da pirâmide. Não muito longe da Câmara da Ressurreição Totila, Ciro e Rômulo ouviram o estampido do disparo.
– O que foi isso? Parece o som de um tiro! – Totila fez questão de dizer o óbvio. Rômulo permanecia calado tentando não sentir raiva da japonesa axiomática.
– Vamos logo, o barulho veio por aqui! – Ciro apressou o passo e seguiu por um corredor ascendente. A experiência policial de Ciro ajudada pelos rastros deixados o guiou certeiramente. Como um cão farejador ele acertava o caminho com precisão.
Depois de algum tempo andando rapidamente pela pirâmide chegaram a ante-sala da Câmara da Ressurreição. Ciro fez um sinal com a mão pedindo que Rômulo e Totila parassem e fizessem silêncio atrás dele, quis observar oculto o que se passava lá dentro.
Ciro usou um tom de voz baixo: – Muita calma agora, eles são perigosos. Temos que surpreendê-los! – Ciro sacou um revólver calibre 38 que trazia na cintura. Rômulo e Totila ficaram tensos com a situação inédita e perigosa. Trêmula a japonesa suou como nunca em sua vida.
Dentro da Câmara Egmar verificava os últimos detalhes para dar início ao processo de ressurreição. O cristal já estava encaixado no ápice da pirâmide e parecia ter acumulado energia o suficiente. Assim que o Esquife da Ressurgência fosse ocupado, automaticamente começaria a atividade na câmara.
Somente Disebek Djau percebeu a agitação na ante-sala, ele estava atento como se já esperasse que algo fosse acontecer a qualquer momento.
Assim como Egmar que havia entrado na câmara causando grande impacto, Ciro fez o mesmo, logo seguido da tímida presença de Rômulo e Totila.
– Parem tudo que estão fazendo aqui! – ordenou Ciro com a voz alta e forte, impondo autoridade e apontando a arma para Egmar.
A exceção de Disebek Djau, todos foram tomados de assalto. Ainda que se parecesse com uma reprise a cena de alguém entrando e mudando os rumos da história, ninguém imaginava que fosse acontecer novamente.
Nada mais surpreenderia Milena, mas ainda conseguio se estarrecer com os acontecimentos. Ela mal podia acreditar no que via, estava perplexa ao ver Totila na pirâmide,. A presença deles pareceu-lhe a salvação.
Totila deu um sorriso nervoso para a amiga, mas permaneceu ao lado de Ciro até que as coisas fossem devidamente resolvidas. César também ficou surpreso com a entrada inesperada daquelas pessoas. Reconheceu Rômulo e Totila, já tinha os visto em coquetéis na casa de Estela Campos, a editora da Co-Fator, no mesmo instante entendeu quem era o verdadeiro agente duplo da Co-fator e da Vis-à-Vis: a japonesa insossa!
Depois da surpresa, Milena e César identificaram mais um personagem do passado. Os olhos de Rômulo não deixavam dúvidas, mesmo a princípio tendo o confundido com Oscar, agora tinham certeza. Rômulo era sem dúvida a personificação de Akhenfis, o príncipe morto pela serpente em pleno púlpito. A maneira que Rômulo se portava denunciou que ele também já tinha tido a revelação de sua morte trágica no passado, o pobre homem estava abalado e sem entender quase nada.
Levou mais algum tempo, mas sincronicamente César e Milena reconheceram outra pessoa, e não era ninguém que vinha de outra vida.
Ciro, o policial que agora dominava a cena era o mesmo homem que os tinha perseguido nos subterrâneos do Inlab. Antes que pudessem perguntar algo, Egmar tomou a frente.
– O que significa isso? Quem é você? – mesmo intimidado não mudou o tom de voz, sua arma estava na cintura e ele pensou ainda ter o controle da situação.
Egmar fez um sinal para que Disebek Djau fizesse alguma coisa, no entanto Disebek Djau calmamente foi até Egmar e o desarmou. A situação perdia completamente o sentido para os espectadores. Disebek Djau tinha desarmado seu patrão.
Egmar era o mais surpreso de todos, ele levou algum tempo até entender que Disebek Djau estava deliberadamente ajudando o homem que o ameaçava.
Mesmo Totila e Rômulo que acompanhavam Ciro estavam sem entender o que se passava. Disebek Djau fez reféns Egmar, Totila e Rômulo que passaram a fazer companhia aos outros sentados no chão ao fundo da câmara.
– Agora quem dá as ordens aqui sou eu! – Ciro tinha deixado a falsa cordialidade que usara para se aproximar de Totila. Desta vez ele agia como um chefe de quadrilha, e Disebek Djau era seu cúmplice.
– O que você faz aqui? Você não faz parte disso, nós somos um grupo fechado! – Egmar mesmo dominado pelos acontecimentos mantinha a pose e a língua afiada, fez novamente referência ao episódio da morte do faraó no passado. Ciro não pertencia ao grupo de reencarnados que Egmar tanto defendia.
– Você tem razão Egmar, minha história é bem mais recente que a de vocês, o que não me impede de acreditar! – agora era Ciro que esbanjava bom humor e o mesmo ar de vitória que antes Egmar usava.
– Disebek Djau, você me traiu! Traiu a história e a lealdade que nos liga a outras vidas! – Egmar tentou resgatar a fidelidade que Disebek Djau tinha como seu pupilo no Egito Antigo, mas a falta de caráter do homem era mais forte que seu instinto de lealdade herdado.
Ciro abraçou Disebek Djau cumprimentando o parceiro eficiente – Nessa vida ele é MEU sócio! Sem esse cara eu não seria ninguém, é meu braço direito! Somos sócios há... o quê? – ele confirmou a data com Disebek Djau – Sete anos? É isso!
A história que Ciro havia contado a Totila não era completamente genuína. Ciro Dahfik foi o mais famoso e eficiente investigador da polícia do Cairo e realmente tinha deixado à corporação, e não por vontade própria.
Hamed Saul, parceiro de Ciro na polícia havia descoberto que o próprio Ciro era o chefe da maior quadrilha de tráfico de drogas e contrabando do Egito.
Na época Disebek Djau, que trabalhava com ele, estava no Brasil articulando um novo braço do tráfico e procurando consortes graúdos da América do Sul.
No Egito o cerco apertou em torno à quadrilha de Ciro, quando finalmente Hamed ia desarticular o bando, Ciro em fuga acabou sofrendo um grave acidente de carro onde, Nahmbira, sua esposa, ficou gravemente ferida e acabou morrendo mais tarde. Ciro jamais se conformou com a culpa pelo ocorrido com sua mulher. O caso de tráfico acabou sendo abafado, mas ele foi desligado oficialmente da corporação.
Quando Disebek Djau soube do acidente de Nahmbira e do desbaratamento da quadrilha, voltou imediatamente, ele tinha boas notícias vindas do Brasil e queria rearticular seus negócios.
Disebek Djau tinha conhecido no Brasil um outro grande contrabandista, Egmar Martins de Alcântara. Logo se tornaram grandes parceiros, mesmo porque Egmar, já alertado em sessões particulares no Manancial e ciente de sua vida pregressa, reconheceu em Disebek Djau o seu cúmplice de outrora. Para Egmar, completamente cego pelas descobertas das reencarnações, esse foi o sinal de que toda a história se encaixava perfeitamente, e passou assim a confiar cegamente em seu novo parceiro.
Disebek Djau achou toda aquela história de reencarnação e ressurreição uma grande besteira, mas interessou-se profundamente pelo tesouro do Faraó e a possibilidade de voltar ao Egito muito bem custeado.
Ciro ao pôr-se a par das lendas da pirâmide do Faraó Desconhecido contadas pelo sócio, e entusiasmou-se imediatamente. Era sua chance de se redimir ante sua esposa que ainda estava no hospital vivendo com o auxílio de máquinas. Na noite em que a morte cerebral foi diagnosticada, Ciro pôs em prática seu plano.
Não foi difícil retirar do hospital com discrição o corpo de Nahmbira, ele tinha muita gente lhe devendo favores do seu tempo como policial. Desde então passou a conservar o corpo de Nahmbira em criogenia, até que descobrissem os itens necessários para a ativação da Câmara da Ressurreição. A idéia parecia-lhe também muito surreal, mas era uma tentativa, sua última tentativa.
Naqueles dias apesar da pirâmide ter sido descoberta os pesquisadores não encontravam a múmia do Faraó, aquela nova pirâmide era extremamente complexa. Então Ciro e Disebek Djau fraudaram a descoberta da múmia para que Egmar fosse pressionado a liberar mais verbas e encontrar mais rapidamente os outros itens faltantes. Eles usaram uma múmia qualquer roubada de um museu para se passar pelo Faraó Desconhecido, o truque funcionou magnificamente, todos acreditaram na falsa múmia. Com essa descoberta Egmar motivou-se na busca da Pedra Apical e da Chave de Anúbis.
Mesmo com as verbas extras levaram ainda alguns anos até que encontrassem os outros dois apetrechos, nesse meio tempo, por sorte acabaram encontrando o verdadeiro sarcófago do Faraó Desconhecido. Quando a múmia falsa saiu de Brasil e voltou para o Cairo, antes do congresso, Ciro e Disebek Djau substituíram a peça falsa pela verdadeira.
Como Milena e César descobriram a troca das múmias e poriam tudo a perder, Ciro tentou matá-los no Inlab, mesmo que agora o esquife verdadeiro estivesse em poder de Egmar.
Agora isso não fazia mais diferença, a espera de anos estava enfim prestes a acabar e Ciro teria de volta sua esposa em todo esplendor de sua juventude. Ele não desperdiçaria aquela oportunidade trazendo a vida uma criatura humanóide em detrimento a vida de sua esposa, Ciro cria no poder da pirâmide tanto ou mais que Egmar e estava disposto a usar esse poder em Nahmbira.
A caixa grande que havia chegado no acampamento há alguns dias era o corpo de Nahmbira. Disebek Djau já o tinha enviado para pirâmide, ele estava escondido ali mesmo na câmara num outro canto, ocultado pelos tesouros.
Quando Ciro se preparava para deixar o Cairo e ir até a pirâmide executar seu plano foi surpreendido por Totila e Rômulo e para não despertar suspeitas levou com ele os dois.
Disebek Djau descobrio o caixão térmico, especialmente desenvolvido para Nahmbira, Ciro estava realizado com a possibilidade que vislumbrava.
– Aquela caixa César, é a que vimos os rebeldes carregando quando viemos pela primeira vez na pirâmide, lembra? – sussurrou Milena, César lembrou do ocorrido e assentiu com a cabeça sem tirar os olhos do que acontecia no salão. Sadeh e Kaled também já tinham visto aquela caixa circulando pelo acampamento.
Egmar assistia aquilo tudo com os olhos chispados de ódio, certamente eram os piores momentos de sua vida.
A mulher estava realmente muito bem preservada, se não fosse pela palidez e pelos efeitos da criogenia, poderiam dizer que ela repousava num sono tranqüilo. Disebek Djau ajudado pelo rebelde, que antes servia a Egmar, depositou o cadáver de Nahmbira dentro do Esquife da Ressurgência, os processos começariam imediatamente.
César cochichou ao ouvido de Milena, eles aproveitariam a confusão para a fuga, mas Kaled não pretendia deixar o lugar sem antes cumprir o juramento e ver Disebek Djau morto.
Disebek Djau fechou cuidadosamente o Esquife da Ressurgência. Todos fitavam a cena assombrados.
– Como eu imaginava! Não aconteceu nada! – cochichou Milena a César de maneira cética.
Foi como se as palavras de Milena despertasse a Pirâmide de um sono profundo. Um pequeno tremor sacudiu a todos levemente. A sensação que César teve era exatamente essa, como se a pirâmide estivesse acordando após milênios de espera, despertando aos poucos e de mau humor.
Um zunido estranho chamou a atenção para o cristal no alto da câmara, era o zunido da vibração que ele estava sofrendo. Logo sua translucidez foi variando suavemente em outras cores. Ele passou gradativamente de um branco transparente para um laranja intenso, quase vermelho, e continuava cada vez mais emitindo o zunido vibratório.
A pirâmide voltou repetidas vezes a tremer, cada vez um pouco mais forte, causando assim a queda de alguns tesouros expostos na câmara. Caiam também pelas frestas das rochas densas nuvens de poeira e areia.
A sala foi ficando cada vez mais clara, a partir do centro e espalhando-se por todos os cantos. Tudo ia acontecendo simultaneamente. Logo a luz ficou tão intensa e branca que era quase impossível permanecer com os olhos abertos sem a proteção das mãos, no entanto ninguém ousava desviar o olhar do esquife que parecia também se iluminar, refletindo a coluna de luz mais densa que incidia sobre ele.
Todos podiam sentir o campo de energia que se formava a partir do cristal e ia absorvendo tudo a sua volta. Primeiro sentiram os pelos do braço levantando pela força elétrica do campo, logo sentiam por toda pele uma estranha sensação que parecia fazer uma suave cócega e um formigamento leve.
A luz que tomava todo o lugar por vezes piscava fortemente, como em relâmpagos ou flashs, cegando-os ainda mais. A vibração que agora parecia ser ressonada por todas as paredes da pirâmide causou em todos um intenso relaxamento muscular, sentiam uma dormência leve e confortável por todo corpo.
Milena estava quase em transe quando foi desperta por César indicando que era hora de partirem, ele chamou Sadeh também. Os outros pareciam hipnotizados com o fenômeno e não perceberiam a fuga, exceto Totila, que esperou um tempo e os seguiu, ela não ficaria ali.
A pirâmide inteira estava com aquele clima estranho, como a Câmara da Ressurreição estava no centro exato dela, tudo que acontecesse lá seria sentido em todos os lugares.
A fuga não chegou a ser percebida por ninguém, mesmo a pirâmide sendo freqüentemente sacudida eles conseguiram se afastar com certa segurança.
– Vamos ficar aqui até isso acabar, pode ser perigoso continuarmos agora, alguma rocha pode se soltar e cair sobre nós. – César parecia realmente preocupado com a estabilidade física da pirâmide que constantemente arrebatada por aquela energia.
– Venham por aqui! – Sadeh os levou até uma espécie de esconderijo, exatamente onde Fhara tinha se escondido dentro da pirâmide. – Foi aqui que eu fiquei escondida há alguns milhões de anos! – brincou.
– Esperem por mim! – Totila surgiu atrás deles, todos se abrigaram no esconderijo indicado por Sadeh.
Milena desejava mesmo ficar frente a frente com a amiga. – O que você e o seu namorado fazem aqui? Que ligação vocês tem com esse Ciro Dahfik? – Milena sabia que o Sr. Morales mandaria Totila, mas a presença de Rômulo e Ciro era inexplicável.
– Vamos Totila, conte para Milena o que você faz aqui! Conte de onde nos conhecemos e quem na verdade trabalha para Estela Campos! – César tiraria de suas costas a culpa que ele não tinha. Ele imaginava a ligação de Estela com Totila, e o acordo que as duas tinham sobre troca de informações.
Totila ficou completamente sem graça, Milena nunca tinha visto a amiga assim – Bem eu... sabe como é Lena, era a oportunidade da minha vida! E esse Ciro me enganou! Eu posso explicar tudo...
Os tremores e a onda de energia continuaram ainda por algum tempo, depois disso puderam sentir nitidamente a queda repentina das vibrações e a retração do campo de energia.
Milena estava impressionada com o descaramento de Totila, elas eram amigas há mais de cinco anos e Milena nunca poderia imaginar que Totila pudesse prejudicá-la daquela maneira. Sentiu-se ainda mais culpada por ter repudiado César por tanto tempo e por não ter dado ouvidos a ele quando contou ainda no hotel que era inocente.
Aquele último golpe fez com que Milena quisesse sair ainda mais depressa dos domínios de Selkheamon, queria ficar longe daquilo tudo para poder por em ordem seus pensamentos e discernir tudo que via e ouvia desde que deixara o Brasil, embora já não tivesse mais dúvidas sobre o caráter fraco da amiga.
Foi dela o ímpeto de deixarem o esconderijo e prosseguirem na fuga, no entanto antes de alcançarem novamente o corredor principal um barulho chamou-lhes a atenção. Não era nenhuma descarga elétrica, como tinham ouvido antes, agora se tratava de mais um disparo de arma de fogo. Logo em seguida ouviram mais outros dois disparos.
– Meu Deus! O Kaled está lá! – a preocupação de Sadeh era a mesma de César e Milena, o jovem indiano tinha permanecido na câmara.
– Será que a ressurreição funcionou? – César mais que preocupado estava curioso com o fim do processo na câmara.
Totila num fio de voz tentou inserir-se: – O que está acontecendo lá? O que foi aquele show devastador de pirotecnia? Alguém pode me explicar?
– Eu explico tudo minha jovem! – a voz surgiu do fundo do corredor, Egmar havia os reencontrado.
Novamente Egmar estava com sua arma em punho e outra vez com o ar de vitória estampado no rosto. Ele tinha voltado para buscá-los, pretendia dar continuidade ao seu projeto e pelo visto a platéia era fundamental.
Milena sentiu-se numa máquina do tempo, acabou voltando para a câmara de onde tinha escapado há poucos minutos, ela já estava no limite, não agüentaria mais a pressão daqueles acontecimentos. Estava a um passo de uma crise nervosa, seu corpo tremia quase sem controle, nunca teve antes um ataque como aquele que se aproximava.
Ao entrarem na câmara tiveram idéia do que havia acontecido. Os três corpos estirados no chão davam a noção da tragédia.
Kaled esperava por um momento de distração de Disebek Djau, Sadeh já tinha deixado a câmara em segurança, era hora de agir. Assim que a luz do cristal se extinguiu, com todos ainda cegados pelo brilho da pedra, ele aproveitou para desarmá-lo e com a mesma arma atirar, Disebek Djau surpreso não teve chance de se defender.
– Isso é pelo meu pai! Eu jurei que me vingava, e aqui está, demorou, mas eu vim Nikha-Meon! – foi o que Kaled disse ao atirar a queima-roupa no homem que pode reconhecer nos olhos de Kaled a promessa feita por Neferin, um pouco tarde, mas Disebek Djau acreditou nas histórias de Egmar.
Aproveitando-se do momento de confusão, Egmar fez o mesmo que Kaled, rendeu Ciro que estava completamente absorto com o processo no esquife.
Depois de matar Ciro, Egmar dominou novamente Kaled. Rômulo acompanhou tudo sem deixar seu lugar. Egmar sabia que os outros reféns não poderiam estar muito longe e os encontrou facilmente.
Sadeh não soube ao certo o que sentiu ao ver o corpo de Disebek Djau com o rosto mergulhado numa poça de sangue. Ela tinha amado aquele homem por anos, mas agora tudo he pareceu indiferente; Kaled estava bem, isso bastava.
Não foi a morte de Disebek Djau que a perturbou, Sadeh não pode partilhar com ninguém, mas viu no pescoço do homem a ampola que continha o vírus T-rh5, ela estava completamente estilhaçada pela queda do corpo. Sadeh soube que estavam todos mortalmente contaminados, em pouco mais de 12 horas sem o antibiótico estariam mortos, se é que o antibiótico já tinha realmente sido elaborado.
César assombrou-se com o terceiro corpo que jazia próximo ao esquife. De barriga pra baixo e igualmente mergulhado numa densa poça de sangue o corpo de Nahmbira permanecia inerte.
Milena também pode presumir o que tinha acontecido naquela câmara. O sangue que ainda brotava do corpo da mulher só jorraria daquela maneira se o tiro atingisse uma pessoa viva, e não era o caso de Nahmbira, pelo menos até o momento em que Milena tinha permanecido na câmara. Um arrepio cruzou-lhe o corpo. As evidências indicavam que o Esquife da Ressurgência funcionava plenamente.
A possibilidade de aquilo tudo ser real tinha posto em xeque as teorias de César e Milena sobre o caso. Agora eles não sabiam mais no que acreditar, e muito menos como agir ante as evidências.
– Não adianta, nossos destinos já estão traçados! – Egmar ia falando enquanto reconduzia César, Milena, Sadeh e Totila para junto de Kaled e Rômulo. – Acho que se vocês se esforçarem um pouquinho vão me entender, não foi muito bom ser banido daquela forma...
Exilado nos confins da África, Hary-Seshta, somou seus sortilégios com a vasta cultura sul-africana. Muitos anos de estudo e práticas sombrias o tornaram o maior e mais poderoso sincrético da antiga civilização. Alguns o chamavam de Xamã, outros o tratavam como um Orixá, outros de Pagé, ainda alguns de Feiticeiro, e assim por diante num estranho ecletismo jamais antes presenciado. Tornou-se a mais sombria referência do mal na região.
Antes de morrer, muitos anos depois de seu desterro, Hary-Seshta, em sua última prática ritualística evocou todos seus pretensos poderes extraordinários e concluiu a maldição que havia preparado por todos aqueles anos de exílio. Diante de um pentágono regular estrelado que havia pintado a sangue no chão de sua cabana, ele cortou a ponta de seu indicador esquerdo com uma adaga afiada.
Com o sangue que escorria escreveu letárgico alguns nomes no interior do pentagrama, enquanto balbuciava oratórias pagãs malditas. A prática amaldiçoava e condenava o espírito de todos envolvidos no episódio da morte do Faraó Selkheamon. As almas inscritas no pentágono estariam presas e sentenciadas a voltarem, numa outra vida, se reencontrando naquele mesmo chão, para que finalmente o espírito de Hary-Seshta pudesse se vingar e retomar o plano de dominação e supremacia dele e de Selkheamon.
A absurda coincidência havia sido fabricada. Nada era mero acaso, Egmar tinha evocado todos para estarem ali e presenciarem a volta eminente de Selkheamon.
– Até mesmo essa mulher – referiu-se a Nahmbira – serviu para alguma coisa! Todos sabemos que a Câmara está funcionado perfeitamente. Agora quero ver com que cara vocês vão enfrentar o Faraó! Vocês o mataram, e eu trouxe vocês aqui para esse acerto de contas! – o olhar de Egmar era diabólico, tudo aquilo tinha se tornado uma obsessão para ele.
– Vamos logo com isso Egmar, chame esse Selkheamon de uma vez! – Kaled desafiou Egmar duramente, Sadeh o repreendeu com um olhar de reprovação e medo.
O jovem rebelde que acompanhava Egmar retomou o processo. O corpo da criatura permanecia ali perto, não demorou e ele foi apropriadamente acomodado no esquife.
Recomeçava o ritual da ressurreição.
– Vamos logo, o barulho veio por aqui! – Ciro apressou o passo e seguiu por um corredor ascendente. A experiência policial de Ciro ajudada pelos rastros deixados o guiou certeiramente. Como um cão farejador ele acertava o caminho com precisão.
Depois de algum tempo andando rapidamente pela pirâmide chegaram a ante-sala da Câmara da Ressurreição. Ciro fez um sinal com a mão pedindo que Rômulo e Totila parassem e fizessem silêncio atrás dele, quis observar oculto o que se passava lá dentro.
Ciro usou um tom de voz baixo: – Muita calma agora, eles são perigosos. Temos que surpreendê-los! – Ciro sacou um revólver calibre 38 que trazia na cintura. Rômulo e Totila ficaram tensos com a situação inédita e perigosa. Trêmula a japonesa suou como nunca em sua vida.
Dentro da Câmara Egmar verificava os últimos detalhes para dar início ao processo de ressurreição. O cristal já estava encaixado no ápice da pirâmide e parecia ter acumulado energia o suficiente. Assim que o Esquife da Ressurgência fosse ocupado, automaticamente começaria a atividade na câmara.
Somente Disebek Djau percebeu a agitação na ante-sala, ele estava atento como se já esperasse que algo fosse acontecer a qualquer momento.
Assim como Egmar que havia entrado na câmara causando grande impacto, Ciro fez o mesmo, logo seguido da tímida presença de Rômulo e Totila.
– Parem tudo que estão fazendo aqui! – ordenou Ciro com a voz alta e forte, impondo autoridade e apontando a arma para Egmar.
A exceção de Disebek Djau, todos foram tomados de assalto. Ainda que se parecesse com uma reprise a cena de alguém entrando e mudando os rumos da história, ninguém imaginava que fosse acontecer novamente.
Nada mais surpreenderia Milena, mas ainda conseguio se estarrecer com os acontecimentos. Ela mal podia acreditar no que via, estava perplexa ao ver Totila na pirâmide,. A presença deles pareceu-lhe a salvação.
Totila deu um sorriso nervoso para a amiga, mas permaneceu ao lado de Ciro até que as coisas fossem devidamente resolvidas. César também ficou surpreso com a entrada inesperada daquelas pessoas. Reconheceu Rômulo e Totila, já tinha os visto em coquetéis na casa de Estela Campos, a editora da Co-Fator, no mesmo instante entendeu quem era o verdadeiro agente duplo da Co-fator e da Vis-à-Vis: a japonesa insossa!
Depois da surpresa, Milena e César identificaram mais um personagem do passado. Os olhos de Rômulo não deixavam dúvidas, mesmo a princípio tendo o confundido com Oscar, agora tinham certeza. Rômulo era sem dúvida a personificação de Akhenfis, o príncipe morto pela serpente em pleno púlpito. A maneira que Rômulo se portava denunciou que ele também já tinha tido a revelação de sua morte trágica no passado, o pobre homem estava abalado e sem entender quase nada.
Levou mais algum tempo, mas sincronicamente César e Milena reconheceram outra pessoa, e não era ninguém que vinha de outra vida.
Ciro, o policial que agora dominava a cena era o mesmo homem que os tinha perseguido nos subterrâneos do Inlab. Antes que pudessem perguntar algo, Egmar tomou a frente.
– O que significa isso? Quem é você? – mesmo intimidado não mudou o tom de voz, sua arma estava na cintura e ele pensou ainda ter o controle da situação.
Egmar fez um sinal para que Disebek Djau fizesse alguma coisa, no entanto Disebek Djau calmamente foi até Egmar e o desarmou. A situação perdia completamente o sentido para os espectadores. Disebek Djau tinha desarmado seu patrão.
Egmar era o mais surpreso de todos, ele levou algum tempo até entender que Disebek Djau estava deliberadamente ajudando o homem que o ameaçava.
Mesmo Totila e Rômulo que acompanhavam Ciro estavam sem entender o que se passava. Disebek Djau fez reféns Egmar, Totila e Rômulo que passaram a fazer companhia aos outros sentados no chão ao fundo da câmara.
– Agora quem dá as ordens aqui sou eu! – Ciro tinha deixado a falsa cordialidade que usara para se aproximar de Totila. Desta vez ele agia como um chefe de quadrilha, e Disebek Djau era seu cúmplice.
– O que você faz aqui? Você não faz parte disso, nós somos um grupo fechado! – Egmar mesmo dominado pelos acontecimentos mantinha a pose e a língua afiada, fez novamente referência ao episódio da morte do faraó no passado. Ciro não pertencia ao grupo de reencarnados que Egmar tanto defendia.
– Você tem razão Egmar, minha história é bem mais recente que a de vocês, o que não me impede de acreditar! – agora era Ciro que esbanjava bom humor e o mesmo ar de vitória que antes Egmar usava.
– Disebek Djau, você me traiu! Traiu a história e a lealdade que nos liga a outras vidas! – Egmar tentou resgatar a fidelidade que Disebek Djau tinha como seu pupilo no Egito Antigo, mas a falta de caráter do homem era mais forte que seu instinto de lealdade herdado.
Ciro abraçou Disebek Djau cumprimentando o parceiro eficiente – Nessa vida ele é MEU sócio! Sem esse cara eu não seria ninguém, é meu braço direito! Somos sócios há... o quê? – ele confirmou a data com Disebek Djau – Sete anos? É isso!
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A história que Ciro havia contado a Totila não era completamente genuína. Ciro Dahfik foi o mais famoso e eficiente investigador da polícia do Cairo e realmente tinha deixado à corporação, e não por vontade própria.
Hamed Saul, parceiro de Ciro na polícia havia descoberto que o próprio Ciro era o chefe da maior quadrilha de tráfico de drogas e contrabando do Egito.
Na época Disebek Djau, que trabalhava com ele, estava no Brasil articulando um novo braço do tráfico e procurando consortes graúdos da América do Sul.
No Egito o cerco apertou em torno à quadrilha de Ciro, quando finalmente Hamed ia desarticular o bando, Ciro em fuga acabou sofrendo um grave acidente de carro onde, Nahmbira, sua esposa, ficou gravemente ferida e acabou morrendo mais tarde. Ciro jamais se conformou com a culpa pelo ocorrido com sua mulher. O caso de tráfico acabou sendo abafado, mas ele foi desligado oficialmente da corporação.
Quando Disebek Djau soube do acidente de Nahmbira e do desbaratamento da quadrilha, voltou imediatamente, ele tinha boas notícias vindas do Brasil e queria rearticular seus negócios.
Disebek Djau tinha conhecido no Brasil um outro grande contrabandista, Egmar Martins de Alcântara. Logo se tornaram grandes parceiros, mesmo porque Egmar, já alertado em sessões particulares no Manancial e ciente de sua vida pregressa, reconheceu em Disebek Djau o seu cúmplice de outrora. Para Egmar, completamente cego pelas descobertas das reencarnações, esse foi o sinal de que toda a história se encaixava perfeitamente, e passou assim a confiar cegamente em seu novo parceiro.
Disebek Djau achou toda aquela história de reencarnação e ressurreição uma grande besteira, mas interessou-se profundamente pelo tesouro do Faraó e a possibilidade de voltar ao Egito muito bem custeado.
Ciro ao pôr-se a par das lendas da pirâmide do Faraó Desconhecido contadas pelo sócio, e entusiasmou-se imediatamente. Era sua chance de se redimir ante sua esposa que ainda estava no hospital vivendo com o auxílio de máquinas. Na noite em que a morte cerebral foi diagnosticada, Ciro pôs em prática seu plano.
Não foi difícil retirar do hospital com discrição o corpo de Nahmbira, ele tinha muita gente lhe devendo favores do seu tempo como policial. Desde então passou a conservar o corpo de Nahmbira em criogenia, até que descobrissem os itens necessários para a ativação da Câmara da Ressurreição. A idéia parecia-lhe também muito surreal, mas era uma tentativa, sua última tentativa.Naqueles dias apesar da pirâmide ter sido descoberta os pesquisadores não encontravam a múmia do Faraó, aquela nova pirâmide era extremamente complexa. Então Ciro e Disebek Djau fraudaram a descoberta da múmia para que Egmar fosse pressionado a liberar mais verbas e encontrar mais rapidamente os outros itens faltantes. Eles usaram uma múmia qualquer roubada de um museu para se passar pelo Faraó Desconhecido, o truque funcionou magnificamente, todos acreditaram na falsa múmia. Com essa descoberta Egmar motivou-se na busca da Pedra Apical e da Chave de Anúbis.
Mesmo com as verbas extras levaram ainda alguns anos até que encontrassem os outros dois apetrechos, nesse meio tempo, por sorte acabaram encontrando o verdadeiro sarcófago do Faraó Desconhecido. Quando a múmia falsa saiu de Brasil e voltou para o Cairo, antes do congresso, Ciro e Disebek Djau substituíram a peça falsa pela verdadeira.
Como Milena e César descobriram a troca das múmias e poriam tudo a perder, Ciro tentou matá-los no Inlab, mesmo que agora o esquife verdadeiro estivesse em poder de Egmar.
Agora isso não fazia mais diferença, a espera de anos estava enfim prestes a acabar e Ciro teria de volta sua esposa em todo esplendor de sua juventude. Ele não desperdiçaria aquela oportunidade trazendo a vida uma criatura humanóide em detrimento a vida de sua esposa, Ciro cria no poder da pirâmide tanto ou mais que Egmar e estava disposto a usar esse poder em Nahmbira.
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A caixa grande que havia chegado no acampamento há alguns dias era o corpo de Nahmbira. Disebek Djau já o tinha enviado para pirâmide, ele estava escondido ali mesmo na câmara num outro canto, ocultado pelos tesouros.
Quando Ciro se preparava para deixar o Cairo e ir até a pirâmide executar seu plano foi surpreendido por Totila e Rômulo e para não despertar suspeitas levou com ele os dois.
Disebek Djau descobrio o caixão térmico, especialmente desenvolvido para Nahmbira, Ciro estava realizado com a possibilidade que vislumbrava.
– Aquela caixa César, é a que vimos os rebeldes carregando quando viemos pela primeira vez na pirâmide, lembra? – sussurrou Milena, César lembrou do ocorrido e assentiu com a cabeça sem tirar os olhos do que acontecia no salão. Sadeh e Kaled também já tinham visto aquela caixa circulando pelo acampamento.
Egmar assistia aquilo tudo com os olhos chispados de ódio, certamente eram os piores momentos de sua vida.
A mulher estava realmente muito bem preservada, se não fosse pela palidez e pelos efeitos da criogenia, poderiam dizer que ela repousava num sono tranqüilo. Disebek Djau ajudado pelo rebelde, que antes servia a Egmar, depositou o cadáver de Nahmbira dentro do Esquife da Ressurgência, os processos começariam imediatamente.
César cochichou ao ouvido de Milena, eles aproveitariam a confusão para a fuga, mas Kaled não pretendia deixar o lugar sem antes cumprir o juramento e ver Disebek Djau morto.
Disebek Djau fechou cuidadosamente o Esquife da Ressurgência. Todos fitavam a cena assombrados.
– Como eu imaginava! Não aconteceu nada! – cochichou Milena a César de maneira cética.
Foi como se as palavras de Milena despertasse a Pirâmide de um sono profundo. Um pequeno tremor sacudiu a todos levemente. A sensação que César teve era exatamente essa, como se a pirâmide estivesse acordando após milênios de espera, despertando aos poucos e de mau humor.
Um zunido estranho chamou a atenção para o cristal no alto da câmara, era o zunido da vibração que ele estava sofrendo. Logo sua translucidez foi variando suavemente em outras cores. Ele passou gradativamente de um branco transparente para um laranja intenso, quase vermelho, e continuava cada vez mais emitindo o zunido vibratório.
A pirâmide voltou repetidas vezes a tremer, cada vez um pouco mais forte, causando assim a queda de alguns tesouros expostos na câmara. Caiam também pelas frestas das rochas densas nuvens de poeira e areia.A sala foi ficando cada vez mais clara, a partir do centro e espalhando-se por todos os cantos. Tudo ia acontecendo simultaneamente. Logo a luz ficou tão intensa e branca que era quase impossível permanecer com os olhos abertos sem a proteção das mãos, no entanto ninguém ousava desviar o olhar do esquife que parecia também se iluminar, refletindo a coluna de luz mais densa que incidia sobre ele.
Todos podiam sentir o campo de energia que se formava a partir do cristal e ia absorvendo tudo a sua volta. Primeiro sentiram os pelos do braço levantando pela força elétrica do campo, logo sentiam por toda pele uma estranha sensação que parecia fazer uma suave cócega e um formigamento leve.
A luz que tomava todo o lugar por vezes piscava fortemente, como em relâmpagos ou flashs, cegando-os ainda mais. A vibração que agora parecia ser ressonada por todas as paredes da pirâmide causou em todos um intenso relaxamento muscular, sentiam uma dormência leve e confortável por todo corpo.Milena estava quase em transe quando foi desperta por César indicando que era hora de partirem, ele chamou Sadeh também. Os outros pareciam hipnotizados com o fenômeno e não perceberiam a fuga, exceto Totila, que esperou um tempo e os seguiu, ela não ficaria ali.
A pirâmide inteira estava com aquele clima estranho, como a Câmara da Ressurreição estava no centro exato dela, tudo que acontecesse lá seria sentido em todos os lugares.A fuga não chegou a ser percebida por ninguém, mesmo a pirâmide sendo freqüentemente sacudida eles conseguiram se afastar com certa segurança.
– Vamos ficar aqui até isso acabar, pode ser perigoso continuarmos agora, alguma rocha pode se soltar e cair sobre nós. – César parecia realmente preocupado com a estabilidade física da pirâmide que constantemente arrebatada por aquela energia.
– Venham por aqui! – Sadeh os levou até uma espécie de esconderijo, exatamente onde Fhara tinha se escondido dentro da pirâmide. – Foi aqui que eu fiquei escondida há alguns milhões de anos! – brincou.
– Esperem por mim! – Totila surgiu atrás deles, todos se abrigaram no esconderijo indicado por Sadeh.
Milena desejava mesmo ficar frente a frente com a amiga. – O que você e o seu namorado fazem aqui? Que ligação vocês tem com esse Ciro Dahfik? – Milena sabia que o Sr. Morales mandaria Totila, mas a presença de Rômulo e Ciro era inexplicável.
– Vamos Totila, conte para Milena o que você faz aqui! Conte de onde nos conhecemos e quem na verdade trabalha para Estela Campos! – César tiraria de suas costas a culpa que ele não tinha. Ele imaginava a ligação de Estela com Totila, e o acordo que as duas tinham sobre troca de informações.
Totila ficou completamente sem graça, Milena nunca tinha visto a amiga assim – Bem eu... sabe como é Lena, era a oportunidade da minha vida! E esse Ciro me enganou! Eu posso explicar tudo...
Os tremores e a onda de energia continuaram ainda por algum tempo, depois disso puderam sentir nitidamente a queda repentina das vibrações e a retração do campo de energia.
Milena estava impressionada com o descaramento de Totila, elas eram amigas há mais de cinco anos e Milena nunca poderia imaginar que Totila pudesse prejudicá-la daquela maneira. Sentiu-se ainda mais culpada por ter repudiado César por tanto tempo e por não ter dado ouvidos a ele quando contou ainda no hotel que era inocente.
Aquele último golpe fez com que Milena quisesse sair ainda mais depressa dos domínios de Selkheamon, queria ficar longe daquilo tudo para poder por em ordem seus pensamentos e discernir tudo que via e ouvia desde que deixara o Brasil, embora já não tivesse mais dúvidas sobre o caráter fraco da amiga.
Foi dela o ímpeto de deixarem o esconderijo e prosseguirem na fuga, no entanto antes de alcançarem novamente o corredor principal um barulho chamou-lhes a atenção. Não era nenhuma descarga elétrica, como tinham ouvido antes, agora se tratava de mais um disparo de arma de fogo. Logo em seguida ouviram mais outros dois disparos.
– Meu Deus! O Kaled está lá! – a preocupação de Sadeh era a mesma de César e Milena, o jovem indiano tinha permanecido na câmara.
– Será que a ressurreição funcionou? – César mais que preocupado estava curioso com o fim do processo na câmara.
Totila num fio de voz tentou inserir-se: – O que está acontecendo lá? O que foi aquele show devastador de pirotecnia? Alguém pode me explicar?
– Eu explico tudo minha jovem! – a voz surgiu do fundo do corredor, Egmar havia os reencontrado.
Novamente Egmar estava com sua arma em punho e outra vez com o ar de vitória estampado no rosto. Ele tinha voltado para buscá-los, pretendia dar continuidade ao seu projeto e pelo visto a platéia era fundamental.
Milena sentiu-se numa máquina do tempo, acabou voltando para a câmara de onde tinha escapado há poucos minutos, ela já estava no limite, não agüentaria mais a pressão daqueles acontecimentos. Estava a um passo de uma crise nervosa, seu corpo tremia quase sem controle, nunca teve antes um ataque como aquele que se aproximava.
Ao entrarem na câmara tiveram idéia do que havia acontecido. Os três corpos estirados no chão davam a noção da tragédia.
***
Kaled esperava por um momento de distração de Disebek Djau, Sadeh já tinha deixado a câmara em segurança, era hora de agir. Assim que a luz do cristal se extinguiu, com todos ainda cegados pelo brilho da pedra, ele aproveitou para desarmá-lo e com a mesma arma atirar, Disebek Djau surpreso não teve chance de se defender.
– Isso é pelo meu pai! Eu jurei que me vingava, e aqui está, demorou, mas eu vim Nikha-Meon! – foi o que Kaled disse ao atirar a queima-roupa no homem que pode reconhecer nos olhos de Kaled a promessa feita por Neferin, um pouco tarde, mas Disebek Djau acreditou nas histórias de Egmar.
Aproveitando-se do momento de confusão, Egmar fez o mesmo que Kaled, rendeu Ciro que estava completamente absorto com o processo no esquife.
Depois de matar Ciro, Egmar dominou novamente Kaled. Rômulo acompanhou tudo sem deixar seu lugar. Egmar sabia que os outros reféns não poderiam estar muito longe e os encontrou facilmente.
Sadeh não soube ao certo o que sentiu ao ver o corpo de Disebek Djau com o rosto mergulhado numa poça de sangue. Ela tinha amado aquele homem por anos, mas agora tudo he pareceu indiferente; Kaled estava bem, isso bastava.
César assombrou-se com o terceiro corpo que jazia próximo ao esquife. De barriga pra baixo e igualmente mergulhado numa densa poça de sangue o corpo de Nahmbira permanecia inerte.
Milena também pode presumir o que tinha acontecido naquela câmara. O sangue que ainda brotava do corpo da mulher só jorraria daquela maneira se o tiro atingisse uma pessoa viva, e não era o caso de Nahmbira, pelo menos até o momento em que Milena tinha permanecido na câmara. Um arrepio cruzou-lhe o corpo. As evidências indicavam que o Esquife da Ressurgência funcionava plenamente.
A possibilidade de aquilo tudo ser real tinha posto em xeque as teorias de César e Milena sobre o caso. Agora eles não sabiam mais no que acreditar, e muito menos como agir ante as evidências.
– Não adianta, nossos destinos já estão traçados! – Egmar ia falando enquanto reconduzia César, Milena, Sadeh e Totila para junto de Kaled e Rômulo. – Acho que se vocês se esforçarem um pouquinho vão me entender, não foi muito bom ser banido daquela forma...
Exilado nos confins da África, Hary-Seshta, somou seus sortilégios com a vasta cultura sul-africana. Muitos anos de estudo e práticas sombrias o tornaram o maior e mais poderoso sincrético da antiga civilização. Alguns o chamavam de Xamã, outros o tratavam como um Orixá, outros de Pagé, ainda alguns de Feiticeiro, e assim por diante num estranho ecletismo jamais antes presenciado. Tornou-se a mais sombria referência do mal na região.
Antes de morrer, muitos anos depois de seu desterro, Hary-Seshta, em sua última prática ritualística evocou todos seus pretensos poderes extraordinários e concluiu a maldição que havia preparado por todos aqueles anos de exílio. Diante de um pentágono regular estrelado que havia pintado a sangue no chão de sua cabana, ele cortou a ponta de seu indicador esquerdo com uma adaga afiada. Com o sangue que escorria escreveu letárgico alguns nomes no interior do pentagrama, enquanto balbuciava oratórias pagãs malditas. A prática amaldiçoava e condenava o espírito de todos envolvidos no episódio da morte do Faraó Selkheamon. As almas inscritas no pentágono estariam presas e sentenciadas a voltarem, numa outra vida, se reencontrando naquele mesmo chão, para que finalmente o espírito de Hary-Seshta pudesse se vingar e retomar o plano de dominação e supremacia dele e de Selkheamon.
***
A absurda coincidência havia sido fabricada. Nada era mero acaso, Egmar tinha evocado todos para estarem ali e presenciarem a volta eminente de Selkheamon.
– Até mesmo essa mulher – referiu-se a Nahmbira – serviu para alguma coisa! Todos sabemos que a Câmara está funcionado perfeitamente. Agora quero ver com que cara vocês vão enfrentar o Faraó! Vocês o mataram, e eu trouxe vocês aqui para esse acerto de contas! – o olhar de Egmar era diabólico, tudo aquilo tinha se tornado uma obsessão para ele.
– Vamos logo com isso Egmar, chame esse Selkheamon de uma vez! – Kaled desafiou Egmar duramente, Sadeh o repreendeu com um olhar de reprovação e medo.
O jovem rebelde que acompanhava Egmar retomou o processo. O corpo da criatura permanecia ali perto, não demorou e ele foi apropriadamente acomodado no esquife.
Recomeçava o ritual da ressurreição.
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